
Na semana passada acabou mais uma temporada de Top Chef, o reality de maior sucesso do canal americano Bravo e, com certeza, o melhor sobre gastronomia sendo exibido atualmente. E essa não foi uma temporada qualquer, foi uma grande repescagem com os melhores chefs das temporadas anteriores que não conseguiram o prêmio. Dessa maneira, o programa nos presenteou com sua temporada de mais alto nível até hoje, com uma final emocionante e a redenção de um dos mais talentosos chefs que já passou por lá.
Spoilers Abaixo:
Tudo começou em dezembro de 2010 em Nova Iorque, quando 18 chefs que não conseguiram atingir o título nas temporadas passadas retornaram para mais uma chance. Muitos, inclusive, foram os segundos colocados em suas temporadas, resultando num elenco respeitável. Eram eles: Tiffany (vice-campeã numa grande final com Harold, lembram?) e Stephen da 1ª temporada, Elia e Marcel (o polêmico vice-campeão) da 2ª temporada, Cassie, Tre e Dale (vice-campeão) da 3ª temporada; Antonia, Spike, Dale e Richard (grande favorito, mas que errou na final e ficou com o vice) da 4ª, Fabio, Carla e Jamie da 5ª, Mike Isabella e Jennifer da 6ª e Angelo e Tiffany da 7ª. Pra quem assistiu a todas as temporadas de Top Chef, não é difícil perceber que esse é um elenco de peso, talvez tirando a Jamie e o Spike.
Ao longo de 15 episódios e 30 provas, sendo várias memoráveis (sim, o programa tem um histórico de ser bem criativo em seus desafios), esses chefs foram eliminados um a um e com eles os meus chefs favoritos. Meu primeiro favorito, Fabio Viviani, foi embora no nono episódio. Ele é um cara pra quem é impossível não torcer. O seu carisma é contagiante. Depois passei a torcer por Antonia Lofaso. A chef de ascendência italiana e traços fortes ganhou minha simpatia com a partida de Fabio e mostrava que tinha grandes chances de chegar o prêmio. Entretanto, no penúltimo episódio, um tropeço (causado por uma sacanagem de Mike Isabella) acabou eliminando minha nova favorita. E mais uma vez, órfão fiquei. Chegamos assim à final, com apenas dois participantes: o grande favorito Richard Blais e o grande azarão Mike Isabella. Pra quem torcer? Por gostar bastante da criatividade que Richard usa nos seus pratos, inclusive com o uso da gastronomia molecular, tomei seu partido. Afinal, ele merecia o título lá na quarta temporada há três anos e ele só evoluiu desde então.
Logo no início temos uma das ironias que os produtores gostam de promover no programa. Cada um dos finalistas teria que escolher seus sous-chefs (os principais ajudantes do chef na cozinha) apenas provando os amuse-bouches (aperitivos para se comer em única mordida) criados pelos antigos participantes. Sensacional! Uma versão sádica de um encontro às escuras, hein? Mas o melhor foi ver Mike escolher aquela que exatamente ele não queria: Jamie, que era conhecida por fazer corpo mole na cozinha. Além dela, Mike teve no time Carla e Tifanny (ajudantes de peso). Já Richard ficou com o fraco Spike, o talentoso Angelo e minha querida Antonia. Mas apesar de todo o suspense feito nessa escolha, todos os sous-chefs foram sensacionais, inclusive Jamie e Spike. Com isso, a decisão final ficou baseada apenas na execução dos pratos, o que tornou tudo ainda mais acirrado.
Os finalistas tinham que montar um menu de quatro pratos para o restaurante dos seus sonhos para se tornar vencedor. Simples assim, sem desafios, com toda liberdade, como toda final deve ser. E quem foi achando, assim como eu, que o Richard ia ganhar com a mão nas costas, se deu mal. Mike Isabella cozinhou como ele nunca tinha feito no programa e demonstrando uma grande criatividade. Não foi uma decisão fácil mesmo e fiquei apreensivo até o final.
Primeiro Prato:
Richard
Amouse-bouche de ostra crua com sorvete de limão, rábano silvestre e salsa verde; seguido por peixe olho-de-boi cru com timos fritos de vitela, pêra asiática, picles de rábano e maionese de alho.
Mike
Beterrabas temperadas com vinagrete de chocolate, trufa e mozarela.
Aqui, houve uma unanimidade. Richard apresentou o melhor primeiro prato por uma grande vantagem. Antes de tudo, importante dizer que o amouse-bouche que ele criou não foi levado em consideração na avaliação dos juízes, já que era um prato extra. Entretanto, tanto o amouse-bouche quanto o peixe foram muito elogiados. Pena que não podemos provar, não é? Fiquei curioso com a combinação de sabores. Já Mike não impressionou muito e o seu prato, apesar de elogiado, ficou longe do requinte e dos sabores apresentados pelo Richard.
Em Tempo: Que surpresa eu tive ao ver que a tradução de sweetbreads era timo! Sabe aquela glândula que fica no tórax?
Placar: Blais 1 x 0 Isabella
Segundo prato:
Richard
Barriga de porco com bacalhau, tutano, beterraba, couve de bruxelas e kumquat (pequena laranja).
Mike
Halibute com marmelada de kumquat, purê de couve-flor e migalhas de pancetta.
Aqui, a disputa foi mais difícil. Talvez até um empate. Dois pratos de peixes elogiadíssimos pelos juízes. Entretanto, ao que parece, os sabores do prato de Richard foram incríveis. Ele conseguiu fazer o grande juiz Tom Colicchio dizer que aquele foi o melhor peixe que ele comeu em todas as edições do Top Chef. Então, com uma pequena vantagem, Richard ganha mais uma.
Placar: Blais 2 x 0 Isabella
Terceiro prato:
Richard
Costela de boi com cogumelos, marmelada de repolho roxo e purê de raiz de aipo e rábano silvestre.
Mike
Ombro de porco guisado com molho de pepperoni, repolho assado e nabo.
Confessem! Quem aí não ficou com vontade provar esse bendito molho de pepperoni do Mike Isabella? Só de lembrar já me dá água na boca. Foi uma ótima ideia e, ao que parece, muito bem executada, pois todos adoraram o seu terceiro prato. Já o do Richard foi considerado apenas bom, mas não tão marcante quanto o do Mike.
Placar: Blais 2 x 1 Isabella
Quarto Prato:
Richard
Pão de milho com sorvete de foie gras e manga batida.
Mike
Pudim de caramelo e alecrim com pinha, frutas cítricas, maçã e cereja.
Já as sobremesas não impressionaram a ninguém. No fim das contas, Mike conseguiu ser o menos pior, já que o Richard arriscou bastante na última rodada. Sorvete de foie gras? Que coragem, Richard! Foi legal vê-lo tomar uma decisão tão arriscada como essa, mas foi uma pena não ter dado certo. E assim, o placar final fica empatado.
Placar: Blais 2 x 2 Isabella
Agora, o que fazer? Richard era o grande favorito, mas Mike não fez feio, calando a boca dos que questionavam o seu lugar na final. Decisão difícil, hein? Mas ao acessar o blog do Tom Colicchio este fim de semana, li um argumento seu usado para determinar o vencedor e isso mostra que ele não poderia ter sido mais sensato.
Ele disse que nessa situação, em que os dois chefs estavam empatados no confronto direto dos pratos, a única saída era tentar definir a diferença de qualidade entre os pratos vencedores e os perdedores. No caso do 1º prato, Richard venceu por uma enorme vantagem, enquanto ele perdeu o terceiro e o quarto por uma margem bem menor.
Então, num final decidido no photo finishing, Richard se tornou Top Chef. Devo confessar que emocionei com a vitória. Apesar dele não ter sido o meu favorito em nenhum momento da temporada, você podia perceber o quanto aquela vitória tirou um peso de cima dele. O peso de falhar novamente, como ocorreu na quarta temporada e ficar conhecido como aquele que “amarela” nos momentos decisivos. Foi uma redenção completa e uma vitória que ninguém ali poderia contestar. E com as qualidades que Richard possui, tenho certeza que ele fará bom uso do prêmio. “Top Chef: All-Stars” termina coroando um de seus maiores talentos, cuja volta por cima foi inspiradora.
Em Tempo 2: “Top Chef” está renovado para a sua nona temporada que deve começar no segundo semestre.
Em Tempo 3: Espero algum dia poder provar as criações de Richard no seu futuro restaurante. Afinal, ele ganhou os 200 mil dólares patrocinados pela Buitoni, um artigo na revista Food & Wine, uma participação no evento da Food & Wine em Aspen e o título que elevou a ambição de todos: Top Chef.



















