Tudo começa em um debate. A discussão não é nova, e aqui é feita de modo bem desajeitado, mas que consegue capturar nosso interesse. Em um congresso sobre medicina regenerativa, os professores Gary Grossman, norte-americano, e Seto Akihito, japonês, participam de uma palestra sobre o futuro de tal ramo e discordam em alguns pontos. Enquanto o primeiro está desenvolvendo uma pesquisa a respeito e se sente confortável com seus avanços, o segundo teme que a ciência esteja bem perto de esbarrar em coisas que não deveria e atravessar a zona do sobrenatural. Mesmo que não possa indicar exatamente onde, ele imagina que algo maul irá acontecer quando decidirmos implantar nas pessoas “partes” que não são naturalmente delas. O debate termina em sangue, literalmente, quando alguém da plateia, um cadeirante, faz um protesto contra o que ouve, cortando a garganta de um colega ao lado. E é assim que começamos nossa história em Crow’s Blood, uma mistura de gêneros, que é, acima de tudo, divertida.
A história corta para um colégio que recebe uma nova aluna, Maki Togawa (interpretada pela atriz e cantora Sakura Miyawaki), quieta e de comportamento estranho. As outras alunas, intimidadas, começam a provocá-la desde o primeiro momento. Kaoru Isozak (interpretada pela também atriz e cantora Mayu Watanabe), por sua vez, mesmo sendo membro desse grupo de veteranas, decide apenas observar a garota nova. Conforme o tempo passa, entretanto, coisas estranhas começam a acontecer perto da novata, o que coloca em risco a vida de todos. Por coisas estranhas eu digo: uma garota se joga do topo do prédio da escola, porque acreditava ser um pássaro. Aos poucos, descobrimos que as duas histórias estão ligadas de forma direta e que Seto e Maki são bem próximos, e o doutor foi responsável por muito do sobrenatural que envolve a garota.

Crow’s Blood foi produzida pela Hulu do Japão e conta com seis episódios, cada um com quarenta minutos ou menos. A série teve seu primeiro episódio exibido na NTV, uma emissora de TV japonesa, no final de julho desse ano e o restante dos episódios ficaram disponíveis no serviço de streaming em seguida. Ao que parece, a série foi encerrada no sexto e último episódio, e temos realmente essa sensação quando assistimos, afinal, a história principal se conclui depois de um clímax divertido e que mistura horror e aventura da forma como somente as produções japonesas sabem fazer.
“O assustador é que a beleza é tão misteriosa quanto terrível. Deus e o diabo estão lutando por lá e o campo de batalha é o coração do homem.”
— Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamazov, citação usada na série.
Assim como as propagandas avisavam, acompanhamos uma doença estranha se espalhar na série. A doença em questão é passada através do beijo, o que gera estranhas cenas de tensão entre garotas — e soa bem equivocado para alguns, eu incluso. Através dessa doença, a pessoa infectada se cura de qualquer mal, doença ou condição física que lhe tenha afetado antes. Não só ela se cura, como consegue se regenerar quando machucada, que é o que acontece com a garota que se joga do prédio. Essa cura muda muito da personalidade da pessoa, principalmente porque ela pode ser controlada pela responsável na propagação dessa doença. Com o tempo, torna-se desesperador e muitas se mutilam em busca da morte, sem obter muitos resultados. Outra consequência de estar infectado é que seu sangue se torna mais escuro, preto, como sangue de corvo — e aí se explica o título da série.

Além de decisões criativas para sua trama, Crow’s Blood conta com bons atores, que acreditam no papel e se comprometem com suas personagens. Às vezes a atuação soa exagerada, mas creio que seja algo característico das produções de lá. As personagens não são tão interessantes, com exceção da antagonista, mas não chegam a irritar, como em muitas produções norte-americanas. Kaoru é uma garota muito boba e inocente, mas que por isso mesmo pode ganhar nossa empatia. Maki, por outro lado, tem seus momentos fascinantes. Não entendemos por que ela faz metade das coisas que faz, e isso se torna um buraco que às vezes incomoda, mas é divertido de acompanhar suas bizarrices. A atriz sabe brincar com o lado sinistro dela, e isso ajuda a criar um bom clima de tensão em diversas cenas. Temos ainda Takahiro Miura interpretando Takeshi Sawada, um jornalista empenhado em investigar os acontecidos da escola.
Há momentos simplesmente absurdos, e dá para destacar vários. Entre eles, um infectado pela doença começa a se regenerar na mesa de autópsia, mas, dopado de remédios, não consegue se mexer o suficiente para avisar o legista e acaba sendo mandado para cremação. Como acho que séries com essa proposta precisam desses momentos (assim como Ash Vs Evil Dead precisa), todos são bem-vindos.

Todo episódio é aberto com uma citação que dialoga de alguma forma com a trama, mas que é séria demais para a série. Não dá para colocar Dostoiévski e Miguel de Cervantes no meio, por exemplo, como acontece. O ritmo dos episódios é bom, por mais que às vezes pareça que a série é longa demais para os quase quarenta minutos de episódio. Mesmo assim, dá para assistir tudo em um dia, como um filme bem divertido que, conforme a classificação de 15 anos mostra, talvez não tenha o público adulto como alvo.

No quinto episódio, as estudantes fazem uma excursão, mas acabam presas dentro de uma casa. É quando a contaminação acontece mais rápido, e a série atinge seu auge. A produção se torna quase uma história de zombies e os momentos absurdos se multiplicam. A protagonista, presa nessa casa enquanto um exercito é montado, precisa proteger sua boca para sobreviver. É nesse momento da resolução da história que sabemos que, por mais que comece com um assunto bem sério e polêmico, a série não se leva suficientemente a sério para nos fazer refletir a respeito. Resta ignorar os furos e a falta de motivação para alguns acontecimentos e aproveitar o melhor e o pior do horror japonês — e morrer de vontade de assistir outros Doramas em seguida.
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#MêsDoHorror
Esse post faz parte do projeto #MêsDoHorror que tem como objetivo falar, durante outubro, de séries de horror/mistério/fantasia que não tiveram textos aqui no SM no período de 01/10/2015 a 30/10/2016.















