Corre entre os carros, vestido sujo balançando ao vento, senta-se na ponte. Antes do pulo, porque já sabemos que ele ocorre, olha para trás como se buscasse em cada pessoa que alcança com seu olhar aquele que entenderia seus motivos. O pulo não lhe representa a saída, mas a entrada. Algo lhe diz que esta é a porta para encontrar quem tanto procurou depois de muito, muito andar; depois de ter deixado quem deixou para trás. A partir do momento que se foi, voltou a ser Prairie Johnson, pelo menos aos olhos dos outros. O problema é que desaprendeu a ser essa pessoa. Ela é OA, e só — e sendo só, tem unicamente a si mesma para conviver depois de sobreviver ao pulo; a si mesma para guardar seus segredos e a si mesma para guiar de volta àquele que já se tornou seu lar.
“Todos nós morremos mais vezes do que eu posso contar”.
— Prairie Johnson, The OA.
Depois da ponte, Prairie Johnson, que tem o vídeo de seu salto rodando a internet, é reconhecida por seus pais e identificada. Ela desaparecera sete anos antes, quando entrara na casa dos vinte. O que se torna notícia nos jornais, além do aparente final feliz tão incomum em histórias assim, é o fato dela voltar bem e enxergando, pois, na época em que desapareceu, era deficiente visual. Seu regresso ao lar, que nomeia o episódio, é envolto em mistério e questionamentos. Percebemos que para Prairie, ainda desconfortável em ser chamada dessa forma novamente, o retorno não fora tão planejado, e sua mente está bem além da vizinhança quieta. Ela pretende, acima de tudo, estabelecer contato com quem deixou para trás.
A partir desse cenário de reencontro e confusão, acompanhamos o início de The OA, nova série da Netflix, que chegou a seu catálogo nesta sexta-feira. A primeira temporada conta com oito episódios que vão de trinta minutos a uma hora e pouco. O cineasta Zal Batmanglij, que na televisão dirigiu dois episódios de Wayward Pines enquanto ainda valia a pena assistir à série, é responsável pela direção dos oito episódios e assina os roteiros, tarefa dividida com Brit Marling, que protagoniza a série. Este trabalho em dupla, dividindo os roteiros, já foi repetido no cinema com os filmes Sound of My Voice de 2011 e The East de 2013. A dupla ainda é creditada pela produção executiva.

Brit Marling, familiarizada com os gêneros thriller e ficção científica por conta de suas produções anteriores, interpreta Prairie, a jovem que acreditava que a ponte poder-lhe-ia ser a porta de retorno. Além dos segredos envolvendo os últimos sete anos, ela possui uma história sobre sua infância que nem mesmo seus pais conhecem, e é algo que acompanhamos conforme os minutos passam.
No primeiro momento, o que se destaca é a amizade improvável criada entre ela e Steve Winchell (interpretado pelo ator irlandês Patrick Gibson), um jovem problemático, onze anos mais jovem. Ambos se unem para resolver os problemas emergenciais em suas vidas: enquanto ele precisa de alguém que se passe por seu responsável para evitar que seja expulso da escola (após agredir um cantor do coral e machucar sua garganta!), enquanto ela, por sua vez, pede que ele reúna cinco pessoas fortes, pois estas serão responsáveis por lhe ajudar a chegar aonde deseja.

O desenvolvimento de The OA brinca com seus mistérios e sabe desenvolver sua trama, nunca apelando para o drama exagerado, que facilmente seria o foco em outras mãos. Mesmo os diálogos parecem esconder algo, e os atores, mesmo aqueles que não assumem personagens interessantes, conduzem bem suas participações — o ator Scott Wilson (Hershel de The Walking Dead) e a atriz sul-africana Alice Krige completam o elenco como os pais adotivos da protagonista. As produtoras responsáveis fizeram um bom trabalho ao transportar esse roteiro com ares de fábula para a tela, e a fotografia inspirada ajuda a criar momentos deslumbrantes. Outro ponto interessante é a pontualidade da trilha, que entra em poucos momentos e sempre instrumental, deixando o restante da série entregue a seu silêncio.

Assim como nossa distopia nacional, também da Netflix, chegou prejudicada por um gênero muito explorado, é evidente que The OA pode afastar boa parte do público de assinantes da Netflix por estabelecer sua história em uma área que vem sendo explorada desde Lost e que lembra muito produções que figuraram em nossa watchlist nos últimos tempos — como The Kettering Incident, sobre a qual eu mesmo conversei por aqui em outubro e estabeleci alguns paralelos. Nesse caso, comprometer-se com a série é abrir mão da busca pela originalidade que tanto dizemos querer: é acreditar que, mesmo em meio a tantas referências (muitas acidentais), é possível criar algo que seja próprio desse original do serviço de streaming.
Mesmo depois de um episódio de setenta minutos, percebemos que sabemos muito pouco e boa parte do material promocional ainda não apareceu em tela. Há personagens e histórias deixadas de lado por enquanto, o que favorece a ambientação e a conquista do público antes do mergulho na trama. Há referências bem utilizadas à tecnologia em geral, tornando a série tão presente quanto esperamos. Prairie não é uma personagem tão interessante, mas tem uma história que é, então isso talvez compense. Ficamos, no fim das contas, com uma trama instigante e com bastante potencial. Há diversos momentos em que sentimos que estamos lendo um bom livro. Neste caso, fica a indicação para que se leia as primeiras páginas — isto é, assista ao primeiro episódio. Em pouco tempo vai ficar bem claro se a série é ou não para você.

> Entendendo Westworld com Carol Moreira!
ps: Ao contrário do que está circulando pelos artigos por aí, recuso-me a comparar The OA com Stranger Things. Fica a indicação.















