Priorizando a fluidez e invertendo a lógica da narrativa, é assim que David Lynch e Mark Frost começam a desenhar o último ato da nova temporada de Twin Peaks. Quando popular no início dos anos 90, a série era conhecida por provocar na audiência um total clima de incerteza e foi isso que a transformou em um fenômeno ainda maior com o passar do tempo.
Essa ausência de respostas precisas ainda é o que motiva a maior parte dos seus fãs, que estão sempre apostando nas inúmeras e descabidas possibilidades, cientes que nada corre no plano das certezas. Por isso é tão natural que as reviravoltas acabem não correspondendo a todas essas teorias que semanalmente sentimos o prazer de criar e esse não é nem de longe um problema.
O episódio 14 foi o que definitivamente colocou Twin Peaks no centro do furacão e trouxe muitas das respostas que andamos semanalmente tentamos responder. Um fato curioso, antes dos comentários sobre os principais eventos, é perceber como na ausência do Cooper enquanto agente do FBI, ganhamos de presente um Gordon bem-humorado, engajado e extremamente carismático. Pode não parecer uma troca justa para muita gente, mas para mim foi uma ótima escolha; é inegável que o trabalho do Lynch como ator tem sido de longe um grande diferencial.
É ele que entra em contato com o xerife Truman logo no início do episódio e que recebe a notícia sobre as páginas do diário de Laura e da possível existência dos 2 Coopers. Albert, outro personagem central, aproveita para tirar muitas das nossas dúvidas sobre o Blue Rose, apontando como o primeiro caso cravou o nome do projeto secreto e consequentemente nos situando diante da natureza e dos objetivos do programa.
Os nomes de Jeffries e Briggs são mais uma vez citados, visto que ambos, em diferentes fronts, estavam envolvidos até a cabeça nos mistérios. A relação de Gordon e do major com o Blue Rose é muito bem detalhada no livro “A história Secreta de Twin Peaks”, para os que ainda não leram.
Foi nesse momento que tivemos uma surpresa nunca apontada nos fóruns e nas reviews que leio semanalmente: Diane e Janey-E serem irmãs. Uma ponte que aproxima ainda mais os núcleos que antes pareciam completamente dispersos.
No campo dos sonhos

O sonho de Lynch foi o meu segundo momento preferido do episódio. Nele estavam Bellucci e Cooper, a primeira convidando Gordon para um café e do segundo não era possível ver o rosto.
Sentados, ela diz algo como:
“Somos como o sonhador que sonha e vive dentro do sonho”.
E continua:
“Mas quem é o sonhador?”
Mônica pede que Lynch olhe para trás e ele volta ao dia 16 de fevereiro de 1989, data em que o desaparecido Jeffries pulou de Buenos Aires para Filadélfia (evento presente no filme Fire Walk With Me).
“Quem você acha que está aí?”.
– Jeffries
Duas curiosidades ficam por conta da pequena redublagem que a cena sofreu. No filme original Jeffries diz : “Who do you think this is there?” e no último ep : “Who do you think that is there?”. A primeira é: o que essa troca sintática representa e será que ela fará algum sentido no futuro? Já que a cena original tem uma qualidade de áudio perfeita e segundo, quem teria dublado o Bowie?

Depois dessa tomada sensacional, com destaque para a manipulação do som usada talentosamente Lynch, que insere aquele estranho limpador de vidros na janela e depois, ao contar o sonho, utiliza todo um tratamento com a clara intenção de provocar a nossa imersão no campo dos sonhos, um espaço bastante recorrente na sua obra.
Jack Rabbit’s Palace

A ida de Bobby, Hawk e Andy ao Jack Rabbit’s Palace e o encontro com a mulher sem olhos foi o momento mais especial desse episódio. Não só porque revelou que estávamos diante de um novo portal e que a influência exercida por esse portal, de certa forma, causa um efeito, pelo menos visual, parecido com aquele visto na cena da loja de conveniência no episídio8, mas sim porque o escolhido para entrar no plano “do bem” foi exatamente o Andy. Lindo o momento em que ele segura a mão de Naido, que estava aparentemente transtornada e nua no chão. Uma prova de que para ultrapassar certas barreiras, é preciso ter o coração puro. Agora é esperar para ver como a colagem de eventos que ele vislumbrou vai ajudar na solução dos muitos mistérios que estão há 14 episódios aterrissando na cidade.

Legal que o gigante, como era conhecido nas temporadas anteriores, afirmou se chamar “O bombeiro”, sendo o fogo um elemento muitas vezes constitutivo do mal em Twin Peaks, nada mais apropriado que ele represente aquele que tenta de maneira planejada conter o avanço do medo e da violência que assombram lugares como aquele.
Outro momento curioso diz respeito ao desaparecido Billy. Citado na cena do Double R no episódio 7 e posteriormente procurado por Audrey, que diz ser ele o seu amente, tudo indica que ele é mesmo o homem na prisão em Twin Peaks creditado como o Bêbado, que está na cela ao lado de Naido (a mulher sem olhos) e Chad. Essa ligação é realizada também a partir da conversa entre Sophie e Megan no Roadhouse. Já que na última vez que a Sphie o viu, ele invadiu sua casa, onde ela estava com a mãe Tina e possivelmente seu tio, o Bêbado estava com o nariz e com a boca sangrando.
Tivemos aquele diálogo espetacular entre James e Freddie, onde o primeiro conta que a partir de uma possível epifania, recebeu uma mensagem do “Bombeiro”, informando que ele deveria vestir a luva na mão direita e seguir em direção a Twin Peks. O seu papel importante para esse desfecho pode estar ligado ao fato de que a borracha não é uma condutora de eletricidade. Gostei muito da entrada do Jake Wardle.

Os mistérios estão cada vez maiores e mais curiosos, tanto que ganhamos de presente outra cena inesquecível protagonizada pela encarnada, possuída e ainda assim amada, Sarah Palmer. Já sabíamos que ela não estava nada bem e que algo muito perverso andava perturbando a sua pacata vida. Agora as teorias que tanto amamos dizem que aquela dentro dela pode até ser a própria Laura, já que agora sabemos que existiram duas. Se não for a Laura, estaria a Sarah guardando dentro dela a famosa mãe do mal que pariu Bob no surreal episódio 8? Ou melhor, seria Sarah realmente a garota que engoliu o inseto no mesmo Ep? Eu aposto na 3.
Algumas dessas dúvidas serão retomadas nos próximos 4 episódios, outras nunca voltarão a aparecer, já que a verdadeira mágica é fazer com que todos nós possamos de alguma forma viver dentro desse mundo misterioso, intrigante e sem respostas .
Por fim, reforço que toda essa coisa mercadológica de fragmentar as narrativas, exigindo que cada parte contemple esse mar de expectativas que somos todos condicionados a criar, nos distanciamos da relação com o todo e esquecemos que as lacunas são importantes quando grandes e futuros eventos se mostram possíveis. Por isso que Twin Peaks será a melhor série de 2017, principalmente porque ela não respeita esse protocolo que está preocupado apenas em viciar os telespectadores, seu compromisso é com a história e esse último episódio é um reflexo sensacional da subversão interna dessa lógica.
Apontamentos do Log
– Torcendo por uma aparição do David #Alice, mesmo depois daquela homenagem ns créditos finais.

– Jake Wardle, ator que faz o Freddie Sykes (o menino da luva) foi convidado pelo próprio Lynch para fazer parte do elenco depois que o diretor viu um dos seus vídeos publicados no Youtube que acabou viralizando. Nele o rapaz fala em diversos sotaques/ variações da língua inglesa. Existem duas versões, a de 2010, que deve ter sido vista pelo Lycnh e uma de 2015. O raapz gravou suas cenas em 2016 e durante esse tempo fez contato pelo Skype com o diretor.
– Sophie, uma das participantes da cena no Roadhouse é na verdade a Emily Stofle, atual esposa do Lynch.
– A galera percebeu que uma das falas de Freddie Sykes para James ao contar a história da luva verdade, faz uma referência a música dos Beatles “A Day in the Life”, algo que certamente foi detectado pelo James, já que sabemos que o personagem sempre carregou ares daquele estilo de viver (risos).
– A cantora Lissie, que cantou no final do Ep, tem uns anos de carreira, na hora lembrei que escutei por muito tempo uma música chamada When I’m Alone, que deve ter sido um dos seus primeiros singles. Continua sendo ótima.
– Esse foi um EP daqueles pra gente voltar e assistir muitas vezes no futuro.
– Laura Palmer deve ressurgir e eu quero muito que isso aconteça no próximo Ep, até lá.















