Inspirada em fatos reais da história da telecomunicação brasileira, Nada Será Como Antes, série assinada por Guel Arraes e Jorge Furtado, nos leva para os anos 50, momento em que nascia a trajetória da televisão no Brasil. No elenco, contamos com o retorno de excelentes atores e atrizes, como Débora Falabella, Kássia Kiss, Murilo Benício e Bruno Garcia. Embalados por bonitas canções, romance e desejo de mudanças para a vida brasileira, a trama teve um piloto bem satisfatório, a meu ver, cumprindo bem a sua proposta: mostrar a atmosfera da origem da história da TV e a recepção do público desse novo meio de comunicação naquela época. Porém, não podemos esquecer que a história não é fidedigna aos acontecimentos históricos, ficcionalizando, assim, alguns momentos.
Ah! insensato coração
Porque me fizeste sofrer
Porque de amor para entender
É preciso amar, porque…
Só louco!
Amou como eu amei
Só louco!
Quis o bem que eu quis…
– Nana Caymmi
A TV sendo narrada pela TV em Nada Será Como Antes
A ambientação de Nada Será Como Antes na virada dos anos 40 e dos anos 50 foi muito bem realizada. O início do episódio, com a presença de Saulo Ribeiro (Murili Benicio) e Aristides (Bruno Garcia) mostra que as personagens estão nesse momento histórico de um Brasil que está nos passos do crescimento urbano. A interrupção da viagem dos amigos ocorre por conta da fascinação de Saulo pela voz de Verônica Maia (Débora Falabella), locutora, que trabalha na Rádio Difusora Entre Rios. O encontro entre essas personagens foi marcada por uma atmosfera romântica bem fofa, quando, através da discussão, Saulo percebeu que estava de frente a voz que buscava. Saulo fica tão encantado com a beleza da voz de Verônica que se sente motivado para alavancar a sua carreira e a dela também, uma vez que procura um espaço para que ela trabalhe como atriz de telenovela. O espírito sonhador de Saulo é reforçado pela possibilidade de transformar Verônica em atriz e assim poder continuar a ter contato com ela.
O rápido prólogo introduz o início da paixão do casal protagonista, mostrando como ambos se conheceram e se conectaram através do mundo do rádio. Após esse momento, já passamos para uma década seguinte, em que a presença do rádio na sociedade brasileira está um tanto mais consolidada e também ameaçada pela iminente chegada da televisão. A conversa entre Saulo e Otaviano Azevedo (Daniel de Oliveira) expressa bem isso quando eles discutem que a TV vai além do rádio por conta da imagem, recurso que pode ser utilizado como objeto para seduzir o telespectador. Nessa cena, somos colocados diante de dois posicionamentos: a crença e a descrença em relação à TV.
Em seguida, passamos para outro momento da história de Saulo e Verônica: as tentativas vãs de ter um filho. Ao descobrir que a infertilidade era sua, Saulo não tem coragem de dizer a verdade e cogita guardar esse segredo. O amor que ele tem por sua esposa fala mais alto, pois ele sabe o quanto ela quer um filho e a ausência dessa criança pode reverberar um dia na vida do casal de forma bem negativa. A cena do término do relacionamento, teatralizada pelo cruzamento da voz de Saulo com a de outra personagem, forneceu mais emoção ao momento de separação.

Beatriz, personagem de Bruna Marquezine, teve bastante destaque e foi introduzida dentro do eixo principal da trama. Sensual, misteriosa e provocadora, a dançarina foi para a capital de São Paulo com o sonho de ser atriz e, tal como muitas outras garotas, talvez, encontrou espaço apenas nas boates, local estigmatizado, onde a maioria das pessoas viam as dançarinas como prostitutas. Enganar a mãe, personagem de Kássia Kiss, fez parte do seu projeto de ascensão profissional, visto que a sua presença em São Paulo não seria permitida se fosse para estar no palco de uma boate.
Por fim, vemos que a TV Guanabara era idealizada por Saulo como um lugar de reflexão e discussão da vida brasileira, tendo como ícone Verônica, pois o amor “acabou”, mas a amizade e a vontade de trabalhar juntos ainda persistia. Porém, na prática, isso não funcionou tão bem assim. O nascimento da TV veio através do apoio do Grupo Azevedo Queiroz, comandado por Otaviano, tendo como anunciador desse novo meio de comunicação Saulo. Ele teve que ver o seu sonho começar a se tornar real sozinho, sem estar ao lado da pessoa que o ajudou a crescer como produtor no meio da rádio. O final do episódio termina com um bom gancho, pois ficamos na expectativa da recepção da TV nesse momento histórico do Brasil. Além disso, a maioria das personagens foram apresentadas superficialmente, não tendo muito aprofundamento, algo que deverá ocorrer nos próximos episódios. Com uma boa estreia e uma proposta interessante em contar uma história de algo tão presente na vida dos brasileiros, a TV, Nada Será Como Antes possui potencial para ser uma boa minissérie, levando em conta também o excelente cenário, ambientação e trilha sonora.
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Take 1: Você é muito jovem pra saber como acaba o amor, diz Saulo para Beatriz.
Take 2:
– Mas o que houve?
– Nada!
– Você está ferido, você…
– Roxanne, adeus… Eu vou morrer. E há de ser em breve, minha doce amada. Dentro do peito, o amor canta.
– Morreu, o meu grande novo amor morreu. Noite desastrosa. Noite lamentável. A vida é apenas um sonho. A glória, uma aparência. Tudo foi em vão, porque o meu amor morreu.
Nessa cena, Verônica transpôs a dor do fim do seu casamento para a voz da sua personagem, externalizando, através do rádio, as lágrimas da separação.
Take 3: Para as pessoas que gostam da arte, o momento do divórcio, em especial, a divisão de livros, discos e filmes pode ser uma outra situação bem complexa. Gostei muito dessa cena.
Take 4: Talvez a amizade seja melhor do que o amor. Sem tédio. Sem ciúme. Sem traição, diz Verônica para Saulo.















