Supergirl encerra sua segunda temporada com despedidas e batalhas épicas.
A missão de concluir um segundo ano nunca é fácil. Para Supergirl então a tarefa de encerrar seu arco após a mudança de emissora terminou no holofote do mundo das séries. Não apenas enfrentando aqueles que (ainda) não conseguem reconhecer a produção por seu valor e relevância, a série terminou na berlinda da audiência, tendo cada queda justificada como resultado da mudança de emissora e dos “novos ares – mesmo representando a segunda maior audiência do canal, em uma segunda-feira (timeslot do terror para o CW). Convergindo várias tramas em um último episódio, além de trazer o Superman para um embate épico, o roteiro de Andrew Kreisberg e Jessica Queller fechou tramas e abriu uma pequena brecha para o terceiro ano – sem deixar de lado o que tornou a produção em algo tão relevante atualmente, sua alma engajada e sua força feminina.
A luta contra o Superman foi muito boa e com efeitos que com certeza devem ter pesado no orçamento da série. E por mais que o escopo não tenha sido tão grandioso quanto Batman V Superman, o resultado final é muito superior – especialmente pela dosagem correta da personalidade de cada um dos heróis, além de toda a aura de uma luta saída diretamente das páginas, mas sem o peso de um universo sombrio e fechado. É audacioso comparar uma série com um filme milionário, com retorno de quase um bilhão (nem tão quase, mas perto), mas Supergirl, diferente do universo da DC no cinema, conseguiu construir uma personalidade muito boa para seus personagens, além de ter delimitado bem o motivo para que a luta existisse, assim como o seu desfecho. É simples, mas ao mesmo tempo amarrado e bem justificado, além de ter entregado um momento que muitos fãs de quadrinhos já anteciparam, ou leram, nas páginas das revistas. Se você estiver jogando Injustice 2 então…
É sempre bom ter a presença do Superman em Supergirl e vê-lo limitadamente foi o maior acerto – que imagino ter ocorrido graças a mudança de canal. Tyler pode não ficar tão bem (visualmente falando) quanto Henry Cavill no papel do Super, mas sua interpretação do homem de aço e também de Clark Kent com certeza impôs um clima bem apropriado para o segundo maior símbolo da DC Comics (o primeiro sempre será o Batman). O conselho, o final com o primo abrindo seu coração para Kara e lembrando-a de que ele tem a Lois e que o romance não precisa ser o martírio da vida de uma heroína, não apenas reforça a ideia de que é possível desenvolver romance sem “estragar” a série como muitos pontuam, mas que este futuro é permitido e embasado por anos e mais anos de histórias. Ou seja, não fere o cânone e também é justificado pelo simples fato de que é humano, e expor o lado humano de um personagem que não existe, através de alegorias do mundo em que vivemos, sempre foi a grande beleza da nona arte.

E por falar em romance não podemos deixar de lado a presença de Mon-El e seu adeus. Estava óbvio, desde que os pais de Mon-El chegaram, que o tempo do personagem na série estava em contagem regressiva. Toda a sua trajetória como herói foi bem fraca, infelizmente. Supergirl propôs um tipo de redenção para o mimado príncipe de Daxam, mas segurou essa trama sem mostrar o viés dele, optando pelo o da Kara/Supergirl. O que tivemos então foi um homem que muito falou em ter mudado e em seu desejo em ajudar, mas que raramente o fez. Claro, a transformação na personalidade de Mon-El é evidente, mas só corroborada por poucas falas e um flashback. No fim do dia o que conseguiu segurar o personagem foi a interpretação carismática de Chris Wood. Quando o roteiro tentou entregar para ele o destaque, o planejamento o colocou em confronto direto com assuntos que pertenciam muito mais a Kara e a Alex do que ele. A decisão de impor um destaque para o rapaz enquanto o pai desaparecido das Danvers ressurgia foi um desvio colossal. Não era o momento oportuno e ele nunca mais veio com aquele peso, retornando como adorno ou alivio cômico apenas.
Mon-El terminou sua jornada indo embora, não por opção, como imaginei que aconteceria após a morte de sua mãe – também fadada a ocorrer após o assassinato de Lar-Grand. A decisão tomada pelos roteiristas foi a de colocar uma barreira entre Mon-El e Kara, uma liberada pela própria heroína, agregando a personagem o peso da culpa por ter “barrado” sua própria felicidade. Existe um enriquecimento dos valores da protagonista, afinal ela escolheu sacrificar o seu amor pelo planeta, mas ao mesmo tempo todo o brilho imposto para o namorado, que mudou, queria ser um herói e que havia crescido, não tomou a proporção devida ao tê-lo partindo por uma decisão dela e também porque era a única saída plausível. O ideal aqui teria sido vê-lo indo com seu povo, como um líder, com valores fortes e longe da monarquia imposta por seus antepassados, mas não com os Daxamitas fugindo sem rumo, política ou oportunidade. Não existiu reparação e a responsabilidade daquele herdeiro terminou no momento em que sua nave foi sugada por um buraco negro – que deverá jogá-lo no futuro, provavelmente.
Felizmente Supergirl conseguiu fazer justiça para outra personagem, a já confirmada na terceira temporada, Lena Luthor. A relação complexa entre Lena e sua mãe é muito boa de acompanhar. Brenda Strong é uma atriz fenomenal e o conflito que ela sente, além do amor latente que a personagem esconde, é palpável quando ambas as atrizes estão no mesmo cômodo. É exatamente por esse motivo que me orgulho de Supergirl. Sua capacidade de colocar personagens femininas das mais variadas maneiras é digna de aplausos. Raramente temos produções direcionadas para o público fascinado por histórias em quadrinhos em que a mulher assume uma função balanceada entre a felicidade amorosa/profissional, mas sem uma fórmula engessada. Se muitas deixam o avanço limitado por não saber como lidar com mulheres fortes – acredite, a maioria constrói mulheres fortes para homens e raramente para mulheres – Supergirl já toma um outro caminho. A mulher aqui é representada como alguém que procura amor (ou não), que batalha para ser reconhecida, sempre, mas que não precisa de um par amoroso para ser alguém. E é tudo tão bem construído, tão delicado e ao mesmo tempo forte, que faltam palavras para definir quão importante essa série é.
O saldo para o segundo ano da série é sim positivo. Supergirl perdeu algumas coisas e ganhou tantas outras após sua mudança da CBS para a CW. Com a mudança Supergirl terminou com um pouco mais de foco em cima de relacionamentos amorosos, bem mais do que o necessário em algumas instâncias. Neste segundo ano praticamente todos os personagens encontraram algum tipo de romance. Alex e Maggie dominaram vários arcos, mas a história foi tão apropriada e coerente, que dificilmente este movimento seria encarado como algo ruim. Entretanto até mesmo Winn e J’onn precisaram ter uma linha dedicada ao amor. É grave porque J’onn terminou com nenhum destaque, a não ser quando M’gann surgiu e direcionaram o pouco do foco em cima do personagem para um romance que não teve tanto impacto – ou justificativa para quem só conhecia a Miss Marte por causa da animação da Justiça Jovem.
Este movimento parece ser algo conectado ao canal, sem sombra de dúvidas. Tome Flash como exemplo, que terminou igualmente abarrotada de casais. Por outro lado, em alguns momentos, fez sentido ter estas pessoas desenvolvendo algum tipo de vida pessoal. Saindo do campo dos relacionamentos Supergirl na CW ganhou uma pegada mais heroica e bem mais próxima de uma história em quadrinhos, coisa que na CBS dificilmente veríamos. Comparações entre um período e outro existirão, mas a primeira temporada é muito mais dominada por momentos marcantes do que por episódios – só consigo me lembrar de um em que o ritmo foi coeso e forte durante toda sua duração, aquele que a Supergirl é dominada pela kryptonita vermelha – ao passo que o segundo ano nos garantiu: The Adventures of Supergirl, Changing, Luthors, Exodus, Resist e Nevertheless She Persisted, uma âncora bem mais forte. Mas no final tudo é uma questão de gosto e no que se refere a série da última filha de Krypton, estou gostando cada vez mais.
Easter eggs e outras informações
– Nevertheless She Persisted é uma importante frase para o movimento feminista norte americano, que em português pode ser traduzida como: Mesmo assim ela persistiu. A frase foi dita por Mitch McConnell após silenciar a senadora Elizabeth Warren, em fevereiro de 2017. Após o acontecimento o senador McConnel disse: “Ela foi avisada. Ela recebeu uma explicação. Mesmo assim ela persistiu”. A frase então terminou como um símbolo da luta feminista em várias marchas.
– O Superman mencionou o ‘Warworld’, um mundo artificial em que o herói foi colocado para lutar como um gladiador.
– Rhea mencionou a cidade de Star City, provando que ela existe na Terra-38, mas acho que o Flash já havia feito isso antes.
– Calista Flockhart, a Cat Grant, é casada com o ator Harrison Ford, o Han Solo da franquia Star Wars. Infelizmente a Cat nunca assistiu nenhum filme da saga espacial.
– Cat Grant sabe que a Kara é a Supergirl. Agora só falta a Lena, porque né? Não aceito essas mulheres inteligentes não desconfiarem de algo tão óbvio.
– Ainda não está claro quem exatamente foi colocada na nave (estou assumindo que seja uma vilã) e enviada para o espaço no mesmo dia em que Kal-El e Kara partiram de Krypton, mas algumas teorias podem ser feitas a partir das pequenas informações dadas pela montagem da cena.

– Aquele parecia um culto dedicado a aquela criança. Durante os Novos 52 a Kara precisou lidar, assim que chegou à Terra, com a raça de ‘Worldkillers’, os Destruidores de Mundo. Entre as destruidoras, Reign. Criada especificamente para agir como antagonista da última filha de Krypton, Reign foi introduzida em Supergirl Vol. 6, número #5, em 2012. Em se tratando de um culto dedicado a adorar uma criança responsável por trazer a destruição, faria sentido estarmos lidando com os Worldkillers. Sua presença também faz conexão com a frase dita em que a criança havia sido enviada para ‘reinar’.
– Também podemos colocar na lista outro personagem, dessa vez um menino, conhecido como Lar-On, o lobisomem kryptoniano. Recentemente, em Renascimento, a Supergirl encontrou Lar-On em uma nave. Atualmente ele está preso no DEO, enquanto procuram uma cura para sua ‘condição’ lupina. Faria sentido um grupo dedicado a adorar uma criatura com poderes especiais mesmo ali, em Krypton e sem o sol amarelo. Também conecta com o fato de terem colocado sangue na boca do bebê.
– Outra opção seria o Doomsday, o vilão que matou o Superman. Em Supergirl já temos um Superman sacramentado como o salvador do planeta, mas em nenhum momento é mencionado o evento mais impactante das histórias em quadrinhos, que é a ‘Morte do Superman’. Trazer Doomsday seria interessante e também justificaria a presença do culto, assim como o ódio que o vilão sente por pessoas daquele planeta. Também ofereceria um momento icônico para o Superman e uma oportunidade para que os roteiristas não precisem lidar com a presença do primão sempre que um evento causador de destruição surgir em National City.
– No final do episódio, enquanto Mon-El está em sua nave, um buraco parecido com os abertos em The Flash, surge. Poderia este ser o momento em que Mon-El vai para o futuro e acaba se unindo a Legião? Ou teria Mon-El ido para outra Terra/Universo?
– James nem apareceu no ultimo episódio. Gosto do personagem, mas ele já não tem mais espaço dentro da série. Ou isso ou então ele terminou nocauteado por alguém por causa da sua armadura, praticamente idêntica a dos invasores.
– Os efeitos do episódio estavam muito bons e todo o clima de fim do mundo foi bem adequado, apesar de terem repetido o mesmo cenário do beco mais uma vez.
– Alex e Maggie vão casar na próxima temporada. Não tem espaço aqui para incluir toda a minha felicidade.
– Cat Grant voltou? Mais participações na próxima temporada? Rao, nunca te pedi nada.
– Nos vemos no terceiro ano de Supergirl! Ou para me ver falando da série e das histórias em quadrinhos SEMPRE, me segue lá no Twitter (@diegoantunes22).












