A capacidade feminina de multiplicar forças em You Get What You Need.

A tenaz minissérie da HBO inaugurou sua trajetória descobrindo segredos que variam de níveis psicológicos. Este mosaico de personagens me faz lembrar do que Reese Witherspoon disse numa coletiva antes da estreia: “Precisamos ver experiências de mulheres reais, mesmo que isso envolva violência doméstica, assédio sexual, romance, infidelidade ou divórcio”. Ainda mais agora com o mundo inteiro se posicionando melhor diante dos direitos das mulheres. Tanto que recentemente tivemos ações maravilhosas com celebridades dando voz a discursos poderosos; vide Madonna na Marcha das Mulheres (anti-Trump) e atrizes do primeiro escalão do cinema como Emma Watson e Meryl Streep. O protagonismo feminino veio pra ficar e Big Little Lies é a prova ideal de que quanto mais exibirmos estes problemas, mais poderemos evitar que “Perrys” continuem propagando violência, seja em qual nível for.

Mas Perry não foi o único exemplo de como os homens falham ao lidar impasses familiares. Gordon ameaçou Jane num ambiente público; Joseph desprezou Madeline de uma forma totalmente inapropriada (se é que existe alguma forma apropriada para desprezar alguém); Nathan evocou uma briga imatura contra Ed no show de talentos, que poderia ter sido evitada se pelo menos um deles tivesse bom senso. A impressão é que o episódio mostrou que os homens não possuem a capacidade de resolver seus problemas com certo auto-controle. O sexo masculino provém de uma cultura que prioriza demais sua virilidade a favor de uma supremacia que em teoria não existe. E nunca deveria existir. Na contramão, as mulheres conseguem superar obstáculos multiplicando forças umas nas outras. Renata, por exemplo, compreendeu bem mais rápido a visão de Jane sobre o ocorrido, em comparação com seu marido. Defendeu-a inclusive.

“Eles sabem o que o pai deles faz com a mãe deles” Celeste em “You Get What You Need”

As várias “Audrey Hepburn” da festa representam exatamente o que a narrativa martelou durante todos os episódios anteriores. Hepburn foi uma atriz que ficou conhecida pelo seu papel em Bonequinha de Luxo, com uma personagem que se sentia tranquila no meio de jóias, riqueza e perfeições. E por mais que buscasse um marido ideal para satisfazer seu futuro, ela se encontrava constantemente sozinha e perdida. Assim estava Celeste, que exibia para todos uma vida perfeita, mas que chegou ao ponto de estar amedrontada no chão do banheiro com um marido feroz.

A festa foi arbitrariamente desenvolvida para ser um evento luxuoso. E o resultado final foi produzido para transformar as fantasias dos convidados num belo pretexto para termos um Perry desesperado no meio de tantas “Celestes”. As várias bonequinhas de luxo tranquilas em suas fantasias impedindo que uma realidade bem mais assustadora se manifestasse.

A revelação final foi uma catarse bem diferente do livro. No romance escrito por Liane Moriarty, Perry agride Celeste na frente de vários convidados (maridos inclusos). O choque deixa o público paralisado. Até que Bonnie revoltada com a cena o empurra do terraço em que todos estavam. Na minissérie Perry avançou em cima de Celeste e acabou entrando numa disputa contra todas as mulheres ali presentes até que Bonnie interferiu. Nesse exato momento (mesmo sabendo do desfecho por conta do livro) eu literalmente desabei a chorar sem parar. Quantas mulheres precisam desse tipo de proteção e não conseguem? Quantas morrem nas mãos de monstros sem o auxílio de pessoas que por falta de informação – ou até mesmo oportunidade – não estão por perto? E de certa forma o ataque de Perry não se restringiu apenas contra Celeste, mas sim contra todas personagens. Indiretamente ou diretamente. Um momento precioso que o show guardou para orientar acerca da realidade de várias mulheres indefesas e desamparadas. Nicole Kidman foi fenomenal do início ao fim e com You Get What You Need, ela ficou em primeiro lugar na minha torcida caso seja indicada em alguma premiação nos próximos meses.

Na série, Bonnie é retratada como uma mulher hipster saudável e tranquila. Uma divergência sobre como as “coisas deveriam funcionar” em Monterey. Enquanto as outras mães ajustam suas vidas na velocidade da luz, Bonnie realiza sua função materna como jardineira, podando as pessoas ao seu redor com instruções pacíficas e didáticas. Dessa forma, a sua reação ao empurrar Perry se justifica pelo fato de deixar bem claro o quão horrível deve ser para uma pessoa como ela presenciar tal ato de violência.  No livro é mencionado o passado de Bonnie para explicar sua atitude: Nathan revela que ela cresceu num ambiente em que a violência doméstica era constante. Pensando nisso, o comentário de Bonnie para Ed alguns episódios atrás sobre “todos mundo ter seus problemas” até que faz algum sentido agora. Mas fico imaginando se os showrunners resolveram deixar esse assunto em aberto para a interpretação do público. E provavelmente seja isso.

Big Little Lies 1x07: You Get What You Need [Series Finale]
Bonnie brilhando com seu cover de “Don’t”. Big Little Lies 1×07: You Get What You Need [Series Finale]

Outro detalhe que sobressaiu de forma magnífica foram os olhares trocados de Jane Chapman com suas amigas ao reconhecer Perry, seu estuprador. Não dá para compreender exatamente se elas perceberam na hora de quem se tratava, mas foi emocionante pelo simples fato de Shailene Woodley conseguir traduzir o terror ao descobrir que o monstro do seu trauma estava bem mais perto do que imaginava. Mais incrível ainda foi o fato de terem colocado as outras mulheres protegendo Bonnie durante os depoimentos. Não houve necessidade de dar vida aos diálogos que em si destoariam irrelevantes. Afinal, o que importou nesse momento foi mostrar como elas conseguiram vencer suas adversidades pela aliança que nasceu de uma cumplicidade invicta.

Reese Witherspoon – que cativou demais com Madeline – disse uma vez que ficou interessada na história por manifestar todos os elementos que fazem parte da mulher moderna. A minissérie encerrou sua apresentação emanando exatamente isso. As diferentes mães se divertindo com seus filhos na praia e unidas pela força de simplesmente compreender e se colocar no lugar umas das outras. Um final perfeito para uma proposta perfeita. O show veio para revigorar o prestígio que produções como essa precisam. Cada vez mais é necessário colocar mulheres fortes no protagonismo de histórias marcantes. Por fim, Big Little Lies nos mostrou como é imprescindível colocar um espelho sombrio no rosto de todos e dizer: revolucionem. Revolucionem assim como as mulheres têm revolucionado até hoje.

PS1: Que tocante a cena em que Max ouve os murmúrios da mãe através da ventilação da casa.

PS2: A trilha sonora conseguiu ser um personagem extra durante You Get What You Need. A HBO disponibilizou a trilha-sonora oficial no Spotify. Pra ouvir clique aqui

PS3: Finalmente Ed (Adam Scott) fez a barba! Ele é um dos poucos casos de homens que nunca deveriam deixar a barba crescer.

PS4: Bonnie encantou a todos nesse episódio, tanto no figurino quanto na voz. Amém Zoë Kravitz!

PS5: Essa é a minha despedida de Big Little Lies, espero que tenham gostado dessa cobertura (assim como eu). Daqui alguns meses voltarei a cobrir outra minissérie do mesmo canal: a adaptação do livro “Objetos Cortantes” com a maravilhosa Amy Adams como protagonista. Até lá!

REVISÃO GERAL
Nota:
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big-little-lies-you-get-what-you-needBig Little Lies e a capacidade feminina de multiplicar forças. A minissérie nos mostrou como pode ser imprescindível e marcante colocar um espelho sombrio no rosto de todos e dizer: revolucionem assim como as mulheres têm revolucionado até hoje.