Chegou a hora de compreender porque a pressa é inimiga da perfeição.
Sense8 é uma analogia poética sobre vínculos sociais. Identifiquei isso desde o primeiro episódio com o nascimento dos sensates, que fez uma introdução mitológica pelo mundo e revelou os oitos protagonistas dessa história fascinante. Fora da série o caminho para encontrar vínculos com pessoas de diferentes culturas/ideologias é bem mais árduo e cansativo. O que é irônico, pois vivemos na era da conectividade/tecnologia que nos aproxima cada vez mais. O nosso maior erro como seres humanos foi criar oportunidades de conexões exuberantes e ao mesmo tempo nos esconder em cubículos individuais da nossa mente. Presos por medo de confrontar normas culturais que diferem daquilo que acreditamos ser ‘correto’. Tanto que foi em vista dessa ironia que Sense8 prometeu se desenvolver ao longo dos episódios. Os sensates da série representam as pessoas que possuem a capacidade de se conectar com o próximo simplesmente por serem os “deslocados” de uma sociedade opressora. São eles que proporcionam revoluções de pensamentos. São eles que conseguem evoluir a nossa humanidade.
Por isso que os protagonistas são pessoas consideradas “inoportunas” aos olhos da sociedade. Nomi – além de ser lésbica – é uma mulher trans que conviveu com o preconceito dentro da própria família. Will teve uma infância complicada e cresceu com um pai alcoólatra que raramente estava presente; Riley nunca se viu inserida num grupo específico e usava as drogas para se encontrar como pessoa; Lito estava preso no conflito de aceitar sua sexualidade e ter que enfrentar uma indústria homofóbica; Wolfgang cresceu com um pai violento e acabou entrando no crime para sobreviver; Kala está presa num casamento construído em cima de uma cultura severa; Capheus cresceu no meio de um ambiente extremamente periférico/violento; E Sun sofreu nas mãos do machismo que reinou em sua família. Todos eles são arquétipos de uma sociedade que priva alguns para enaltecer os méritos e privilégios de outros. Logo, acabam representando essas pessoas que possuem a capacidade de olhar para o sentimento do próximo e se colocar no mesmo lugar. E daí voltamos para a mesma tecla que sempre gosto de enfatizar: Sense8 é acima de tudo uma série que defende a empatia plena e pura.

A primeira temporada acertou ao finalizar com uma resolução emocional em cima dessa união entre os protagonistas. Já o maior defeito do segundo ano, sem dúvida, foi ter esquecido de entregar uma resolução semelhante. E pior ainda, ter apressado os fatos para criar um clima de tensão que em nada ajudou pra narrativa. A promessa de entregar um final digno em cima da OBP e seu passado misterioso ficou apenas na promessa mesmo. Aliás, se tem algo que Sense8 soube fazer com a sequência final foi desistir de várias promessas que construiu durante toda a temporada.

A única ressalva desse episódio tenha foi a semi-resolução do arco pessoal de Sun. A vingança que ela arquitetou quase que timidamente foi desenvolvida por uma sequência de ação que durou metade do episódio. Foi um momento brilhante não só pela oportunidade de ver todos os sensates se movendo e dividindo o mesmo espaço/corpo, como também pela coreografia que trouxe um ar de superioridade que a série costuma impregnar durante os takes mais corridos. E sendo sincero, acredito que tenha sido uma das melhores sequências de ação do show inteiro, apesar de possuir vários escorregões de diálogos e lógicas construtivas (o que já virou marca registrada). Confesso que por causa dessa dinâmica em cena, me senti no lugar de todos eles, correndo para se vingar de um irmão que nem era meu, com um motivo que nada tinha a ver com a minha vida. Afinal, essa é a mágica de Sense8: fazer o espectador sentir o(a) personagem.
Sobre o clímax final só tenho uma palavra para definir: decepcionante. Eu tenho anotado uma lista de cenas que adoraria ver se realizar, como por exemplo: a primeira vez do cluster trabalhando no mesmo espaço físico, e antes disso, como seria o encontro deles, suas reações e observações. O toque. A emoção e tudo o que vem junto foi exprimido a favor de um clímax que apenas mostrou um rápido conjunto de todas as cenas que eu tanto desejava saborear.

Essa impressionante falta de respostas emocionais no episódio que desfavoreceu a narrativa e vem desfavorecendo muitas outras storylines da série. E por culpa disso três grandes plots que deveriam ser resolvidos se transformaram em cliffhangers estúpidos: A relação de Wolfgang com Lila – que mais parecia uma luta de gato e rato do que realmente uma adversária convicta – é completamente deixada de lado após o rapto dele; Kala e a conturbada situação com Rajan acabou sendo interrompida sem aviso prévio; E por fim temos Sun que apesar de ter evoluído durante a temporada, acabou não concluindo o objetivo de limpar a sua imagem, voltando a estaca zero.
Talvez a melhor conclusão desse episódio tenha sido o pedido de casamento de Nomi e Amanita. Foi um momento emocionante e precioso para compreender as etapas que Nomi vem realizando ao longo dessa jornada. Imagine você ser uma pessoa transexual, homossexual, homo-sensorium (sensate) e ainda por cima ter alguém ao seu lado disposta a passar o resto da vida contigo? Será interessante ver a interação de Amanita (agora noiva de Nomi) com o resto do cluster. Ela é uma das melhores personagens secundárias da série e promete dar uma repaginada interessante no grupo.
Analisar o balanço geral dessa temporada chega a ser uma atividade quase que bipolar. Porque apesar de ter grandes cenas emocionantes, o epílogo (que é uma das impressões mais importantes de uma série/temporada) acabou entregando correria, descaso e interrupções. Isso em nada ajuda para melhorar a imagem complexa de um show que possui todos os ingredientes para ser perfeito. E como todos sabem, a próxima temporada será num tom de guerra e está sendo animador imaginar que teremos mais ação daqui pra frente. Só espero que o maior inimigo deles não seja a pressa, pois o ditado já fala por si. No fim das contas, Sense8 usa uma linguagem quase que poética, mas é editado por uma irrupção de eventos desconexos. Assim como os sensates evoluíram nossa humanidade, a série precisa respirar profundamente e parar de fazer o público perguntar “o que está acontecendo?”.
PS1: Capheus agora está conectado com mais sensates e isso é bem animador e estranho ao mesmo tempo. Não sei o que esperar.
PS2: Próximas locações fixas da série devem ser Los Angeles e Paris. Mais clichê e romântico que isso impossível.
PS3: Queria agradecer ao Vinicius Fernandes por ter co-participado dessa cobertura e principalmente a quem nos acompanhou até aqui. Agora teremos mais uma longa espera para a próxima temporada e um tempo para processar tudo o que aconteceu até aqui. Au revoir sensates!















