Depois de alguns episódios em que o foco esteve nas provas do Processo e nas intrigas dos bastidores da sua produção, Água veio com um ritmo mais lento e um roteiro mais cuidadoso para nos contar um pouco do passado Ezequiel. O episódio destoou completamente do restante da série em seu tom e até as atuações estavam bem melhores do que nós já estávamos acostumados. Senti um pouco de falta dos candidatos àquele 3% vagabundo e do caos divertido que a série nos proporcionou nos outros episódios, mas gostei bastante do resultado alcançado, um momento que a produção da Netflix foi mais sóbria e competente.
“Você é o criador do seu próprio mérito”.
O grande mérito de Água foi a sua capacidade de aprofundar Ezequiel e ainda nos apresentar Julia, que roubou a cena, de forma bem surpreendente. A história foi simples e até mesmo previsível, porém o roteiro mostrou calma e se aproximou do que eu esperava da série antes da sua estreia.
Impressionante como Julia chegou e em pouco tempo conquistou o coração de grande parte da audiência. O carisma, a beleza e a boa atuação de Mel Fronckowiak ajudaram bastante nesta construção, porém acredito que isto ocorre justamente porque a qualidade do roteiro subiu em relação do que havíamos visto nos últimos episódios. Os diálogos foram menos expositivos e não havia necessidade de mostrar personagens fodões com cara de quem vai passar por cima de todo mundo. Assim, Julia se consagrou como a personagem mais honesta da série e por isso o público está responde tão bem a ela.
O episódio começou com a revelação de que Aline finalmente descobriu sobre o menino que Ezequiel tinha trazido para o Itaquerão (nossa, acabei de perceber que não sei o nome do local onde o Processo acontece). Assim, ela ganhou a vantagem que queria para fazer a sua jogada. A intenção de Aline é que Ezequiel termine o Processo atual, renuncie ao final e a indique para o conselho como sua sucessora. Água não mostrou ao certo como Ezequiel de fato conseguiu chegar na posição de comando em que se encontra hoje, mas ficou claro para mim que foi a partir de táticas parecidas como as de Aline.
A partir deste momento, fizemos uma viagem ao passado de Ezequiel, quando ele nem era chefe do processo. A crítica ao conceito de meritocracia, presente desde o piloto e um dos aspectos centrais da série, nunca se fez tão presente e a frase “Você é o criador do seu próprio mérito” foi uma espécie de catalisador para que Ezequiel se transformasse no megaevil que é no presente atual da série. Adorei como a frase começou como uma espécie de autoajuda e terminou como um forte slogan do Processo.
Não é tão incomum ouvir por aí que o mundo deve ser fundado a partir da ideia da meritocracia, como se as pessoas realmente escolhessem viver na pobreza e na miséria e que o sistema em que vivemos não dependesse da marginalização de uma parcela da população para continuar existindo. A série não chegou a tocar tanto na ferida em relação aos pontos de partidas iguais necessários para que o mérito seja um critério válido para avaliação, mas foi muito bem ao construir a evolução do personagem, motivado pela obsessão em se sobressair em relação aos outros. Água ainda nos revelou o porquê do ritual rotineiro de Ezequiel na pia com água. Foi algo que Julia fez para que ele conseguisse relaxar e retomasse o foco nos seus objetivos e virou um costume que aproxima o personagem da falecida esposa.
As coisas começaram a desandar quando Julia viu uma operação contra a causa em que um homem inocente foi morto, deixando uma criança morta. De início achei que a personagem estava sentindo empatia com os 97% da população que não tem acesso ao Mar Alto, mas na verdade a cena a abalou tanto porque a criança que supostamente tinha ficado órfã na verdade era um filho seu, abandonado por ela uma vez que ela foi para o Mar Alto. Deste ponto em diante, ela não conseguiu mais aproveitar os privilégios de estar entre os 3% e acabou por se matar se afogando no mar. Uma pena, uma vez que a personagem foi excelente e tinha um carisma muito grande. Palmas para Mel Fronckowiak, que com pouco tempo conseguiu consolidar tão bem uma ótima personagem.

Assim, descobrimos quem é a criança que Ezequiel vai visitar vestido de Gandalf, o Cinzento, e também suas frustrações em relação aos acontecimentos com a esposa. A obsessão pelo sucesso e pelo poder o atraiu para o lado negro da força e, apesar de ter tudo que precisa e que não precisa no mar Alto, Ezequiel perdeu seu bem mais precioso. Assim, nada mais lhe resta além do cargo que ocupa e o vínculo com Augusto.
Em suma, gostei bastante do episódio e do salto em qualidade da produção como um todo, em alguns. Entretanto, senti falta da tosqueira rotineira e confesso que me diverti mais nos outros episódios. De qualquer forma estou bem ansioso para ver o desenrolar das tramas e o desfecho do Processo. Quero ver Michele e Rafael fazendo logo alguma coisa pela causa.
> Entrevista com o elenco de 3%!
PS: Preciso destacar também a ótima trilha sonora da série, que nos lembra que a série é brasileira com músicas de qualidade. Elza Soares manda beijos para o que é tocado nas rádios hoje em dia.















