A terceira temporada de How To Get Away With Murder cumpre o simples propósito: desconstruir o que restava na fortaleza de Annalise Keating, propor a devolução de uma humanidade que parecia estar perdida desde o fatídico dia em que perdeu o bebê, que seria substituído em camadas, pelas tantas missões que atravessaram o caminho da advogada. O que talvez ela não esperasse é que o sangue do seu filho “invocasse” tantos outros sangues em circunstâncias que a cercaram. Keating segue a sina dos anti-heróis (embora sua profissão gere sentimentos muito controversos na vida real) onde a redenção é o caminho mais adequado para o reparo de tudo que foi posto fora do lugar e Nos cinco minutos iniciais ela diz a chave que se utilizou em todas as temporadas: “vamos consertar isso, eu prometo”.
Núcleo dos protegidos em sintonia com sua outrora protetora demonstra fragilidade
Enquanto alguns elogiam tom dado por Karla Souza para sua Laurel, em It´s War a atriz mexicana começa batendo forte em um ritmo que poderia ter sido intensificado da metade para o fim do episódio, mas preferiu uma dose extra de revolta na sua postura diante dos colegas e da tutora. Deste ponto em diante, temos em It´s War uma ciranda de conversações que deixa a gente tonto pela quantidade de emoções e suspeitas levantadas. Por vezes este timing no que diz respeito a como contar a história apresenta problemas que eu considero graves para credibilidade do roteiro. Um exemplo muito claro disso foi do momento que Bonnie está arredia com Frank mediante a postura corajosa do capanga de fazer tudo para redimir seus pecados – para – em cenas avulsas, a mesma Bonnie retornar à prisão (sob conselho de Annalise) para oferecer algum tipo de ajuda ao cara. Na verdade, depois fica bem claro que o triunvirato formado por Keating-Winterbottom-Delfino, ainda está fraco das pernas, mas não a ponto de não conjecturar uma situação em que pudesse colocar Atwood em circunstâncias que levantassem suspeitas sobre seu envolvimento com o desaparecimento do corpo de Wes.

… E a tensão “sexual” entre Hargrove e Keating era: Atwood!
Uma maneira muito clara de radiografar o estado de Annalise é justamente não olhar para seu físico. Vítima da sua própria “armação” para sair da condição prisional, Keating tenta buscar forças e de maneira bastante racional se reerguer sem optar para as escolhas teoricamente mais fáceis, como proposto por Bonnie em mais uma vez colocar a culpa em Nate. Ela sabe que retomar sua vida e afastar suspeitas dos seus alunos inclui não repetir os erros. De tão fragilizada, a personagem de Viola Davis está atenta aos tiros que toma… ou que quase toma, como foi o caso de Hargrove, que se oferecendo como suporte, na verdade só queria descobrir coisas a respeito do que Annalise, em sua condição, poderia tramar. Uma personagem cafajeste que vende uma imagem que só corrobora com o retrato do sistema jurídico americano (ao menos na ficção) e daqueles que o compõem.

Oliver e Connor, bons pontos, mas sem surpresas.
O personagem de Oliver cresceu. Saiu da figura nerd, que cumpre cotas em todas as séries, para aquele que tem seus próprios dramas e constrói, mesmo que de maneira claudicante, uma personagem difícil, sensível e agora totalmente envolvida nas enrascadas que seus colegas abraçaram. Hoje, cada um deles, parece muito mais tenso com o limiar da linha que os separava da sua professora. Por isso as conversas agressivas e a total ausência de sorrisos, que não as intervenções manjadas de Asher, que tem pouca habilidade com as palavras, embora sua metralhadora apontada para Connor tenha balas atiradas no momento certo. O problema do desenvolvimento deste plot é que nele nada foi coberto de sutileza; o comportamento estranho do aluno, que mesmo não sendo amigo de Wes, deveria demonstrar mais respeito e solidariedade, escondia algum tipo de sentimento atrelado a alguma atitude. Quem acompanha HTGwM sabe como ele pirou quando o marido de Annalise estava morto enrolado no tapete. Faltou ele ter um piripaque e suas piadas davam conta de que o moço estava morrendo de medo de ser preso por assassinato.
Bonnie é a maior suspeita, mas no balanço das horas, tudo pode mudar…
Mesmo que as cenas protagonizadas por Winterbottom sejam ambíguas (fica difícil saber a intenção da blondie em várias das situações), ao menos para mim, está bem claro que os episódios são dirigidos de forma que o nosso olhar estejam afastados da moça. Ela tem sido a pessoa mais próxima de Annalise, mas isso me parece um recurso de “desaparecimento” e não uma maneira de se revelar dentro do contexto da malha de personagens. Se não, vejamos: Nate não teria motivos para matar Wes, mesmo assim, foi o cliffhanger do final de “Go Cry Somewhere Else”. Laurel ratificou as informações sobre os Mahoney em relação a Wes, mas isso me parece mais uma cortina de fumaça, pois nenhum riquinho apareceu nos últimos episódios, exceto o rapaz que fora preso como o assassino do pai do Wes. Retornar a este núcleo, sem uma pista mais forte, seria um tiro no pé no roteiro, que enclausura as questões nos personagens mais presentes à trama. Agora Connor sabia de Wes e certamente não contou nada do que ocorreu aquela noite para não ser responsável por não ter conseguido salvar o ex-colega de faculdade, virando um precipitado cúmplice.

Acredito que nos últimos episódios algumas circunstâncias tiveram que ganhar uma colorida; uma delas é a situação de Laurel, que desbravou a frieza dos colegas em relação à morte de Wes e foi em busca de respostas. Mesmo que eu ache as motivações são legítimas, reforço que o tom me pareceu cinzento demais para ter uma relação forçada com o aborto/assassinato que Annalise sofreu mais jovem. De qualquer forma foi excelente ver a trama de Peter Nowalk acentuar os dramas sem superficialidade.
No mais, às referências a Gregory House, costumeiro usuário de Vicodin, reforçando o estereótipo do anti-heroi, que teve seu fundo do poço na sexta temporada, mais a citação ao Brasil como possibilidade de fuga para quem se encontra desesperado, foram pontos tratados ora com a sutileza do silêncio (a cena do banheiro foi curta mas icônica), ora com o humor negro que recorre ao nosso país como reduto de criminosos e espertalhões, numa referência reforçada do país como paraíso para os desta estirpe.













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