Scream Queens apresenta aquele que pode ser seu último episódio e quase não consegue honrar o próprio legado.
Colocando duas temporadas de Scream Queens em perspectiva, já podemos dizer que a série construiu sua própria estrutura. Ryan Murphy e seu time sempre tiveram esse talento: ressuscitaram gêneros usando referências assumidas, mas conseguiram dar uma voz característica que torna os produtos independentes de sua matéria de inspiração. Assim como aconteceu com Glee e American Horror Story, Scream Queens deu a volta na gênese pela qual foi criada e estabeleceu mitologia própria, identidade marcada, de uma forma que torna evidente o plano de conceitualização da dramaturgia.
Um dos exemplos disso é que tanto no primeiro quanto no segundo ano, já sabíamos quem eram os assassinos antes da finale. Esse tipo de detalhe é o que faz o trabalho de Murphy tão interessante. Ele pega aquele monte de referências e homenageia, sem nunca esquecer que uma pitada de transgressão não faz mal a ninguém. O roteiro toma a grande decisão de revelar os assassinos bem antes do fim porque eles têm certeza que haverá outras formas de cativar a atenção do público até o momento final. Poucas séries se arriscariam a fazer isso (essa é para você, Scream), mas é o exato tipo de coisa que esperamos desse pessoal.
O problema é que Scream Queens estava um pouco perdida esse ano, isso ficou muito claro. A segunda metade da temporada foi mais interessante porque a trama central voltou a ser mais explorada, mas, mesmo assim, os últimos episódios penavam com a fraqueza de seu esqueleto. Sei que muita gente repete que “não é para levar tão a sério”, mas só faz sentido acompanhar uma história se ela tiver pelo menos o mínimo de embasamento. Dito isso, podemos admitir que toda a motivação para os crimes beirava o ridículo de tão frágil. Os roteiristas não precisaram nem de cinco minutos para criar essa história de vingança por negligência, porque é exatamente a coisa mais óbvia a se fazer.
Então, com os assassinos revelados, o Season Finale precisava se focar em mostrar ao público como a história seria resolvida. Obviamente que Murphy já tinha tido tempo de avaliar a recepção da audiência antes de filmar o final. Dessa forma, havia uma decisão a ser tomada: ou eles dariam um destino sangrento a todo aquele elenco sobrevivente ou manteriam a rédea curta e não dariam passos muitos largos, já que sempre há ao menos uma mínima possibilidade de renovação. Sabemos (eu, você e uma galera) que encerrar essas histórias definitivamente seria a opção mais correta até se a renovação fosse certa, mas boa parte da razão para que a audiência existisse, mesmo que ínfima, era o amor do público pelos personagens.
Por conta disso, Murphy, Ian e Brad não mataram nenhuma das “final girls”. Parte de mim fica feliz de não ver as Chanels clássicas morrendo, mas outra parte acha meio covarde. Com toda essa obsessão que o criador do show tem pela cultura pop, era previsível que ele fosse adentrar o showbizz como terceira opção de narrativa. Caso tivéssemos uma terceira temporada e ela fosse se passar em estúdios de televisão, haveria muito material para seguir. Contudo, apesar de um pequeno cliffhanger, os destinos dos personagens foram se dividindo naquela clássica sequência final das “resoluções de última hora”, de um jeito que soava mais como Series Finale do que como Season Finale.
Para mim, Dean Munsch foi uma das que mais penou nesse confuso final. Tínhamos lá um ou outro momento interessante, mas a coisa toda da doença foi desnecessária e desinteressante. Outro ponto negativo foi a sequência do confronto entre Hoffel e os sobreviventes. Me fez lembrar um daqueles episódios do Sai de Baixo em que um bandido com uma arma reunia o elenco todo na sala e ficava contando seus planos até que um sobrevivente de última hora aparecia do nada para salvar todos. Boas falas estavam lá, mas foi tudo rocambolesco e infantil. Nem a presença de Denise divulgando Quantico pela enésima vez ajudou a tirar daquele momento aquele tom de paródia. Tudo ficou ainda mais tolo com aquela perseguição desajeitada que terminou com Hoffel afundando no pântano.
No final das contas, o que ficou de melhor dessa finale foi o trabalho de Lea Michele como Hester e o de Emma Roberts como Chanel Oberlin. Duas atrizes marcadas por um tipo específico de interpretação e que encontraram sutilezas suficientes para convencerem o público de que estavam vivendo outras pessoas. Outra coisa marcante no trabalho de Murphy é sua mania de promover “reeducações” estranhas de valores estabelecidos. Em dado momento, Chanel diz que “consequências e responsabilidades são para aqueles que escolheram sentir vergonha do que são”, numa alusão debochada ao maniqueísmo que essa dramaturgia tanto renega. Chanel é ambiciosa, insensível e egoísta, mas ela não vai ser punida com a morte só por causa disso e nem se desculpar. Não é uma aprovação ao comportamento dela, mas uma maneira até filosófica de questionar o interesse de cada um em ser péssimo sem culpa e sem arrependimento.
Sempre torcerei pelo retorno do show, porque ele ainda é mais interessante que muita coisa que está no ar. Mas, uma reformulação ali é essencial. A série tem plataforma e tem voz, se lhe derem a chance de continuar falando eu vou ouvir.
Scream Queers: Estou perturbado com a visão de Hester na cadeia desenhando imagens pornô nas paredes para se masturbar depois.
Scream Queers 2: Munsch não bebe água… Eu também não.
Scream Queers 3: Não sei porque, mas tive um acesso de riso na sequência do café no cérebro.
Scream Queers 4: É pedir muito um spin-off de Number 5 e sua Vagina Dentada?
Scream Queers 5: Um spin off de Hester nas Ilhas Sangrentas também seria divertido.
Scream Queers 6: Taylor Lautner está aprovado.
















