O que move Lucifer? Senso de justiça ou vício em punições?
Lucifer e Chloe continuam no ritmo de investigações estilo CSI, dessa vez sem muita conexão com o círculo social dele. Entretanto, ao mesmo tempo em que o roteiro de Sin-Eater caminhou longe da sua relação familiar, serviu como painel para uma crise existencial do protagonista. Afina, por que Lucifer pune? Quais sãos as motivações para ele ser quem ele realmente é? Aquelas perguntas básicas que todo jovem recém-chegado a vida adulta enfrenta, só que aqui estamos lidando com o Diabo tentando descobrir porque diabos (eu precisava usar esse trocadilho) ele tem que ser o justiceiro maligno da humanidade? A resposta não poderia ser mais simples: Lucifer nasceu pra isso.
O caso da semana até que foi interessante por fugir um pouco da linha-editorial Los Angeles & celebridades, servindo (em certo nível) filosofias de Black Mirror redirecionado para o contexto existencial de Lucifer, óbvio. Um funcionário da empresa Wobble – uma espécie de YouTube – após ficar sobrecarregado com o conteúdo que precisava moderar no site resolveu dar uma de Batman e saiu punindo quem merecia recriando seus crimes, primeiro os torturando até que implorassem por miséricordia e depois encerrando suas vidas friamente. Ação muito parecida com o que Lucifer executava no Inferno; a simples diferença é que ele torturava eternamente, já que não havia mais vida para “encerrar”. O interessante é que o caso deu abertura para Lucifer se identificar com o assassino, servindo de espelho para ele compreender sua função como justiceiro e expandindo um pouco a noção de quem ele realmente é.

Entretanto o show meio que se contradiz quando revela que Lucifer sim, gosta dessa função, mas fica o tempo todo – desde que saiu do Inferno – repetindo o quanto estava cansado desse trabalho “divino” e louco para explorar seus instinto em outros “locais”. O devorador de pecados nunca quis ser um devorador de pecados? Ou simplesmente estamos encarando um anjo caído viciado em punir/torturar, nao importando o contexto e etc? Tom Ellis – apesar de toda essa contradição filosófica – conseguiu com poucos diálogos resolver o emaranhando que é sua persona. Ele tenta se explicar para a mãe (louca pra entender esse lado humano dele) e com isso entrega ao público algumas das noções que a série ainda peca em construir nos outros personagens. O carisma de Lucifer ajuda nisso claro: o personagem é charmoso, egocêntrico e petulante, por outro lado é forte o suficiente para aceitar quem ele realmente é, sem mascarar com outra personalidade que nao condiz com sua psique. Quem está assistindo já aceitou isso na série, só faltava o próprio Lucifer aceitar. E parece que finalmente isso aconteceu!
No paralelo Dan lidava com outra espécie de crise: a familiar. O personagem de Kevin Alejandro poderia ser tudo, menos chato. E dessa vez ele está extremamente chato. A culpa pode ser do plot simples envolvendo a filha e etc, mas também pode estar sendo da química dele com Chloe, que é praticamente zero. Essa tentativa do show em distanciar os dois para depois uni-los nao colou. Sem falar que eu preferia mil vezes Chloe voltando a ser aquela moça curiosa/apaixonada em relação a Lucifer, do que uma detetive cética em relação a tudo que o diabo grita no seu ouvido.
Enquanto que na temporada passada lidávamos com a relação de irmandade entre Lucifer e Amenadiel, nessa estamos aos poucos conhecendo o quadro familiar que fez com que os irmãos tomassem partido na briga dos pais. Tricia Helfer está ótima na caracterização materna, e melhor ainda na concepção “Deusa tentando descobrir melhor sua criação”. Enquanto que no episódio anterior senti uma tentativa do show em reaproximar Charlotte da sua condição humana, na terceira semana ela compreendeu um pouco mais dos seus limites. Principalmente na cena final – a tentativa de assalto – a ex-mulher de Deus reconhece que não está tão fraca como imaginava.
A série ainda continua com o mesmo nível apresentado anteriormente, prometendo amplificar a noção drama familiar-sobrenatural que o finale revelou. O episódio respondeu algumas perguntas e gerou outras mais simples. Lucifer caminha para ser um jogo estratégico entre parentes com ideologia de origens e reconciliação. Pode ser algo grandioso, como também pode ser algo decepcionante. Por enquanto está indo bem, caminhando livremente por uma linha de dramédia, mas desenvolvendo muito pouco o resto do elenco. Parece que a série – assim como o protagonista – ainda está passando por uma crise existencial e precisa reafirmar qual caminho seguir sem parecer uma montanha-russa emocional. O jovem Lucifer nasceu para punir e torturar quem realmente merece, já a série parece estar nascendo… lentamente… mas nascendo.
Versículo 1: Pedofilios, Nazistas e pessoas que ajustam o assento do avião pra trás estão no mesmo grupo de tortura no Inferno.
Versículo 2: Sabe a sarça ardente que apareceu pra Moisés? Obra do Diabo.
Versículo 3: Assaltante “A Bolsa ou a vida!”; Charlotte: “Alguém alguma vez já escolheu a vida?”















