A quarta parte desse inspirado retorno de Twin Peaks conseguiu reunir dois gêneros importantes: a comédia e o suspense, ambos fazem parte do extenso universo construído a partir da série. Trazendo um fluxo narrativo mais linear e apostando na competência do elenco, Lynch e Frost provaram nesse episódio que apesar da expansão do enredo, eles irão respeitar a essência dos personagens, preservando o que fez a série ser um grande sucesso no passado.

A sequência do Cooper “bom” no cassino continuou provocando boas risadas. O seu lado afortunado, ainda não explicado, provocou desconfiança por parte dos funcionários da casa de jogos. A pequena participação de David Dastmalchian nessa cena, um ator quem vem participando de grandes franquias como Blade Runner e Homem-Formiga, me deixou com a pulga atrás da orelha. Quero acreditar diante disso que esse cenário terá alguma importância e retornará nos futuros episódios. A cor vermelha, sempre presente nos trabalhos do diretor, deve estar sendo utilizada como uma pista, ela estava nos dados na mesa do diretor do cassino e era a cor da porta da casa de Dougie. Vi algumas pessoas reclamando da forma como o Cooper “bom” vem reagindo, parecendo hibernar intensivamente, mas penso que essa é uma postura esperada; foram 25 anos distante, sem acompanhar o frenesi que é viver nos dias atuais. Interessante perceber a diferença das reações dele, tanto diante do novo, como diante das palavras que costumava dizer no passado. Ponto para o Kyle MacLachlan, grande interpretação.

Naomi Watts, esperada participação e uma das queridinhas do David, finalmente entra em cena e faz o papel da esposa do encrencado Dougie. O talento da atriz e a qualidade do texto são impressionantes. Como sou um dos que aposta na teoria do universo compartilhando entre a série e os filmes do Lynch, achei que a Janey-E Jones vivida por ela apresenta uma linguagem corporal muito parecida com as das “duas” personagens interpretadas por Naomi em Muholland Drive, mas claro, posso está querendo enxergar coisas onde não existe nada.

Naomi e Kyle em ação.
Naomi e Kyle em ação.

A cena seguinte, a conversa de Gordon com Denise Bryson (David Duchovny), foi até agora a que teve o texto mais sensível e bonito dessa temporada. Além da cumplicidade entre eles(as), ver Gordon falando o seguinte trecho: – quando você se tornou Denise, eu disse a todos os seus colegas, aqueles palhaços, para arrumarem seus corações, ou morrerem, foi de amolecer qualquer coração. Denise é um dos poucos acertos da irregular segunda temporada de Twin Peaks. Ver uma agente federal que decide se tornar uma mulher, sendo representada na tv, em uma época onde o debate sobre identidade de gênero na grande mídia era quase nulo, é sem dúvida um grande e necessário acerto. Depois de todos esses anos, a personagem não só é a Diretora de Pessoal do Federal Bureau of Investigation, como é capaz de falar como uma mulher, dentro do contexto machista em que ainda vive.

David Duchovny, como Denise Bryson
David Duchovny, como Denise Bryson

Finalmente conhecemos o novo xerife Truman e que momento hilário aquele em que Lucy se mostra ainda impressionada com as funções básicas de um celular. Eu sempre imaginei Twin Peaks como um lugar que, de alguma maneira, resistiria ao que fosse imposto pelo tempo, nesse caso falo da tecnologia especificamente.  Excelente entrada do Robert Forster  como Frank Truman, ele faz o irmão do Harry S. Truman (o xerife que ajudou a desvendar o assassinato de Laura ao lado de Cooper). Achei esse um personagem curioso, ao mesmo tempo em que parece descrente diante do modo de vida levado pelas pessoas em Twin Peaks, ele carrega um grande respeito por isso no olhar. Outra aparição também aguardada foi a de Michael Cera, que interpreta o filho de Andy e Lucy. Estava todo mundo esperando o rapaz em um papel bem diferente, já que ele tem essa cara de lunático; na verdade eis que ele aparece com aquela personalidade sonhadora, uma mistura (visual inclusive) de Marlon Brando com a inocência característica da criação ofertada pelos seus pais. Não vou comentar a colagem no porta-retrato ao lado da mesa de Lucy, por motivos de ter amado muito os memes que surgiram a partir dela.

Uma família nada tradicional
Uma família nada tradicional

Por falar nisso, outra coisa interessante nesse episódio é que Twin Peaks sempre foi um lugar que para o roteiro também funcionava como uma grande personagem. Ela tem uma identidade própria, esconde muitos segredos e parece sempre disposta a olhar com naturalidade para as coisas que extrapolam os limites do real e isso parece que está sendo respeitado. A cena de Bobby Briggs (Dana Ashbrook) chorando ao ver a foto de Laura é um dos momentos onde isso fica bem claro. A reação exagerada, embalada pelo inesquecível tema musical da personagem assassinada, nos transporta exatamente para as temporadas anteriores. Sem falar no diálogo onde o policial Chad (John Pirruccello) questiona o valor das informações passadas pelo tronco. Andy rapidamente responde em tom de respeito, mostrando que para viver em Twin Peaks é preciso antes de tudo acreditar no inacreditável.

A sequência do café da manhã, que já está entre as preferidas de muitos fãs, mostra que o humor não mora só na cidade dos picos. Gosto de tudo nessa tomada, do figurino, do garoto Jim Jones (Pierce Gagnon), que tem aquele sorriso contagiante e reproduz o sinal de “beleza” com o polegar, algo que revela o quanto os 3 Coopers, mesmo em mundos diferentes, compartilham traços identitários, o que pode significar um grande perigo.

Se faltava suspense nesse episódio, ele veio com tudo na cena em que Gordon, Albert e Tamara são apresentados ao Cooper “mau”, acreditando claro que estariam diante do Cooper “bom” desaparecido. Que diálogo bem construído e que outro momento inspirado para o Kylie. Acredito que todo mundo conseguiu encontrar características dos dois personagens, misturadas com bastante precisão pelo ator. Já existe até teoria sobre a frase em que eles se cumprimentam, ao ouvir Cooper dizer: “It’s very, very good to see you again, old friend.”, muita gente acredita que ele disse: “yrev (ao contrário como na Black Lodge), very good. Talvez esse recurso tenha sido utilizado para mostrar que partes dos 3 Coopers estão misturadas ou que o processo de permuta afetou algumas funções dos três (ou dois, já que o Dougie verdadeiro né?). Está aberta mais uma temporada de teorias.

Depois do diálogo suspeito, onde Gordon e Albert perceberam que algo estava realmente muito estranho no comportamento do evil Cooper (lembrando que ele afirmou estar trabalhado para Phillip Jeffries, personagem de David Bowie em Fire Walk With Me), tivemos uma tomada externa, com uma linda fotografia azul. Albert revela para Gordon que autorizou Phillip a passar algumas informações para Cooper, muito tempo atrás. Essa informação dizia respeito ao contato que os detetives mantinham na Colômbia, contato que por sinal foi encontrado morto uma semana depois da informação ter sido transmitida. Assumir que essa é um caso “blue rose”, significa que eles sabem que estão diante de um caso misterioso, com a presença forte de questões sobrenaturais. O termo “rosa azul” aparece em FFWW e faz analogia às próprias rosas azuis, artefato em algumas culturas simboliza de mistério ou uma busca por algo impossível.

Por deixar relativamente definido que qual será o conflito central da temporada, David e Frost conseguiram provocar ansiedade e mostrar para o grande público que Twin Peaks é um dos universos mais ricos já criados na televisão. Os próximos capítulos prometem descobertas e aparições ainda muito aguardadas. Lembrando que Gordon afirmou que alguém pode avaliar melhor o que está se passando com o evil Cooper e as apostas já começaram: Diane (com quem Cooper ele falava no gravador e que sua secretária) ou Audrey?

Apontamentos do Log:

– Quando o dono do cassino diz: estamos observando você Mr. Jones, senti um tom bastante suspeito. Não sei até que ponto Dougie está mergulhado em problemas, ou se a grande sacada é que existem mesmo alguma conexão entre os mundos onde cada um estava vivendo.

– Está cada vez mais certa para mim uma participação do Bowie, seu personagem vem sendo citado muitas vezes e parece ter importância para o desenrolar dos fatos.

– Hilária a reação do Cooper “bom” ao ver a xícara de café.

– Na cena em que o novo Xerife Truman fica sabendo dos principais acontecimentos de Twin Peaks, a policial Maggie diz que na escola um jovem chamado Dennis Craig teve uma overdose na escola. Não sei se é uma conexão possível, mas como David trabalha com detalhes, aqui vai: acredito que esse personagem é neto de Gerald Craig, que era o companheiro de quarto do Doutor Hayward, pai de Donna. O Gerald se afogou no Snake River e o pai de Donna (que era seu amigo) tentou salvá-lo. Na segunda temporada, o vilão Windom Earle (Kenneth Welsh, que eu adoro por sinal), se disfarça desse médico para se aproximar de Donna e deixar pistas para Cooper, uma mudança no jogo de Xadrez, um número de telefone e o de um cemitério, se estou bem lembrado.

– Acredito que teremos um novo núcleo adolescente em Twin Peaks e que a série aos poucos vai concentrando os principais eventos na cidade.

– Boatos que Audrey usará cadeira de rodas, uma sequela da explosão em que ela está presente na segunda temporada. Tudo ainda bem incerto.

– A música que encerrou o episódio no bar se chama Lark e foi cantada pelo grupo do Brooklyn, Au Revouir Simone.

Até a próxima, com mais teorias, problematizações e surpresas.

REVISÃO GERAL
Nota:
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