Restam apenas 7 episódios (os dois últimos serão liberados juntos) para a season finale de Twin Peaks e acredito que finalmente chegamos ao terceiro e último ato da narrativa. Como foi dito diversas vezes, está bem claro que a cidade deverá sediar os principais eventos dessa reta final e o episódio dessa semana funcionou como uma espécie “segurem os cintos”, ainda vem muita coisa boa pela frente.

Mesmo nos dando mais um capítulo excepcional, ainda existe muita frustração em torno da demora para que o Cooper retorne por completo. Grande parte do púbico acreditou que a nova temporada iria acompanhar mais uma investigação realizada por ele, talvez em torno de um novo assassinato em Twin Peaks, como foi divulgado: It Is Happening Again. A verdade é que essa temporada não é sobre uma nova investigação realizada pelo Cooper e sim uma jornada em torno dos eventos sobrenaturais que foram tão importantes nas primeiras temporadas e principalmente em Fire Walk With Me.

Woodsmen
Woodsmen

Toda a mitologia em torno da Black Lodge e dos doppelgangers vem sendo ampliada e criativamente interligada ao que já vinha sido apresentado vinte cinco anos atrás. Todos os acontecimentos que foram explorados nesse episódio criam pontes bem significativas com as pistas que por tanto tempo permaneceram martelando na cabeça dos fãs.

Twin Peaks teve um destaque enorme, iniciado de forma eletrizante por duas tomadas sensacionais. Na primeira descobrimos que Miriam Sullivan está viva e conseguiu rastejar completamente ensanguentada até uma estrada próxima, local onde três garotos jogavam bola. Adorei o jogo de câmeras dessa cena e fiquei ainda mais em êxtase com a cena em que Becky liga para Shelly e parte endiabrada em direção ao quarto onde possivelmente estariam Steve e Gersten Hayward (a irmã mais nova de Donna nas temporadas anteriores). Que saúde criativa essa do David.

Steve e Gersten Hayward
Steve e Gersten Hayward

A adrenalina trouxe uma nova dinâmica para o episódio, com enquadramentos bem elaborados, explorando o melhor do elenco. Amanda Seyfried estava muito bem em cena e os closes captados pelo Lynch reforçaram mais a sua personalidade dual, complexa e infelizmente ainda submissa ao parceiro. Fiquei bastante feliz em saber que Bobby é o seu pai e que ele se tornou um homem bastante integro. Antes de passearmos pelos assustadores eventos que já rondam Twin Peaks, vamos falar as aventuras de Gordon e sua trupe em Dakota do Sul.

A melhor equipe de investigação

Albert, Gordon e Diane
Albert, Gordon e Diane

Hastings levou todo mundo para o local onde, ao lado de Ruth, encontrou o Major que hibernava: uma espécie de terreno abandonado onde também está localizada uma casa. Avistamos logo na chegada um woodsman (seres misteriosos que estão super conectados ao Black Lodge e que possuem essa forma assustadora) rondando o local. Apenas Gordon, Albert e Diane conseguiram ver a figura. Isso pode ser importante.

PORTAL
PORTAL

Muito curiosa a forma como o portal foi retratado no céu e o empenho corajoso de Gordon para ultrapassar aquela linha entre os dois níveis de realidade. Foi uma cena bem especial, principalmente porque reforça a tese de que os espaços conectados a Black Lodge transitam no tempo e no espaço e que podem ser acessados, a depender das condições, como relata Jeffries (David Bowie) em Fire Walk With Me.

Gordon vislumbrou uma fila de woodsmen provavelmente na escada da loja de conveniência. Muita gente tem apostado que aquela é a casa de Laura em um mundo invertido/realidade paralela. Lembrem que quando ela entra no quadro em Fire Walk With Me, encontrando a Sra. Tremond e seu neto, acessando rapidamente o Lodge, onde Cooper diz que ela não deve usar o anel, ela está possivelmente perto do lugar onde as entidades se reúnem para dividir garmonbozia, como prova o papel de parede usado nas duas cenas.

Gordon é afastado do portal por Albert e em seguida acompanhamos um dos woodsmen entrando no carro onde estavam o detetive Macklay e Hastings. Ele é visto apenas por Diane e logo em seguida mata Hastings (percebam que existe um padrão nessas mortes).

Sempre que ocorre alguma interferência na Black Lodge ou em alguma sala a ela interligada, os lugares que estão próximos aos portais parecem sentir o impacto. Aconteceu isso na segunda temporada (EP 20), quando o portal BL foi aberto. Automaticamente Twin Peaks pareceu sofrer alguma influência, com o aparecimento inclusive de pessoas que sentiram tremores no braço, entre elas uma mulher no restaurante de Norma, o próprio Cooper e Pete Martell.

É exatamente isso que nos leva de volta a Twin Peaks

Uma família nada tradicional
Uma família nada tradicional

A conversa de Shelly, Bobby e Becky no Double R Diner foi bem bonita, com um texto bastante sensível. Observem que nem Shelly, nem Bobby, diante da juventude que tiveram, conseguiram reproduzir um discurso politicamente correto, com aquele típico sermão protetor dos pais. Achei a escolha muito feliz.  Fiquei com pena de Norma, sempre com aquele olhar, sedenta para falar, mas escolhendo sabiamente a discrição. No final, tristeza mesmo foi ver Shelly novamente envolvida com um canalha e saber que a filha anda seguindo o mesmo caminho.

Bobby e a incrível cena do tiro
Bobby e a incrível cena do tiro

A tomada do tiro, toda ela, é sem dúvida um dos momentos mais inspirados do David. O tipo de material que funcionaria bem até mesmo sendo exibido isoladamente, daqueles que a gente volta e repete muitas vezes. Twin Peaks finalmente está no centro do turbilhão, difícil deixar a ansiedade de lado e não torcer para que os próximos eventos recebam o mesmo tipo de tratamento estético. Esses casos misteriosos funcionam como uma previsão, alertando para o mal que está novamente se alastrando pela cidade.

A conversa entre o xerife Truman e Hawk, com a participação de Margaret, chegou no momento certo e nos explicou de forma didática o que está por trás da garmonbozia, do fogo e da eletricidade, temas importantes e bastante relevantes para entender os rituais e as motivações das entidades da Black Lodge. Hawk tem bastante conhecimento sobre o passado da cidade, uma herança dos seus ancestrais (lembrar que logo no início da série ele mesmo vislumbrou a entrada para a BL). O alerta da senhora do tronco nos revela que eles irão encontrar, no mínimo, algo aterrorizante.

Mapa usado por Hawk para explicar ao Xerife Truman o que está por trás do milho e do fogo.
Mapa usado por Hawk para explicar ao Xerife Truman o que está por trás do milho e do fogo.

As cenas mais bonitas e mais tocantes ficaram nas mãos de Dougie, o personagem de poucas palavras que é de longe o melhor construído nessa temporada. É fácil entender as pessoas que se dizem cansadas de Dougie, por sentirem falta do antigo Cooper, é um argumento justo, mas acho que ele não deve criar qualquer tipo de bloqueio. Lynch costuma colocar sua visão de mundo de uma forma muito particular, sempre abrindo rachaduras que nos permitem ver a realidade de uma outra forma. É visível que Dougie representa um estado de descompasso, o tipo de pessoa que no nosso mundo seria abandonada e categoricamente invisibilizada.

A maneira como ele vem sendo colocado no papel de herói, mesmo não correspondendo ao estereótipo e contando com a ajuda das entidades do lodge, é de pura beleza. A cena em que a senhora do cassino o cumprimenta foi emocionante, ali foi possível perceber que Cooper está atento aos sons, deixando com que os sentidos mais primários atuem como guias para o seu efetivo retorno.  Toda a jornada do pagamento oferecido aos irmãos do cassino também foi hilária, um plot twist repleto de boas tiradas e com ótimas atuações. Dougie escapou da morte mais uma vez e vai ficar nas mãos de Anthony Sinclair a missão de matá-lo.

Por fim, vamos teorizar. No próximo ep teremos possivelmente a ida do Xerife, Hawk e Bob ao local indicado nas coordenadas deixadas pelo Major. Por outro lado, temos as anotações na mão de Ruth, que devem levar a trupe do FBI para outro local. São esses dados que o bad Cooper tanto deseja e que Diane tratou de tentar decorar para transmitir. Albert disse que os números indicavam uma cidade ao norte, provavelmente Twin Peaks. Nos resta saber também como o FBI vai encontrar o Cooper/Dougie, mas acredito que as digitais colhidas na caneca vão cumprir essa função.

Com isso o fim da série vai começar a ser desenhado e tenho certeza que estaremos diante de algo grande, com total envolvimento dos personagens que vivem na cidade de Twin Peaks. Fica cada vez mais interessante perceber que esse lado sobrenatural não foi pensado exclusivamente como uma espécie de lado aposto, uma realidade paralela espelhada, mas também como uma extensão do nosso mundo. A forma como os personagens reagem ao desconhecido e a maneira com que encaram aquilo que foge completamente do que encaramos como “normal”, é o que faz desse um dos melhores universos ficcionais já criados.

Apontamentos do Log.

1 – Vamos aceitar que a participação de Audrey não deverá ser mesmo grande, a própria Sherilyn Fenn disse que gravou pouquíssimas cenas. Mesmo pontual, acredito que será um momento bem marcante para os fãs.

2 – O garoto que tem uma fala na cena inicial, com a bola, é filho do criador da série Mark Frost. Travis, que é creditado como Boy Playing Catch, tem aspirações de se tornar um jogador de beisebol.

–  O posto do Big Ed finalmente foi citado, na cena do tiro.  “I was at Big Ed’s Gas Farm… and you know what? I heard shots.” Como o ator está confirmado na nova temporada, resta saber se ele está finalmente vivendo com Norma, ainda tem alguma ligação com Nadine ou está de boas vivendo sua pacata vida.

– Não foi assustadora a forma como Hawk evitou falar da mãe do mal?

– Precisamos de uma série apenas com a mulher da buzina, pra ontem.

–  A verdade é que colocar uma arma nas mãos de uma criança (e que criança) por descuido é uma mensagem tão clara que fica quase impossível negar o teor político dela.

– Fico emocionado com todas as cenas em que o Carl Rodd aparece.

– Adorei a trilha sonora desse episódio, uma das melhores até agora.

Até a próxima.

REVISÃO GERAL
Nota:
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