O fim de Hannah Baker.
Primeiro o estrondo. Foi como se um piano caísse de uma altura gigantesca. Todos do escritório congelaram. Tirei o fone de ouvido e levantei pra checar o que aconteceu fora do prédio. Fui até a janela e olhei para a cena que jamais esquecerei na minha vida: uma garota jogada no chão com os braços abertos e um grupo de pessoas ao redor, horrorizados. Eu tinha acabado de presenciar um suicídio.
Dias depois descobri que a jovem estava sofrendo uma pressão familiar para se formar em Medicina e não conseguiu suprir as expectativas de ser uma ótima aluna. Não sei exatamente quais foram todos os motivos que a levaram ao ponto de tirar a própria vida daquela forma, mas depois desse dia vi que suicídio era uma realidade bem mais próxima do que eu imaginava, e a partir daí encarei a vida de uma forma completamente diferente.
Estudos dizem que uma pessoa que presenciou algo do tipo – ou é próximo de alguém que se matou – possui menos chance de fazer o mesmo. E talvez seja isso um dos objetivos que 13 Reasons Why queira alcançar no último episódio. Durante a temporada tivemos vários momentos para conhecer e simpatizar com Hannah Baker; seria como se estivéssemos criando uma relação de admiração semelhante ao que aconteceu com Clay Jensen. A centralização da narrativa em torno dele gerou uma aproximação peculiar e comovente, que dificilmente seria alcançada se fosse realizada de outra forma. E através disso conhecemos a protagonista através de duas perspectivas: a melancólica visão da mesma, e a percepção de Clay sobre ela. Ou seja, temos a visão da vítima mesclando com a visão de um observador invicto. A receita completa que fez do show um fenômeno de discussão social pouco realizado até então.

Certamente o público mais retrógrado criticou a própria Hannah por ter uma parcela de culpa no estupro. Por que ela foi aquela festa sozinha? E que roupa foi aquela? Por que ela decidiu ficar só de sutiã? Por que ela não disse “não” na hora? Quando na realidade deveríamos estar questionando APENAS isso: O que Bryce fez com ela e por que? A resposta é simples: Bryce estuprou Hannah e o ÚNICO motivo é porque ele é um homem machista e egocêntrico. Agora, todos nós precisamos absorver essa resposta e educar as pessoas mais próximas sobre essa realidade que não se restringe apenas a determinado tipo de grupo social. O estupro acontece em qualquer sociedade por ser fruto de um pensamento machista e opressor que domina grande parte do mundo. E se não tivermos a decência de compreender o quão doloroso é para a vítima se abrir e contar sobre, mais iremos alimentar o silêncio que continua matando tantas mulheres.
O último porquê de Hannah Baker é exatamente sobre isso. Um grito de socorro que por falta de informação acabou sendo silenciado. Antes disso ela recapitulou todo o caminho que a fez chegar nesse ponto, esquematizando a ordem dos motivadores. Ela perdeu ao longo da jornada os seguintes aspectos: sua reputação com relação aos colegas/conhecidos, a habilidade de reconhecer o amor das pessoas mais próximas e um pedaço da sua personalidade que se extinguiu ao ter seu espírito destruído (como ela mesma cita durante a fita). Nisso, Hannah chega a conclusão de que precisa de ajuda para assegurar de que poderá algum dia recuperar todos esses itens.
A vítima primeiro cogita em se abrir para a família ou alguém com um laço mais próximo. Entretanto, Hannah percebe que os pais estão com a cabeça cheia de problemas sobre o negócio local e economias. Nesse caso ela decide ir até o colégio para conversar com o conselheiro Mr. Porter, que não estava preparado para lidar com uma conversa tão delicada (como o pai de Jessica estava por exemplo). Nisso o show foi brilhante ao extremo ao exibir um diálogo que ora parece confuso, e ora resolve alguns pensamentos de Hannah mas sem sintetizar completamente a ajuda que ela tanto precisava. Eu espero que esse tipo de cena tenha servido tanto para vítimas se sentirem capazes de pedir ajuda, quanto para os responsáveis de ouvir aprenderem a conduzir uma conversa que mostre para a vítima que a culpa não é dela.

O último episódio se aproximou da nossa realidade para inevitavelmente chocar. E pra isso foram necessários dois momentos. O primeiro deles é bem claro: exibir os depoimentos dos jovens na visão da câmera que os filmavam. Essa tática foi ótima para quebrar um pouco a ideia de que apenas uma história fictícia está sendo contada, quando na verdade estamos vendo um reflexo de nós mesmos acerca de como tratamos com bullying/assédio nas escolas.
O segundo momento é sem dúvidas o mais importante da série. A direção resolveu mostrar o suicídio de Hannah de forma crua, sem suavização, sem trilha sonora e sem planos contaminados. Foi doloroso assistir. A decisão veio pelo fato de buscar tratar este assunto com veracidade. Não é fácil tirar a sua própria vida. É solitário, silencioso e tenso. Mais tenso ainda é o encontro dos pais assustados/perdidos com a situação. Suicídio não é uma solução ideal para a vítima nem mesmo para as pessoas ao seu redor. Tive alguns amigos que me contaram que tiveram pensamentos suicidas no passado e que esta cena em específico ajudou eles a compreenderem outros valores que precisam ser levados em conta na hora de decidir o que fazer. Foi uma cena angustiante e certamente difícil de executar.
13 Reasons Why é a Série Mais Importante da Netflix?Muita gente reclamou – ao finalizar a série – que o show tratou seu mistério de uma forma “divertida”, usufruindo dos cliffhangers entre uma fita e outra para enrolar sua narrativa ao ponto de deixar detalhes soltos e que em suma transformou assuntos complicados num entretenimento barato. Outros até reclamaram que o roteiro deixou algumas dicas de uma possível segunda temporada. Preciso dizer que essas pessoas não assistiram 13 Reasons Why. Acima tudo, esta história foi arquitetada artisticamente para debater/denunciar. Ela não possui obrigação nenhuma de ditar a nossa realidade, mas teve a audácia de utilizar artifícios imagéticos para abrir uma discussão que só aconteceu porque foi eficiente na sua mensagem. Estão querendo acabar com uma produção somente porque foi pesada demais. O problema nao é com a série, e sim com as pessoas que preferem continuar vivendo sem ver/ouvir o lado de quem está com intenções suicidas. Não importa se terá uma segunda temporada, 13 Reasons Why terminou sua jornada inicial mostrando que bullying é fatal e está longe de ser um assunto de um arco somente. Está longe de ser restringido apenas nas decepções de uma só garota. É uma realidade presente e que pode levar um menino estressado a comprar armas e sair atirando nos seus colegas. Realidade essa que só está sendo criticada porque Hannah Baker gravou suas 13 razões e todos nós ouvimos sua voz.
Take 1: A Netflix disponibilizou um especial chamado “Além dos porquês” que revela um pouco dos bastidores e das motivações da série. Ótima dica!
Take 2: A trilha-sonora é maravilhosa. Selena Gomez eu te venero.
Take 4: Com isso terminamos a cobertura de 13 Reasons Why. Foi um prazer ter participado junto com os outros escritores e torço para que você tenha gostado. Até!















