Pedro Rivero e Alberto Vazquez | Espanha, 2015, 76’, Animação

Pedro Rivero e Alberto Vasquez são experientes no mundo da animação. Muito se destaca em Psiconautas…, mas talvez o domínio pleno da arte seja o mais notável. Baseado na HQ lançada por Vasquez mais de uma década atrás, o filme é um retrato sombrio de jovens vivendo sob um futuro próximo de desastres ecológicos e desolamento social. Em primeiro plano estão Dinky, uma coelha adolescente frustrada com sua situação familiar e com o mundo deprimente ao seu redor, e Birdboy, garoto calado, sozinho, que vaga pelas florestas da ilha fugindo de policiais, tratado injustiçamente como uma ameaça perigosa, e ouvindo os ensinamentos de seu pai, preso na torre de um farol guardada por criaturas impiedosas. A relação dos dois é forte, romântica, mas Dinky e Birdboy partilham poucas cenas pois vivem um amor proibido, imposto por forças maiores, incompreendíveis. As mentes de Rivero e Vasquez trabalham a mil por hora, criando imagens impressionantes a partir do estilo de animação simples, minimalista, e acessam um lugar exclusivo das animações, o de domínio absoluto do que se inventa, das possibilidades impossíveis de serem realizadas pelo mundo real.

Psiconautas… é também aventureiro em tom, alternando entre a leveza das animações infantis, o terror puro de imagens horripilantes e o world-building digno de grandes obras de sci-fi. A ilha em que o filme se passa é instantaneamente marcante, multi-coloridamente deserta, restrita e inescapável. O roteiro é ligeiro, inteligente, mescla com equilíbrio risadas legítimas, como as resultantes dos objetos inanimados que ganham vida, o despertador, a boia; e o desconforto proposital frente as injustiças implacáveis que afetam fatalmente desde senhores idade desesperançosos até as crianças inocentes que anseiam partir, e nada mais.

Muitas dessas sensações são tão potentes primordialmente devido ao invejável trabalho de som de Iñaki Alonso, disposto em numerosas camadas que representam simbolicamente a situação de angústia que Dinky e os amigos passam em sua busca pelo futuro, e a de Birdboy em sua jornada torturante pelo presente. Nenhum personagem em Psiconautas… é isento do mal, e alguns são influenciados por criaturas internas sorrateiras que sussurram nos ouvidos de seus hospedeiros, insistentes, são o espírito de um mundo há muito tempo perdido e irremediável.

Mas Rivero e Vasquez não nos recusam os momentos de claridade, de esperança e mudança. São poucos, muito poucos, e tão velozes que quase esquecidos, mas estão lá. Birdboy é um personagem fascinante, persistente frente a todas as adversidades postas em seu caminho. Ao fim do filme, no clímax épico da fuga de Dinky e os amigos pelo mar, Birdboy põe-se a ajuda-los, sabendo dos grandes riscos que corre ao estacionar nos céus, sob a luz violenta do farol. Inevitavelmente é atingido pelos policiais, e desaba sem vida nas águas. É só nas imagens finais durante os créditos que Psiconautas… nos dá um vislumbre de um futuro melhor, reconstruído pela memória daqueles que ficaram para trás. Não é um desfecho ideal, utópico, mas é um possível.

REVISÃO GERAL
Nota:
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