Supergirl trabalha, em quarenta minutos com The Faithful, o que Batman Vs. Superman não conseguiu em três horas.
O grande confronto entre Batman e Superman, no filme que prometia trazer profundidade para o universo de adaptações de histórias em quadrinhos, aconteceu por causa de um culto a uma poderosa e quase divina entidade. Por quase três horas e vários enquadramentos sugestivos, inclusive com seu herói morrendo por causa de uma lança bem similar àquela utilizada pelos romanos em crucificações, Zack Snyder tentou trazer a luz o debate a respeito do culto, de sua figura quase divina, permeada por luz e momentos de adoração. Só que onde Snyder falhou, Supergirl surpreendeu.
A terceira temporada de Supergirl está bem mais madura e centrada. Enquanto o segundo ano da série foi responsável por vários desvios desnecessários, com Winn e sua namorada, James e o Guardião, Mon-El… O terceiro está bem melhor centralizado e dividido. Com a temática da religião, Supergirl foi além do esperado e entregou um de seus episódios mais diferentes e eficientes, sempre com aquelas poderosas alegorias do mundo real.
Supergirl, como heroína, é muito superior a seus companheiros de Arrowverse. Enquanto Barry passa a maior parte do tempo corrigindo os erros que comete, Oliver preso a sua história como Oliver e raramente como Arqueiro Verde e o time de Lendas com um foco bem mais forte no divertido e piegas, sobra para a última filha de Krypton a responsabilidade de salvar a pessoa comum, diariamente. Exatamente por este motivo e graças ao foco que a série sempre deu para sua personagem principal como um símbolo de esperança, foi possível ter um capítulo como The Faithful, que coloca a Supergirl como centro de adoração de um culto a Rao. Em meio a mensagem do perigo de figuras religiosas, o roteiro de Paula Yoo e Katie Rose Rogers colocou Kara no centro da história, literalmente.
Diferente de Batman V Superman, Supergirl faz questão de, o tempo todo, relembrar a seus companheiros e também ao responsável pelo culto, que ela não é uma divindade. Ela não paira no ar enquanto uma família precisa, desesperadamente, de ajuda. Sua atitude não é a de se permitir ser tocada por uma multidão, após salvá-los, com superioridade. Kara Zor-El se mostra incomodada com a adoração, a todo momento. Também fica bem clara a mensagem quando o grupo de meninas na escola aparece, com todas vestidas de Supergirl. O foco da série e da heroína não é ser uma deusa entre homens, é a de inspirar e o episódio consegue passar essa mensagem com perfeição. Ela luta porque ela pode, mas compreende que não pode salvar a todos e que aquele pastor, em especifico, foi salvo porque ela foi egoísta e quis salvar a própria irmã. Foi sorte. Ou teria sido milagre? The Faithful também tenta entrar um pouco neste lado, mas o debate é melhor quando centralizado nas outras questões, de responsabilidade e representação.
A série vai além e não apenas a coloca como uma pessoa comum que, por causa de sua biologia, possui poderes incríveis, mas dedica um momento inteiro para que o líder religioso a veja sangrar. Aqui, na série, o sangramento de uma figura tão poderosa não é usado para potencializar a ameaça de seu antagonista, mas para provar que ela é feita do mesmo material que os outros a sua volta, um material que demora mais para quebrar, mas que quebra. Supergirl e sua sensibilidade consegue fazer com que esta temática seja trabalha como a personagem merece e não busca, em nenhum momento, criar uma imagem inalcançável para sua protagonista.

Outro ponto que também foi bem aproveitado dentro do capítulo foi a situação de Sam. Existiu um conforto muito grande dentro do sistema de amizade que estas cinco mulheres desenvolveram. E é muito valioso ter um elenco feminino tão grande, com cada uma representando um lado muito válido do empoderamento, em várias esferas do pessoal e do profissional. Temos uma mãe e CFO, um casal lésbico com uma agente governamental e uma policial, uma super-heroína e repórter, uma grande empresária, todas amigas e companheiras, sem rivalidade e com muito coração. A montagem com elas compartilhando um momento agradável de amizade é muito válida. Que outra série do Arrowverse tem 5 mulheres em seu elenco, com todas no mesmo cômodo, e importantes para a progressão da série?
Por enquanto o trabalho feito pelo time criativo tem girado ao redor das anunciações. Vimos o que aquela outra nave Kryptoniana, que apareceu no primeiro episódio da temporada, tinha em seu interior, com Sam recebendo uma visita surpresa enquanto tentava entender as tatuagens kryptonianas espalhadas por seu corpo. De maneira similar a trama de Alex e Maggie continuou seu desenvolvimento. Alex finalmente confessou que seu desejo de ser mãe pode significar o fim de seu relacionamento, mas ainda estamos no terreno da preparação. Não sei exatamente quantos episódios Floriana Lima assinou para esta temporada, mas com participação limitada e indo para o quinto capítulo, acredito que o término acontecerá logo.
Vi algumas pessoas reclamando do desenvolvimento que a série está dando para Maggie, já que ela pretende romper o relacionamento entre ela e Alex. Bom, primeiro é preciso compreender que a série não está “perdendo tempo” ao entregar história e relevância para Maggie. Ao contrário, a produção de Supergirl está trabalhando bem o desenvolvimento de Alex através da sua parceira. O surgimento do pai, por exemplo, serve para impulsionar a motivação para que ela não deseje ter filhos, apesar da confissão de que o pai não tinha nenhuma relação, e também para fundamentar Alex e seu desejo de ser mãe. Cada passo está sendo muito bem pensado e apesar de não concordar muito com o motivo, o arco está sendo tratado com o respeito que os fãs merecem.
Supergirl está trilhando um caminho bem mais maduro e obscuro, mas ainda cheia de momentos calorosos e importantes. A amizade entre essas mulheres apenas ressalta quão dolorosa será a transformação de Sam em Reign e também como o grupo se unirá em prol de um motivo só. O final, com a demonstração da prática religiosa e o sofrimento de Alex, foi uma bela maneira de fechar o excelente episódio.
Easter eggs e outras informações em The Faithful:
– Nos quadrinhos Reign não era a única destruidora de mudos criada pela tecnologia kryptoniana. Existiam outros. Será que aquela nave trouxe outros worldkillers, ou apenas devotos como aquela misteriosa mulher?
– O Culto de Rao já apareceu antes em uma HQ, no Superman: Blood of My Ancestors #1 – Blood of My Ancestors.
– Chyler Leigh sempre maravilhosa. A atriz trabalha muito bem quando precisa chorar. Apesar de não gostar de ver Alex chorando.
> STRANGER THINGS 2 – Veredito
– Corville diz que o brilho nos olhos da Supergirl estão apagados. Poderia a série estar lidando com uma possível depressão para sua heroína? Gostaria de ver sim, confesso.
– E bom, Supergirl nem precisa de muitos elogios, mas vou deixar essa imagem aqui para quem precisa de um incentivo visual:
















