The Man in the High Castle veio construindo a segunda temporada com um ritmo lento, focando e demandando tempo para situar psicologicamente os personagens e nos orientar espacialmente pela trama, já que agora temos realidades paralelas, troca de alianças e novos e importantes personagens. Esse trabalho de situar o espectador nas mudanças da série acabou por prender um pouco a velocidade dos acontecimentos da narrativa, focando (talvez) em alguns pontos que não mereciam tanto tempo de tela assim. Eis que chegamos na reta final da temporada e a série começa a mostrar todo o potencial que possui.

Nenhum homem é imortal

Foi necessário Tagomi ir para outra realidade para conseguir o tão aguardado perdão. Tudo bem que o contexto da nossa realidade foge totalmente daquele construído na do personagem. Mas se em uma ele não teve a chance de se despedir (durante a guerra), na nossa ele encontrou a tão sonhada comunhão com seus parentes. O caminho não foi fácil, ao assumir os erros do seu “eu” daquela realidade e recuperá-los, mas o resultado foi prazeroso. Resta saber se ele ficará de vez na nossa realidade ou voltará a tempo de ver o rebuliço que se arma na realidade original.

Imagine toda a trama da série até aqui como um lago calmo. Algumas vezes o vento causava alguma perturbação, mas nada que fosse sentido fortemente. Foi necessária a morte de Hitler, que caiu como uma pedra gigante no teto de vido da tranquilidade do exemplo, para que a trama ganhasse o fôlego necessário para a reta final.

Comecemos por Frank e Ed. Enquanto Frank vai se enraizando totalmente na Resistência (o que ele fez a temporada inteira diga-se de passagem), Ed vai ganhando mais espaço e saindo do coadjuvante que era até então. Ed cresceu no conceito da narrativa ao se impor ante as adversidades crescentes (maioria delas criadas por seu “amigo”) e chegar ao desfecho com um papel definido nela. A amizade (improvável) dele com Childan e os artifícios que ele usou para livrar os dois da Yakuza e vender as abotoaduras foi algo que gostei de ver no personagem. Frank, pelo perdão do desabafo, virou um babaca completo. A grande motivação da entrada dele para a força contra a opressão japonesa foi a morte da irmã e dos sobrinhos. Muitas outras pessoas perderam seus entes queridos na guerra, mas isso não dá o direito de se pisar nos outros ao bel prazer. Sem contar a atitude irresoluta, que mesmo descobrindo os planos japoneses da construção da bomba atômica, quase resulta na entrega de um bom pedaço do braço da Resistência em São Francisco.

De modo parecido, Juliana também se enrola ainda mais na relação com a Resistência nova-iorquina. Mas no caso dela, ao assumir um risco alheio (a imposição da Resistência), conseguiu ganhar um bom poder de persuasão sobre a família Smith. Helen conta com a descrição dela para manter o “ataque” do filho em segredo, John a mantem como uma fonte de conhecimento (que foi gasta nesses episódios) e Thomas cai de amores pela refugiada. Foi a partir desse relacionamento que ela descobriu a queda do Führer e acendeu o pavio do levante da Resistência.  Mas o ponto mais interessante foi a questão do enterro do Dr. Adler e a sutil comparação da religião e das ditaduras como modo de controlar as massas. Através de um palanque, as palavras de compreensão eram ditas, mas tudo tinha um verniz de controle, de espalhar a mensagem do Reich a todos os presentes. Esse modo de controle de ideologia acontece hoje, de modo mais tecnológico e rápido é claro, comprovando que nem tudo é evolução e mudança na história, como se cometêssemos os mesmos erros ao invés de consertá-los.

Mas a grande surpresa foi a verdadeira ambição de Heusmann. Com a sua ascensão ao poder, a faceta tranquila e benéfica que queria mudar o mundo através de bons atos cai por terra. Como o proverbial “lobo vestido de cordeiro”, com o poder de ser o novo mandatário nazista, ele agora coloca suas garras de fora e promete movimentar a reta final da temporada, ainda mais com Joe ao seu lado. Outro personagem que também aproveitou para atacar foi Smith, que se livrou de Heydrich (que para mim tinha morrido) e colocou os nomes nos bois, sabendo agora o que enfrenta na efetuação de sua missão pelo partido.

Restam dois episódios para o final da temporada e as peças exemplificadas no vídeo começam a assumir suas posições. A guerra deixou de ser fria e promete esquentar todo o mundo. A sorte está lançada.

Sayonara 1: “Der Gute Kamerad” é uma canção típica dos funerais militares da Alemanha. A letra não apresenta qualquer filiação política, sendo usada até hoje. A Áustria também utiliza a mesma canção e outros países usam versões adaptadas em suas honras fúnebres militares;

Sayonara 2: Göring tentou dar o golpe e se deu mal. Ele e a família inteira fuzilada. Hitler não brinca em serviço;

Sayonara 3: Legal ver esses aspectos de background histórico fictício do livro ganhando vida na série;

Sayonara 4: A Yakuza era a espiã dos nazistas em São Francisco. Kido não perdoou, limando definitivamente o vazamento. Falando nele, a conversa de pé de ouvido entre ele e Smith era um plano de cooperação mútua;

Sayonara 5: Baseados são legalizados nos Estados Japoneses do Pacífico.

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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.