É consenso nas redes sociais que a parte 10 da nova temporada de Twin Peaks é até agora o capítulo mais fraco. Críticas com relação ao ritmo da trama e a falta de unidade no enredo são ainda constantes. Essa reação me pegou um pouco de surpresa, admito, visto que o episódio me pareceu não só importante para o desenrolar da trama, como, por ter nos colocado diante da rotina dos personagens, conseguiu ampliar o nosso campo de visão sobre os efeitos do tempo na cidade e nos seus curiosos habitantes.

Sou um dos defensores da ideia de que mesmo Twin Peaks sendo o espaço geográfico habitado por aqueles personagens, ela sempre foi o principal personagem da trama (dividindo esse posto com Laura, claro). Uma série de elementos nos levam a concluir isso, entre eles o fato de que existe uma musicalidade que ajuda a delimitar o lugar no nosso imaginário, uma identidade criada em torno e a partir dos seus elementos cênicos e também a existência de personagens com motivações próprias, ligadas ou não a trama principal.

Provoca um certo espanto ver as pessoas dizendo que a aparição de alguns personagens é desnecessária, principalmente usando a justificativa de que deles não estão circunscritos no plot que possui maior destaque até agora. Esse parece um olhar pouco justo, visto que Nadine ou Dr. Jacoby, por exemplo, apesar de estarem mergulhados hoje em um contexto bem particular, sempre foram personagens ricos em sua totalidade, existe um forte teor crítico e poético na identidade que eles assumem. Sendo assim, acredito que seja impossível pensar em Twin Peaks sem desejar acompanhar, até mesmo por alguns segundos, o dia a dia dessas pessoas.

Por outro lado, concordo parcialmente com as pessoas que estão pedindo um maior aprofundamento dessas personas, o que acredito que vem sendo feito de forma bastante sutil. Isso ocorre porque a ideia provavelmente é ir gradativamente ampliando a mitologia em torno de Laura, Bob e Cooper, enquanto acontecimentos paralelos se desenvolvem para no final entrarem em uma mesma rota. Dougie vem se mostrando um personagem excelente, digo Dougie e não Cooper, porque acredito que a intenção desse plot é nos fazer perceber que qualquer personagem é resultado também daquilo que o cerca, é por isso que a relação entre ele e Janey-E vem recebendo tanto destaque.

Depois do breve desabafo, vamos a review.

Richard Horne

Sylvia Horne

Temos um vilão dos piores em ação. Birrento e visivelmente descontrolado, ficou comprovado, para a tristeza de muitos, que ele é mesmo filho da Audrey. Agora entendo melhor os motivos que levam a personagem não ter aparecido ainda (ela realmente não deve viver em Twin Peaks), com um filho desses, melhor se manter bem distante. Foram tantos momentos leves nesse episódio que as cenas com Horne ganharam uma força ainda maior, um contraste de sensações que o Lynch consegue provocar muito bem. Ele não só possivelmente matou Miriam Sullivan, como torturou sua avó em busca de dinheiro, destaque para a atuação da dupla Jan D’Arcy e Eamon Farren.  No final, saiu ileso a única presença em cena que merecia apanhar, aquele urso falante. Ao saber que Miriam enviou uma carta para o Xerife Thruman, Richard conseguiu cobertura de Chad. Muita gente especula que o nome da carta, diferente do que foi creditado à personagem anteriormente, possa significar que ele tenha interceptado a carta errada, mas penso que talvez seja apenas um erro de continuidade. Se alguém vai ajudar nesse sentido, essa pessoa se chama Lucy.

Uma pausa para Carl Rodd tocando e cantando do lado de fora do trailer.

Harry Dean Stanton e Lynch nos bastidores

Uma segunda pausa, corta para Steven Burnett agredindo Becky no trailer, um momento que facilmente fez referência a relação abusiva entre Shelly e Leo.

A trupe do Cassino + Dougie

Mais um bloco que se desenvolve em torno de Dougie. Já esperava que Rodney Mitchum e Bradley fossem ter algum destaque e fiquei bastante surpreso com a o tratamento cômico que receberam. Claro que Candie foi o grande destaque das cenas, mesmo sem pronunciar uma palavra. A tentativa de assassinato sofrida por Dougie exibida no noticiário, mostrou que eles também tinham relação direta que Ike “The Spike”.  Aqui temos mais uma conexão sendo criada. Duncan Todd pede que Anthony Sinclair, companheiro de trabalho de Dougie, envie uma mensagem aos Mitchums no cassino. A ideia é fazer com que eles pensem que Dougie está trabalhando contra eles em um pedido de seguro negado. A semente é plantada e os irmãos por fim planejam encontrar Dougie. Suspeito que essa nova emboscada seja o gatilho para o retorno do velho Cooper. Estou bem feliz que todas as peças tenham valor e que estejam com maestria conectadas.

Continuando nesse terreno, que bonita vem se mostrando a relação entre Dougie e Janey-E. Existe bastante cumplicidade e um carinho bem particular presente. A cena de sexo, apesar de propositalmente engraçada, me levou a admirar ainda mais esses dois personagens.

Pausa importantíssima para Albert Rosenfield e Constance Talbot jantando naquele mar de afinidades, enquanto Gordon e Preston se divertem assistindo.

Destaque também para Albert descobrindo os caminhos tortuosos por onde Diane está andando, ou sendo forçada a andar.

Mais uma aparição da Senhora do Tronco

Por fim tivemos mais dois enigmas envolvendo Laura Palmer: Gordon tendo aquela visão ao abrir a porta e a Senhora do Tronco falando para Hawk a frase que faz qualquer fã de Twin Pekas ficar arrepiado : “Laura is the one.” Ambas as cenas apontam para a importância de Laura na nova trama e são pistas de que primeiro, Gordon sabe muito além do que imaginamos. No livro A História Secreta de Twin Peaks fica bem claro que ele tem ligação direta com o conteúdo arquivado e estudado pelo Major Briggs. A cena usada de Laura no take parece ter sido aquela em que ela vai à casa de Donna e diz a famosa frase: are you my best friend?, no filme Fire Walk With Me. Na tomada da Log Lady, que sempre deixa o coração da pessoa bem apertado, tivemos, mesmo que dentro do episódio, mais um dos seus monólogos repletos de pistas que farão todo sentido no futuro.

Aparição de Laura Palmer.

Apesar do clamor gigante para que Cooper retorne totalmente, continuo curtindo bastante todos os eventos em torno de Dougie e sua família. Tenho certeza que o seu estado contemplativo funciona como uma crítica precisa ao comportamento frenético do momento, uma postura que de alguma maneira sonos levados a reproduzir e alimentar. O atual estado do personagem é uma mensagem importante que a série está nos transmitindo e precisamos estar dispostos a entendê-la. Essa exigência por grandes acontecimentos e reviravoltas, acaba nos distanciando dos aspectos mais sutis de uma boa história. Cooper, um dos personagens mais adorados da série, é hoje aquele que contempla, pouco reage e se surpreende com tamanha necessidade de urgência.

A sempre essencial, Nadine.
Rebekah Del Rio e Moby

Foi com bastante sutileza (e brevidade) que acompanhamos Nadine, personagem que nunca esteve necessariamente ligada aos eventos sobre Laura, sintonizada em mais uma transmissão repleta de politização do Dr Jabocy e assistimos na íntegra aquela apresentação linda da cantora Rebekah Del Rio (diretamente do “Club Silencio” de Mulholland Drive, aqui com participação de Moby na guitarra). Por fim, podemos dizer que esse foi um episódio sobre violência, mas também foi um capítulo sobre o amor, sobre a poesia e a leveza que, mesmo próximas do sofrimento, ainda fazem parte da vida.

Apontamentos do Log

– Precisamos elogiar Naomi Watts mais uma vez, que atriz sensacional e que personagem forte acaba de fazer parte do sempre curioso universo de Twin Peaks.

– E o Kylie todo em forma na cena da avaliação médica, que sapão.

– Apesar do contexto triste, muito boa a cena do Ben recebendo a notícia sobre a invasão do neto e convidando Beverly para sair.

– Desculpa, mas dei muita risada com os poucos segundos dados aos Jerry na floresta.

– Nadine fez o negócio das cortinas de alguma maneira prosperar, que felicidade.

– Essa imagem:

– E o bad Cooper sentado próximo a caixa de vidro? Estaria ele tentando capturar o good Cooper?

– A música cantada por Bianca se chama No Stars e foi co-escrita pelo próprio Lynch, que lindeza.

– E aquele desenho feito pelo gordon, alguma pista? Provavelmente tem relação relação com a aparição posterior da Laura. Aguardemos.

Sendo assim:

Até a próxima.

REVISÃO GERAL
Nota:
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twin-peaks-3x10-the-return-part-10Apesar do clamor gigante para que Cooper retorne totalmente, continuo curtindo bastante todos os eventos em torno de Dougie e sua família. Tenho certeza que o seu estado contemplativo funciona como uma crítica precisa ao comportamento frenético do momento, uma postura que de alguma maneira sonos levados a reproduzir e alimentar.