Oito anos após ser finalizada, a tempestade Prison Break está de volta com Ogygia. Sucesso de crítica, audiência e uma das séries que plantou a semente série maníaca em muitos de nós, Prison Break é mais uma na extensa lista de revivals e reboots que ressurgem na televisão americana. E a impressão desse episódio inicial é que estamos diante da mesma tempestade de anos atrás. Prison Break retornou apostando mais na nostalgia dos fãs antigos do que na expectativa de conquistar uma nova audiência.

“Tempestades podem voltar, não podem. Se voltarem, será a mesma tempestade ou algo mudado?”

Ogygia foi um episódio com a cara de Prison Break. Os elementos clássicos da série estavam todos ali e a construção da trama foi bastante familiar para quem já acompanhou os irmãos Scofield Burrows anteriormente.

Subtramas e cenas construídas em torno de cliffhangers; o suspense edificado pela trilha sonora que se eleva na iminência de uma revelação; protagonistas perseguidos

por figuras misteriosas; uma série de pistas por trás de segredos, teorias conspiratórias e claro, uma prisão! Scofield não só está vivo, como está novamente preso e deverá contar mais uma vez com a ajuda do irmão para fugir.

Uma das maiores qualidades da série sempre foi o carisma de seus personagens. Michael, Lincoln, T-Bag, Sucre, Abruzzi e tantos outros, que apesar de não serem construídos em múltiplas camadas, nos despertavam enorme empatia. A relação entre os irmãos sempre foi o principal mote da série e um de seus principais trunfos. Prison Break nunca foi sobre Sara e Michael… Mas sobre Michael e Lincoln. E poder assisti-los em ação novamente não deixa ser um deleite aos fãs mais saudosistas.

Mas se a tempestade parece tão semelhante a outrora, por outro lado ela retorna em uma época completamente diferente e os impactos que gera podem, então, ser distintos. Os tempos são outros e a forma de se fazer e consumir televisão é, hoje, muito diferente de 2005, quando a série se tornou um fenômeno.

O público brasileiro que precisava baixar RMVB esperar meses para assistir as séries americanas, agora acompanha na televisão a estreia simultânea com os Estados Unidos. Temporadas de dramas com mais de vinte episódios são cada vez mais raras e há um novo conceito de entretenimento estabelecido pelas plataformas de streaming. O abuso de cliffhangers e tramas mirabolantes e didáticas, muitas vezes, já não é mais o suficiente para manter uma audiência fiel semana após semana. Se Prison Break teve um importante papel na transformação da forma de fazer TV há uma década – junto a produções como Lost e 24 horas – a série agora retorna em um momento que aquilo que ajudou a criar já sofreu profundas transformações. Há produções atuais que muito fazem lembrar essa fórmula de Prison Break, então é claro que ainda há espaço para esse formato.

No entanto Prison Break esbarra em mais um desafio… Será instigante o suficiente para manter seus fãs para além da nostalgia? Será atrativa para um novo público? Afinal, não se trata de um episódio especial de duas horas ou uma temporada inteiramente disponibilizada pela Netflix. Estamos falando de fidelizar o público para retornar por mais nove semanas.

Na busca de conciliar esses desafios, o criador da série, Paul Scheuring, apostou em focar em elementos e acontecimentos chaves das temporadas anteriores… Michael, suas tatuagens e como foi propositadamente preso como parte de um plano para libertar o irmão do corredor da morte de Fox River, seu envolvimento inicial com Sara e como morreu para libertá-la. Sete anos depois descobrimos que Lincoln está metido em problemas e que Sara casou-se novamente e o pequeno Mike tem uma nova figura paterna.

Esqueçam a Companhia e Scylla. Nesse primeiro momento não ouvimos esses nomes e acredito que eles realmente serão ignorados nesse revival. Talvez surjam como referências não determinantes para o entendimento da trama, tal como foi em Ogygia, com a menção ao mergulho no Panamá. Não acredito que aqueles que perseguiram Lincoln e invadiram a casa de Sara sejam da Companhia, pois se fosse o caso, teríamos visto alguma menção a essa mitologia de Prison Break na retrospectiva inicial. ‘O inimigo agora é outro’ e o objetivo é muito claro: apagar Michael Scofield da história.

Prison Break 5x01: Ogygia [Season Premiere]
Prison Break 5×01: Ogygia [Season Premiere]Prison Break 5×01: Ogygia [Season Premiere]
Tal como ouvimos Michael dizer no início desse primeiro episódio “Nem todas as mortes são iguais. Algumas são reais. Outras são histórias”

E se tem alguma série em que isso é pertinente, é justamente Prison Break. Também já havíamos ouvido histórias sobre a morte de Sara Tancredi, Christina Scofield e Paul Kellerman, correto?

Então o fato de Michael não estar morto é algo extremamente plausível no contexto da série. Michael teria morrido para salvar e libertar seus amados e forjar a morte para alcançar esse objetivo me parece muito com algo que o Scofield faria. Manter-se ‘morto’ até elaborar um plano concreto para se livrar dessa situação é extremamente condizente com o que conhecemos do engenheiro. A série realmente nunca mostrou a cena do personagem morrendo, vimos apenas o momento que precedeu a descarga elétrica que o matou e depois seu túmulo. Os produtores sempre deixaram essa porta entreaberta…

E a descoberta que Michael não morreu foi conduzida no melhor estilo Prison Break com pistas misteriosas sendo gradativamente fornecidas e desvendadas pelos personagens e pelo público para iniciarmos a montagem de um quebra-cabeça. Há algum interesse em manter Michael morto e apagado da história. Da mesma forma há também interesse em dar o rosto de um homem que não existe a um terrorista que luta ao lado do Estado Islâmico? Qual o papel de Michael nisso tudo?

Não há como falar de Prison Break sem lembrar do icônico T-Bag. E uma das tramas mais marcantes sobre o personagem, foi sem dúvidas, a sua mão decepada por Abruzzi na 1ª temporada. Colocá-la novamente sob os holofotes foi um acerto desse retorno, costurando novamente a vida do pedófilo com a dos irmãos protagonistas. T-Bag ostenta agora uma mão biônica e quem lhe deu foi Arya Ninguém Michael Outis. T-Bag fica em uma posição ‘devedora’ a seu benfeitor, Michael, e chegará a hora dele pagar por isso.

Outro personagem que retornou foi Benjamin C-Note Franklin, agora como uma ponte entre Lincoln, o Islã e o Iêmen. O personagem surge para trazer respostas sobre Ogygia e facilitar a inserção de Lincoln (e do público) nesse ambiente culturalmente tão distinto e nessa nova trama. Minha maior crítica ao episódio reside justamente na forma caricata como o Iêmen e sua Guerra Civil foram retratadas. Criminosos ostentando armas de fogo na rua, exceto – justamente – os homens que lutam contra Lincoln e C-Note?

Mas quem é C-Note perto de Sucre, não é mesmo? Sucre foi inserido e igualmente descartado de forma tão aleatória que a única explicação é realmente a de cumprir mais uma cota de nostalgia para os fãs… Mais um dia comum na vida dos Fox Rivers Eight: uma reunião de velhos amigos para discutir quem vai a prisão mais perigosa do Iêmen em busca daquele que consideram morto há sete anos!

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Depois de ser perseguido, capotar com o carro, desenterrar a cova do irmão, viajar para o Iêmen, lutar contra terroristas e vender seu passaporte, Lincoln (e nós!) finalmente voltamos a ver Michael. Ou seria Kaniel Outis? Ali ele é um terrorista aliado ao Estado Islâmico que afirma desconhecer Lincoln. Um olhar penoso do personagem, nosso coração dispara e sabemos que ele está mentindo. Scofield não morreu e Prison Break está de volta.

REVISÃO GERAL
Nota:
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prison-break-5x01-ogygiaOgygia foi um episódio com a cara de Prison Break. Os elementos clássicos da série estavam todos ali e a construção da trama foi bastante familiar para quem já acompanhou os irmãos Scofield Burrows anteriormente.