Chapter 6 nos mergulha no sensual e perigoso reino de Aubrey Plaza.

“Gotta make way for the homo superior.”

Há algum tempo atrás escrevi um texto sobre as diferenças, vantagens e desvantagens dos filmes em relação às séries de TV. Entre os pontos mencionados, o mais claro de todos com certeza diz respeito à dicotomia entre qualidade narrativa e técnica. A televisão, com sua duração estendida, tem o privilégio de construir narrativas através de vários episódios. É uma oportunidade que o cinema raramente tem. Em contrapartida, é justamente a duração reduzida dos filmes que proporciona a estes o privilégio de esmerar-se com mais afinco nos quesitos técnicos. O cinema é e sempre foi o grande palco das inovações em cinematografia, efeitos visuais e experimentalismo, esse último em todas as áreas. A mídia cinematográfica é o lugar que você deve buscar se quer ter as experiências mais out-of-the-box, distintas e peculiares da mídia audiovisual.

As séries distinguem-se pelas histórias que contam; o cinema, pela forma com que são contadas. Bem, essa é a regra geral. Exceções sempre existem, e atualmente showrunners como Bryan Fuller e Noah Hawley estão invertendo completamente esse jogo.

Chapter 6 é um exemplo quase perfeito demais dessa característica. O que efetivamente acontece no episódio pode ser resumido em uma frase: os personagens de Legion são presos dentro do plano astral sob o total controle de Lenny, e recebem a ajuda de Oliver para escapar. Para um fã de séries, naturalmente atento ao desenvolvimento de trama, pode ser desafiante lidar com um episódio em que nada acontece. Literalmente nada, uma vez que estamos parados no tempo com as balas de Walter/The Eye em eterno trajeto colidente com os corpos de Syd e David.

Mesmo assim, classificar o episódio como pura enrolação seria um crime. Para apreciar Chapter 6 é necessário libertar-se um pouco das amarras dos meros acontecimentos e deixar-se mergulhar na criatividade sonora e visual de uma hora de televisão que viaja lindamente na maionese. Até porque esse desapego com a narrativa não significa que Legion tenha abandonado o desenvolvimento de seus personagens.

Esse mesmo talvez seja o ponto de maior destaque no episódio. Lenny, ao invadir a mente de David e tomar controle de um plano astral povoado com personagens da série, reconfigura suas personalidades a fim de ajustá-las ao cenário de Clockworks. Os resultados são reveladores, e explorados logo no início do episódio. As características pessoais e até mesmo os poderes de cada personagem são distorcidos, com o fim de parecerem distúrbios psiquiátricos. Melanie tem sua saudade pelo congelado esposo transformada em síndrome do amigo imaginário. A memória aguda de Ptonomy, espertamente representada pelo roteiro com sua descrição longa e detalhadíssima da morte da mãe, é aqui um buraco negro que suga sua mente para o passado. Cary e Kerry se tornam duas pessoas diferentes que são extremamente dependentes um do outro.

Não são diagnósticos verdadeiros, mas Lenny contorce tudo com uma lógica interna que é minimamente crível. Ela é o verdadeiro centro desse episódio, a força controladora. Em certos momentos Chapter 6 parece ser o retrato da vitória final e incontestável do vilão maquiavélico. A estonteante sequência de dança é a comemoração da vitória: Lenny passeia por todos os cantos da mente de David ao som de Nina Simone, entorpecida de sexualidade e poder. Todos os seus inimigos estão contidos e amordaçados dentro do plano astral. She’s feeling really, really good. Ela merece. Aubrey Plaza merece uma indicação ao Emmy por esse episódio, quiçá uma vitória. Sua atuação é deliciosa, sexy, embrigada e dominante. Estamos testemunhando o nascimento de uma das melhores vilãs do universo mutante.

Legion 1x06: Chapter 6
Legion 1×06: Chapter 6

Entretanto, se fosse tudo tão perfeito para Lenny a série já poderia acabar. Não é. Pedaços de realidade fragmentada se espalham pelo episódio, principalmente em Syd. Lembrem-se que no episódio 3, após a tentativa catastrófica de dar um sedativo a David para explorar sua memória, Syd é a primeira que consegue sair do plano astral. A personagem é claramente menos suscetível às ilusões mentais da série.

Além de Oliver, é claro. Legion já estabeleceu anteriormente que a natureza do plano astral é una. Os planos se conectam, como no episódio 4, no qual David esbarra com Oliver. Aqui, o mesmo personagem é o bote salva-vidas de todo o time de Summerland.

Essas explicações técnicas para os acontecimentos malucos de Chapter 6 são elucidativas, mas não representam com justiça o que a série consegue fazer nesse episódio. É pura criatividade visual. Estamos num episódio em que tudo ocorre na mente dos personagens, mas tal fato não é utilizado como um plot-twist idiota. Legion prefere nos dar esse conhecimento logo de cara, e nos deixar explorar os cantos deturpados desse universo de mentirinha. A cada momento em que o conhecimento da irrealidade daquele universo é atingida por Syd, Lenny aparece. Como uma ave de rapina, ela fiscaliza a manutenção de todos os seus escravos no embalo de Clockworks.

A utilização do hospital psiquiátrico do piloto em Chapter 6 possibilita outras experimentações geniais. Lenny não precisa criar algo absolutamente do nada: ela rearranja as peças de Chapter 1 com outras configurações. Ptonomy se transforma em Lenny na conversa sobre o fio de baba. Fio esse que agora sai da boca de Rudy, o mutante telecinético de Summerland que recebeu o pior destino no universo desse episódio. No quarto de Syd, David entra sorrateiramente com um tapete para dividir a cama e impedir contato. As sessões de terapia com Kissinger agora são feitas por Lenny. Na sala em que elas acontecem, um aviso sutil. Uma pequena escultura representa uma mão incorpórea auxiliando outra mão. Um símbolo de ajuda que não revela seu remetente, representação acurada da dinâmica dentro da sala.

Ao fim, essa dinâmica de controle parece ser quebrada. Cary e Melanie são contatados por Oliver, e ao fim do episódio Syd também é resgatada. Um cover de David Bowie toca nos créditos finais, anunciando a chegada do “homo superior”. Legion passou um bom tempo desenvolvendo temáticas alheias ao que o universo X-Men sempre priorizou. Será que teremos agora, com a revelação dos objetivos audaciosos de Lenny, uma exploração da raça mutante como a evolução natural dos humanos? Ou talvez os temas de segregação e intolerância com o diferente sejam introduzidos, outra discussão sempre presente nas HQs e filmes?

Difícil dizer. Legion é tão desvinculada dos padrões de sua obra mãe que qualquer suposição é inútil. Uma série impossível de se prever, e deliciosa justamente por isso.

Notas:

– Nesse episódio a existência de Charles Xavier no universo de Legion, e sua própria importância para a trama, é reafirmada com força. Dá-se até a entender que o Professor conhecia Lenny de experiências passadas e tentou esconder seu filho dela, temendo o uso que a mesma faria de seus poderes caso parasitasse o rebento. Parece que não deu muito certo. Além disso, vejam esse vídeo no qual Patrick Stewart fala sobre uma possível aparição em Legion:

– Algo curioso ocorreu na minha costumeira exploração da trilha sonora desse episódio. Um remix moderno e eletrônico de Feeling Good na versão de Nina Simone toca durante a mais espetacular cena do episódio. É perfeito para o momento. Acontece que, ouvindo a música de forma isolada, ela é… não tem outra palavra, ruim. Uma versão quase dubstep de um clássico, chamativa demais e com truques manjados de música eletrônica. Fico então com a música dos créditos finais, o excelente cover de David Bowie que citei acima.

https://www.youtube.com/watch?v=JGgpQIDUnIA

REVISÃO GERAL
Nota:
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