Um retorno rápido para The Flash, mas cheio de tropeços.

Quando foi anunciado no final da segunda temporada que The Flash iria adaptar Flashpoint Paradox para a telinha, minha surpresa foi imensa. Alie está notícia a chegada de Supergirl ao canal CW, e o panorama perfeito para a correção de alguns aspectos da cronologia das séries estava lançado. Muito mais do que isso, porém, é a importância da palavra Flashpoint para a DC Comics. Em 2011 o resultado direto do evento iniciado pelo Flash, intitulado Novos 52, começou como uma resposta às mudanças da linha cronológica. Um novo mundo, uma nova oportunidade para a editora consertar alguns erros e criar uma nova relação com seus leitores. Exatamente por esse motivo, minhas expectativas para o primeiro episódio da terceira temporada da série foram as maiores. Mas nem mesmo a alta expectativa conseguiu apagar alguns erros cometidos.

O grande cerne de Flashpoint nas revistas em quadrinhos sempre foi o coração. Todo o sentimentalismo atrelado a decisão do Flash de voltar no tempo e salvar a mãe serviu como combustível para sua relutância em abrir mão da recém conquistada felicidade. Meu problema com o episódio é que este principal ponto foi quase completamente desprezado pelo roteiro, centralizando tudo no apego do Barry a suas memórias da vida anterior. O erro cometido por Barry não chegou a representar algo definitivo, ou de grande impacto. Wally começou a lutar pela própria vida, mas não morreu. Logo o peso maior para a decisão foi o fato de que naquela nova realidade o velho Barry não poderia existir, abrindo mão de seu status como super-herói. É difícil de processar o ponto escolhido pelos roteiristas para justificar uma atitude tão extrema, especialmente porque em momento algum Barry chegou a derrubar uma lágrima pela morte dos pais, dessa vez causada por ele. Ao contrário, no final o que vemos é um homem bem contente com o que decidiu fazer, retirando todo o peso de sua decisão em The Race of His Life.

The Flash
The Flash

O que eu gostei, e talvez a grande maioria tenha detestado, foi a maneira com que trabalharam o relacionamento entre Barry e Iris neste retorno. O fato do Reverso ter chamado Iris de futura senhora Allen é um indicativo bem forte de que irá acontecer, independente do desprezo que uma parcela de fãs sita pelo relacionamento amoroso do personagem principal. Quando me lembro de que foi ela a responsável por entrar na força da aceleração e resgatar Barry em The Runaway Dinosaur, eu compreendo totalmente o fato de que Iris tenha sentido que aquela realidade não era a adequada. É exatamente assim que a série me conquista com seus tão necessários dramas amorosos, fundamentando-os e impondo lógica, além de conectar a personagem a uma parte da mitologia do Flash muito forte, que é a presença do ‘para raios’ do herói, independente da realidade.

Mas mesmo essa relação soou apressada e com algumas inconsistências. Barry continua apoiando suas maiores decisões em cima da Iris, incluindo a de dividir seus últimos momentos ao lado dela e não da família. É incongruente aceitar que a despedida do Barry com os pais, ambos cruelmente assassinados em sua linha original, seria algo tão frio. Foram três meses experimentando uma sensação que Barry jamais teve. Sua felicidade deveria ter surtido um efeito bem mais devastador, especialmente ao ser forçado por Thawne a pedir pela morte da própria mãe. O que a série fez, entretanto, foi pegar um dos momentos mais emocionais de Barry Allen e transformar em algo insosso, sem grande impacto. Claro, teremos uma grande mudança neste novo mundo pós Flashpoint, mas o evento deveria ter sido explorado com a pompa merecida.

Quanto aos coadjuvantes, quase tudo funcionou bem. Cisco é sempre um bom personagem, mesmo quando sua cena não está carregada de frases cômicas e referências a cultura pop. Até mesmo o pequeno aceno a sua característica mais marcante, o dom de dar nomes aos heróis e vilões de Central City, apareceu para nos entreter. Todo o resto, porém, não surtiu tanto efeito. Caitlin apareceu apenas para cumprir a cota de participação da atriz em todos os episódios da temporada. É uma pena, pois sinto Flashpoint como uma preparação para o que teremos no decorrer deste terceiro ano, e após um relacionamento trágico com o Zoom, a personagem merece algo melhor trabalhado.

The Flash
The Flash

A mudança mais expressiva do episódio e um dos pontos mais altos de Flashpoint foi a introdução de Wally West como Kid Flash. Muito alardeado na temporada passada, especialmente após a segunda explosão do acelerador de partículas do S.T.A.R.S. Lab., a introdução de um novo velocista para substituir o Flash foi algo interessante. Como tudo no episódio, o tratamento foi bem rápido e sem grande floreio. Até mesmo o local de encontro com o vilão, o Rival, terminou em uma locação bem comum e utilizada na segunda temporada. Infelizmente estes pontos prejudicam a sensação de novidade que o episódio deveria ter passado, mas a proposta não decolou como esperado.

Como um episódio de retorno, tão divulgado e com o nome responsável pela mudança de toda a linha editorial da DC, Flashpoint pecou pela falta. Teria sido muito interessante testemunhar todas as mudanças dessa linha alternativa, especialmente quando nos lembramos de tantas possibilidades que um universo expandido como o dos heróis da CW permite. Poderíamos, por exemplo, ter acompanhado como estava o time do Arqueiro Verde, ou alguns dos integrantes das Lendas do Amanhã, mas no lugar ficamos isolados em Central City, seguindo uma trama que já está sendo repetida desde a segunda temporada e com pouco do destaque que o tema merecia. Ou seja, talvez o grande erro cometido pelos produtores e roteiristas foi não ter começado a transmissão da terceira temporada na semana anterior, e transformado Flashpoint em um episódio em duas partes, com todo o cuidado e relevância que o título merecia, afinal, só acontece uma vez.

Easter eggs e outras informações

Flashpoint, o nome do episódio, é uma menção direta a revista em quadrinhos criada por Geoff Johns, Flashpoint Paradox. Johns é o atual mandachuva da DC Comics no cinema e presidente da divisão de filmes da casa do Batman. Também existe uma animação de mesmo nome que adapta a revista em quadrinhos. Em ambas as mídias este nome foi responsável por criar uma nova realidade para os personagens. A história é bem similar ao que vimos na série, com o Barry voltando no tempo e decidindo salvar a mãe. Contudo, na revista e na animação, a mudança cria problemas em uma escala mundial.

– Mais uma menção ao canal 52, que existe independente da linha cronológica da série. Este 52 é uma referência aos Novos 52, a nova realidade criada pelo Flash após Flashpoint Paradox.

– A história do Rival também é um pouco diferente. Na nona arte ele é um inimigo direto do Flash da Era de Ouro, Jay Garrick. Edward Clariss, o nome do vilão, é um doppelganger do Garrick e responsável por criar a Velocidade 9 de seu mundo.  O personagem foi criado em 1949 e teve seu debut em Flash Comics #104.

– A maneira que Wally é ferido pelo Rival é bem similar a forma que o Batman (Thomas Wayne) mata o Reverso na revista Flashpoint Paradox. E a forma que Joe West mata o Rival é idêntica a utilizada pelo Batman

– Toda a cena final também pode ter sido um aceno para o primeiro episódio da série, com Barry tendo que correr dentro de um tornado para evitar a ação do Mago do Tempo e com Joe atirando nele e o matando.

– Alex Désert é o nome do ator que interpretou o Capitão Mendez. Désert já participou da série clássica do Flash, na década de 90, no papel de Julio Mendez. Com Alex a série contabiliza quatro atores saídos da antiga série do Corredor Escarlate, Wesley Shipp (Henry Allen), Amanda Pays (Tina McGee) e Mark Hammil (Trickster).

– Durante muito tempo Wally West (sobrinho de Iris) foi o Kid Flash nas histórias em quadrinhos. Após a morte de Barry na ‘Crise nas Infinitas Terras’, Wally assumiu o manto e o uniforme do Flash, até o retorno de Barry em The Flash: Rebirth e Crise Final. Após Flashpoint Paradox Wally voltou a usar o uniforme de Kid Flash em uma versão bem mais próxima a da série da TV.

– No final do episódio o nome ‘Alchemy’ é arranhado no espalho do não mais inimigo, Rival. Doutor Alchemy é a alcunha de um grande vilão do Flash nas histórias em quadrinhos. Existem duas versões, uma é a de um químico chamado Albert Desmond e que sofre de distúrbio de múltiplas personalidades e o outro é Alexander Petrov, um assistente de laboratório corrupto do departamento de polícia de Keystone.

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