Como transgredir uma Final Girl em Chapter 9.
Eu imagino que o Brainstorm que criou a sexta temporada de American Horror Story tenha começado assim: Ryan Murphy já havia decidido que Roanoke seria o tema, mas uma das coisas que as discussões viviam trazendo à tona era o fato de que a lenda da colônia desaparecida era um assunto constante em programas documentais de canais como o Discovery Channel ou o History. Então, alguém sugeriu: “e se nós também fizéssemos o nosso próprio programa, que também seria transmitido num canal a cabo e teria a mesma dinâmica de depoimentos e dramatizações?”. Daí, a ideia progrediu para uma dinâmica de três atos: o programa, o outro programa baseado nos bastidores do primeiro e a realidade em si (no finale).
O sexto ano vai terminar na semana que vem e não só teve uma forma completamente esperta e inusitada de abordar a história de Roanoke, como também neutralizou as próprias diretrizes, abrindo mão de uma série de aspectos estilísticos que já eram parte de sua gênese. Ou seja, essa temporada foi um desafio metalinguístico dos mais incríveis e ainda passeou pelos conceitos de fama, vaidade e egocentrismo usando a força do horror em suas formas mais agressivas: o gore, o torture porn, o clima de sangue e vísceras que pode enganar o crítico mais desatento e fazê-lo pensar em superficialidade, quando na verdade Roanoke foi inteligência e diversão puras.
UnReal

Ninguém questiona que o twist do sexto episódio foi uma das melhores coisas que a série fez em sua trajetória, mas se não podemos questionar a força da virada, podemos questionar sua “pureza”. Murphy quer nos convencer a todo custo que estamos diante da realidade dos fatos, quando na verdade, cada vez que o nível de violência sobe eu questiono mais ainda se seria possível que uma rede de TV transmitisse algo dessa natureza. Sabemos pelos palavrões censurados, pelas legendas que dão explicações, que Return To Roanoke está sendo transmitido. Mas, se realmente estiver, como American Horror Story vai explicar essa postura comercial? Existem muitas coisas envolvidas na ideia de exibir gente de verdade sendo eviscerada na TV e todas elas tornam a coisa praticamente impossível. Que família de uma vítima permitiria isso?
Pode haver um jeito, é claro. A promo do Season Finale mostra nossa Final Girl sendo tratada como uma “personagem” controversa da atual história americana e se o roteiro tornar Return To Roanoke um evento sem precedentes na televisão (e exibido sob um forte esquema de justificativas), podemos ser convencidos de que aquela violência toda poderia ser transmitida para todo o mundo. Sim, porque aqueles que dizem que a série “não está tão violenta assim como dizem na review” precisam me explicar o que seria a “violência extrema”. Aqueles intestinos sendo puxados para fora com Dylan ainda vivo vão ficar nos meus pesadelos para todo o sempre. Só de pensar eu chego a sentir um calafrio.
A dinâmica de found fottage também acabou servindo a convenientes propósitos. A maioria das câmeras é fixa, o que impede closes que acabem tornando as cenas impraticáveis para o FX. Além disso, mesmo as câmeras próximas não são manuseadas corretamente e as imagens podem escurecer ou sair de quadro em momentos estratégicos. Alguns podem considerar isso um problema. Eu acho esperto, elegante e absolutamente coerente com a estética desse ano. A perspectiva da cena da evisceração era da própria vítima e apesar de escuro e da tremulação, o impacto acabou sendo até maior, sobretudo porque muita luz ou muito foco poderiam retirar credibilidade da sequência.
The Final Girl

Finalmente soubemos o que Taissa Farmiga veio fazer nessa temporada e achei a ideia dos amigos que vão atrás da casa muito coesa. Se esse momento invoca o gênero das “filmagens encontradas”, faz todo sentido que tenhamos um pouco de metalinguagem aí também. O mais recente (e ótimo) The Blair Witch tem exatamente a mesma premissa e a correlação aqui não é acidental. Roanoke lança mão dessas referências de modo calculado, como aconteceu em todos os outros anos, usando elementos clássicos de formas transgressoras. E a transgressão aqui reside na violência com a qual o roteiro “castiga” os “caçadores de likes”. Os três jovens deram uma dinâmica divertida para Chapter 9, que teve tensão do início ao fim.
A maior prova de que Ryan Murphy está muito atento ao que se estabeleceu como mitologia entre a série e os fãs é a maneira como ele mantém a personagem de Sarah Paulson viva até os momentos finais, como se nos provocasse com a ideia de que ela realmente “nunca morre”. Mas, não podemos esquecer que Roanoke quebrou todos os paradigmas do show e não haveria melhor temporada para quebrar mais esse. O roteiro, enfim, é tão maravilhoso, que Audrey (essa personagem que acabou se tornando uma das melhores da história de Sarah no programa) passa pelo diabo, resiste a tudo, dando realmente a impressão de que ela será a final girl.
Lee, no entanto, é a personagem que mais cresceu no decorrer dos eventos. Adina Porter ganhou um presentão e ficou com um papel que como Audrey mesmo diz “dá muitas camadas para se trabalhar”. Mesmo agora, tão perto do finale, vemos como Lee ainda é uma incógnita. Não sabemos se ela matou mesmo o marido consciente ou “possuída” pelo que lhe fez a Bruxa da Floresta. Mas, se ela estivesse possuída, não se lembraria de tê-lo feito. Não sabemos se a coisa da “possessão” não passa apenas de um teatro, embora ela tenha mesmo comido o coração de porco que também já tinha “transformado” Thomasin na açougueira… A controvérsia persegue Lee desde que ela ainda era obra de Monet e nesse nono capítulo sua relevância só terminou de ser reiterada.
Então, na deliciosa cena final, Audrey vem do fundo do poço para se vingar de sua algoz (de novo elas, “Shelby” e Lee) e acaba sendo morta numa virada sensacional. Uma personagem de Sarah Paulson, enfim, morreu antes do fim. Mas, Murphy nunca deixa para trás suas bizarras tradições e lá está Paulson novamente, no último episódio, na pele da inesquecível Lana Banana. O mais maravilhoso, contudo, está na forma inteligente com a qual o programa subverte o sentido de uma Final Girl. Nos filmes regulares, ela é sempre aquela que sobrevive ao assassino. Aqui, ela é um dos assassinos. E a verdadeira “última garota”, a que realmente resistiu não só a um, como a vários criminosos, acaba morrendo quando tenta ela mesma, matá-los. Isso é planejar um roteiro, senhores… Dá gosto de ver.
Impecável até aqui, American Horror Story: Roanoke terá um Season Finale aguardadíssimo e ele pode, finalmente, configurar uma temporada que se encerrará como uma quase unanimidade, deixando a insuportável maldição de “Boa era Asylum” para trás.
> As séries favoritas do Fábio Porchat!
Roanotes: Acho que já está estabelecido que Wes Bentley, Finn Wittrock e Evan Peters não vieram esse ano para marcar passagem. Não atrapalharam, mas deram a vez para quem tinha personagens melhores.
Roanotes 2: O que nos leva a outra grande evidência sobre AHS e o único paradigma que ela não quebrou: quem manda nesse show são as mulheres.
Roanotes 3: Jacob Artist fez sua pontinha e junto com Darren Criss já é o segundo ator de Glee a ser convidado para ser assassinado. #GleeIMissYouSoMuch
Roanotes 4: De novo, Sarah transformou Audrey numa estrela desse ano. Incrível essa mulher, incrível.
Roanotes 5: O quão fantástico seria se o Season Finale fosse inteiro o programa de Lana Winters, com uma hora de confrontamentos entre ela e Lee? Roanoke terminaria GENIAL.












