Quando lançado, o primeiro Assassin’s Creed levou o jogador ao conflito pela Terra Santa, durante as Cruzadas (a terceira mais precisamente), o colocando tanto na pele de Altaïr, um noviço na ordem dos assassinos, e Desmond seu descendente moderno, responsável por guardar suas memórias genéticas. O sucesso da franquia foi tamanho que resultou em inúmeras sequências e histórias paralelas, que cobrem praticamente grande parte da história mundial usando-a como um pano de fundo para eterna batalha entre os Assassinos e Templários. O filme homônimo de 2016, que estreia agora no Brasil, talvez seja uma das melhores adaptações de videogame para o cinema já feitas, mas peca por não saber dosar a transição entre realidades.

Callum Lynch (Michael Fassbender) é um condenado a morte com um passado conturbado. Dado como morto, ele acorda nas instalações da Abstergo, onde descobre que seu DNA carrega as memórias de Aguillar de Nerha e com ele os segredos para um artefato que pode acabar com um conflito secular de uma vez por todas, dando início a descobertas que podem moldar toda a humanidade.

Justin Kurzel refaz a equipe por trás de “Macbeth” numa obra que tem duas partes distintas que brigam pela atenção do espectador. É como se o passado e o presente competissem pela importância narrativa e no decorrer da luta nenhum dos dois saísse vencedor. Temos uma reconstituição da Espanha Árabe perfeita, com uma Andaluzia medieval crível, cheia de ruelas e com uma população que oscila do mouro ao europeu, mas que é constantemente sabotada pelos planos de contraluz ou uma fumaça que insiste em tornar toda a beleza visual uma maçaroca indefinida (o que ocorre na maioria das batalhas campais ou em espaços abertos).

O que Assassin’s Creed acerta, é justamente na fidelidade que tira da obra de origem. O parkour que se desenvolve numa das melhores sequências do longa. Termos conhecidos pelos jogadores, como “maçã do Éden”, “salto de fé”, “sincronismo” e “Animus” são incluídos na narrativa de forma fluida e inteligente, com uma qualidade narrativa não vista anteriormente nos filmes adaptados de jogos. O Animus por sinal foi uma sacada visual interessante, já que o existente nos jogos ficaria um tanto quanto enfadonho ao ser transposto para o cinema. Há várias ligações com pormenores dos jogos lançados e alguns “easter eggs” (o arco de Connor de “ACIII”, a espada de Altaïr de “AC” ou as pistolas de Edward Kenway de “ACIV: Blackflag”…). Mesmo que esses não atrapalhem a criação de uma nova linha temporal em um novo conflito histórico importante. A escolha da Inquisição Espanhola e a retomada católica do domínio árabe, porém é apenas arranhada, já que o filme foca mais no período atual. Essa decisão talvez seja a responsável por deixar essa sensação de divisão desigual entre as idas e vindas temporais. Nos jogos antigos, a história de Desmond quebrava o estado de imersão e a consequente atenção ao período histórico apresentado. Os mais recentes, livres desse artifício, são bem mais interessantes no viés temporal, dando alguns respiros de modernidade, mas sem quebrar a proposta, o que talvez funcionasse aqui.

Assassin’s Creed
Assassin’s Creed

O elenco, repleto de nomes de peso, no entanto parece não estar tanto à vontade com o material. Enquanto Fassbender pena na dicção nas partes faladas em espanhol (que são várias), Marion Cotillard parece estar no automático. Brendan Gleeson faz uma ponta rápida e seu filho Brian Gleeson também participa. Jeremy Irons parece que não perdeu alguns trejeitos de Alfred, mas compensa como um inescrupuloso templário. Charlotte Rampling e Michael Kenneth Williams completam o elenco de maior peso dramático. Notável também o uso de vários atores espanhóis famosos para dar vida aos personagens da história do país: Javier Gutierrez e Carlos Bardem, irmão mais velho de Javier Bardem, entre outros.

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A sensação que fica é que Assassin’s Creed, assim como seu personagem principal em alguns momentos do filme, sofre de um erro de sincronização. O conjunto final da obra não consegue compartimentar as junções do modo que devia, dando engasgos na trama e comprometendo o envolvimento de quem assiste. Não é de todo ruim, mas está um pouco distante do que deveria ser. O primeiro passo foi dado e como todo primeiro passo, não veio sem alguns tropeços. A questão é aprender com os erros desse para nas possíveis (e prováveis continuações) o filme não sofra com esse ritmo picotado. A Ubisoft deu um salto de fé, apostando em levar uma de suas mais rentáveis obras para o cinema com sucesso. Resta saber se cairá numa carroça de feno ou se dará de cara no chão.

* O Série Maníacos assistiu Assassin’s Creed a convite da Fox Film do Brasil

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REVISÃO GERAL
Nota:
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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.
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