Arrow investe na qualidade e entrega o seu melhor episódio desde a segunda temporada da série com Human Target.

Arrow estava carente de bons episódios. Na verdade a série estava precisando de muita arrumação. Desde o final de sua segunda temporada e após o primeiro arco da terceira, nada realmente engatou como deveria. Vilões cada vez maiores do que a própria história permearam o roteiro de uma produção que havia começado com a promessa de ser a resposta para um mundo urbano de super-heróis, antes mesmo do Demolidor, e das outras séries da Marvel para a Netflix. Hoje, na quinta temporada, o ano em que Arrow marcará seu centésimo episódio, o ritmo e a temática parecem ter voltado ao status de outrora. E graças a uma ótima direção, texto impecável e boa distribuição de personagens, Arrow entregou um excelente episódio – como não fazia há pelo menos dois anos.

Human Target também foi o capítulo que mais se aproximou da tão idolatrada Era Nolan e o motivo é a história paralela que estava correndo com Oliver tomando as rédeas, finalmente, de sua vida como prefeito de Star City. É necessário que exista uma preocupação maior com a visão de Oliver Queen como alguém que age além da faceta de um vigilante. Entregar para o prefeito o peso de uma luta por justiça social é exatamente o que estava faltando para o personagem, aproximando-o e muito de sua contraparte nas histórias em quadrinhos e mostrando para os fãs que ainda existem esperanças para a série.

A direção do episódio também foi excelente e completamente oposta a tudo o que Arrow já fez no passado, mérito de Laura Belsey. E existe uma ironia muito grande ao atribuir para uma diretora mulher os méritos do episódio mais bem estruturado em uma série de super-herói, conduzida por um homem, algo que exemplifica que a estratégia de Jessica Jones de escalar um time inteiramente composto por mulheres na direção como algo que deveria ser atribuído as produções que mantém em seu núcleo principal um homem como líder, também. O melhor tipo de diversidade é aquele que começa nos bastidores, e precisamos de mais Belseys, Alexanders e Rosenbergs ganhando espaço para mostrar o seu trabalho e competência.

Arrow --- Human Target
Arrow — Human Target

Quando o roteiro é bom, bem conduzido e estruturado, até mesmo o personagem mais inconstante se torna um pico de qualidade. Novamente a direção fez um trabalho magnifico durante as cenas de Rene. Migrando de sua tortura, do posicionamento da câmera, impondo vulnerabilidade e também conflito, suas cenas ofereceram muito peso e carga dramática para um personagem que agia, primariamente, como alguém incontrolável, mas sem tantos motivos.

Também é ótimo ver que a série está respeitando a si mesma e a sua história, sem deixar que as interações entre Oliver Queen e seus antagonistas entrem no quesito da conveniência do roteiro. O Arqueiro Verde é um herói que já fez frente ao líder da Liga dos Assassinos, que matou um homem com poderes místicos, e tê-lo sofrendo para eliminar alguém como Tobias Church seria completamente desconexo com o passado da série. Por isso, ver Oliver vencendo seu inimigo com certa facilidade apenas salienta a imagem de que isso não aconteceu antes, porque o herói estava com outras prioridades, como por exemplo, se concentrar em seus pupilos.

Exatamente por isso a vida curta de Church dentro da série é totalmente condizente com o trabalho de reestruturação da produção. Não seria sensato mantê-lo por mais tempo, pois demonstraria um retrocesso dentro do time Arrow, que já lidou com ameaças maiores. Outro ponto interessante é que o vilão aqui surge de maneira a preparar o terreno para algo maior, com Prometheus. É uma pena que Arrow tenha adotado a postura de Flash, com um vilão mascarado e permeado por mistério, mas se minha teoria se confirmar, o resultado será muito válido para a série e também para a sua história.

Por falar nos pupilos, ver John de volta ao time é reconfortante. Apesar de estarmos acompanhando uma equipe bem abarrotada, é certo que Diggle age melhor quando está trabalhando como mentor. Ele e Oliver poderão então dividir as tarefas de treinar a nova leva de vigilantes, enquanto lidam com os próprios problemas pessoais, permitindo que ambos os personagens tenham uma vida que vá além do núcleo de heroísmo e subterfúgios. Melhor ainda quando a série utiliza o ótimo trabalho de pareamento de seus personagens e coloca Wild Dog para ser controlado por Diggle, um homem que também tem em suas mãos erros cometidos que vão além da compreensão de pessoas comuns. É interessante porque mesmo Oliver poderia oferecer muito para Rene, mas é John Diggle quem mantém na memória recente o peso da morte do irmão através de suas próprias mãos, além do passado no exército.

Não poderia deixar de mencionar também como a divisão entre herói e político fez bem para a série, especialmente com esse episódio. A atitude de dividir seus personagens em pequenos centros diferentes foi muito inteligente, principalmente porque cada trama está bem dividida e com personagens fortes o suficiente para manter o interesse do telespectador. Thea e Quentin na prefeitura foi um acerto, já que transformou uma temática que poderia ter dado muito errado, em algo bom.

Falando em transformações, até o tão desgastado flashback recebeu um tratamento de destaque. Fazia tempo que a história contada no passado do Arqueiro não influenciava e representava tanta importância para o presente da série. O que antes era tratado como desvio desnecessário da história, agora age de maneira a complementar, finalmente justificando sua permanência. Ver o Alvo Humano, perceber que Oliver agora tem uma antagonista para seu período sem uniforme, e notar, no final, que realmente tudo está conectado, foi um sopro de ar fresco, algo que a série estava precisando.

No final, Human Target é a prova viva de que Arrow pode fazer muito, quando quer. Mas também levanta alguns pontos preocupantes. A saída de Church demonstra que a série está preparada para voltar aos atos de grandeza, mas até agora o que valorizou a produção foi a noção de que fazer menos é aproveitar mais. Resta saber se o futuro será tão bem conduzido quanto os episódios passados foram. Torço para que sim.

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Easter eggs e outras informações

– Church mencionou, mais uma vez, as cidades de Bludhaven e Hub City, lar do Asa Noturna e do Questão.

– Human Target é o codinome de Christopher Chance, introduzido em Action Comics #419, de 1972. O personagem é um detetive e um guarda-costas de aluguel, mestre nos disfarces e em várias formas de luta. Assim como na série, ele assumirá a identidade de seus clientes quando eles estiverem em qualquer tipo de perigo. Depois de muito tempo assumindo a vida de seus clientes, Chance começou a se perder dentro de suas fantasias, sendo incapaz de manter qualquer relacionamento, já que ele nunca sabe se o que está sentindo é realmente ele ou outra pessoa.

– Já existiu uma série chamada Human Target e baseada no personagem Christopher Chance. A produção foi cancelada na segunda temporada e teve um total de 25 episódios.

– No ar de reviver temas da primeira temporada, Arrow pode terminar fazendo uma conexão entre o novo vilão e a lista de famílias criminosas do ano de estreia da série – algo reforçado pela imagem de que os Queen estavam prejudicando muita gente (pobre) há 25 anos.

– Finalmente colocaram a Felicity em uma posição em que é difícil detestá-la. Engraçada novamente, com tiradas rápidas e bons conselhos. Até a cena em que ela e o Oliver conversa foi permeada por muita maturidade. Estou assustado.

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