Narcos retorna para sua segunda temporada com uma tarefa árdua: se estabelecer como um grande hit mesmo às vésperas de perder seu maior ícone: Pablo Escobar.

Eu tinha grandes expectativas para Narcos quando a Netflix disponibilizou seus 10 primeiros episódios, no ano passado. A temporada de estreia se encerrou e o balanço foi absolutamente positivo. O serviço de streaming, mais uma vez, havia acertado, nos entregando uma boa série, cheia de ação, um bom roteiro e bons personagens. Tudo muito bom, mas nada marcante.

E creio que esse foi o principal problema de Narcos em sua temporada inicial: a série que era vendida pela Netflix como sendo épica era simplesmente boa. Muito boa, na verdade. Mas certamente não seria algo lembrado daqui há dez anos (algo que, certamente, obras como Breaking Bad, Game of Thrones e House of Cards – da própria Netflix – serão para o público).

A principal tarefa dessa segunda temporada, portanto, é transformar a série em algo superior ao que já foi apresentado, algo memorável.

E preciso dizer que tal tarefa não é nada fácil, se considerarmos que o primeiro ano da série foi linear e muito bom. Afinal, como melhorar algo que não está ruim?

Nesse quesito, creio que a segunda temporada começa muito bem e nos dá indícios de que a série pretende buscar a grandiosidade para a qual ela foi criada, começando pela sua divulgação, que destacou a morte de Pablo Escobar e adiantou que todo o segundo ano da série teria como mote central a caçada ao patrón. “Free at Last” reforça a ideia que os trailers já haviam adiantado, e serve basicamente para criar o terreno que será percorrido nessa caçada pelos próximos nove episódios.

Começando exatamente de onde paramos no ano anterior, “Free at Last” faz uma pequena pausa poética na fuga de Escobar de La Catedral para nos mostrar um dos guardas contando um conto de como Escobar seria imortal, uma figura além do humano e da possibilidade daquele pequeno grupo de segurá-lo, apenas interrompendo a história ao esbarrar no próprio Escobar.

E é incrível notar como, mesmo após afirmar que o conto ouvido há poucos segundos não passava de uma bobagem, ainda assim, o grupo de soldados petrificou-se ao se deparar com o traficante, permitindo sua fuga com classe. Afinal, alguém como Escobar não foge de um grupo de guardas qualquer. Fugir correndo é coisa de “bandidinho de quinta”, alguém como Pablo encara seus inimigos e só sai de um confronto como esse de duas formas: andando calmamente ou morto.

Achei essa cena de abertura absolutamente sensacional, em razão de, em poucos minutos, fixar todo o argumento que será seguido nessa temporada. Os outros acontecimentos do episódio apenas vieram para confirmar o que foi fixado nesse momento final da fuga de La Catedral: a fixação da figura grandiosa de Escobar e a ideia de que a sua caçada será um momento memorável.

Afinal, o pequeno conto contado pelo guarda apenas serviu para nos mostrar como Pablo Escobar era uma daquelas figuras históricas sobre a qual histórias são contadas, como ele era maior do que aqueles que os caçava. A reação do el patrón ao encarar uma situação de risco que poderia significar o fim de sua trajetória apenas mostrou como o próprio Escobar sabia de sua grandiosidade, e não estava pronto para ser derrotado por pessoas fracas, que não lhe causavam nenhum temor. E por fim, os soldados permitindo sua fuga demonstra como o cidadão comum de Medellín deve reagir diante da fuga do criminoso: na cidade existem, basicamente, os que amam Escobar e aqueles que o teme. De qualquer forma, todos os cidadãos o respeita, de forma quase reverencial.

A trama que se desenrolou pelos quase 50 minutos de episódio reiterava, a todo momento, esses três pilares.

Após uma pequena pausa para um reencontro familiar – que certamente será importante no decorrer da temporada, afinal, a promessa de que “tudo ficará bem” feita por Escobar, como sabemos, não será cumprida – vimos El Patrón retornar aos negócios, despertar o temor de seus desafetos, o ódio de seus inimigos, e o clamor na população pobre de Medellín, que o idolatra.

Aliás, a mesma idolatria é identificável no Agente Murphy, ao descobrir sobre sua fuga. É incrível como o personagem cresceu desde o primeiro episódio, e a percepção de como a fuga de seu maior inimigo é capaz de alegrá-lo, afinal, lhe dá a possibilidade de enfrentar pessoalmente Escobar. E os problemas no relacionamento com Connie são perfeitos nesse sentido, em primeiro, por eliminar uma trama paralela que poderia ser prejudicial ao tom adotado pela temporada quando sua mulher decide voltar aos EUA, e também por dar motivação ainda maior ao personagem em suas razões pessoais para destruir Pablo, o que se percebe no seu desequilíbrio na cena do aeroporto.

Vimos, ainda, o início da estratégia de guerra que seria a caçada contra Escobar. Vimos o governo da Colômbia se estruturar para enfrentar o poder de Pablo naquele país, com a criação da força-tarefa chefiada pelo Coronel Pinzón – com o apoio da DEA de Murphy e Peña – e seus principais inimigos, aqui nesse episódio representados na figura da viúva vingativa Judy Moncada, se preparando para o que possa acontecer (de melhor e de pior) com a caçada iniciada.

E se Escobar já demonstrou não ter qualquer temor dos guardas que o caçam, é importante prestar atenção em seus maiores inimigos, pois certamente um deles será a causa de sua morte. E apesar de tantos inimigos em potencial, é o Presidente Gaviria que encerra o episódio com chave de ouro ao oferecer um prêmio milionário para quem levar a polícia à prisão de Escobar.

E não é por acaso que o episódio iniciou e terminou com o traficante em destaque, afinal, o dono do episódio foi realmente Pablo Escobar. Foi ele que, com suas ações e reações, gerou todo o burburinho que mexeu com os demais núcleos do episódio.

Ações diretas, como a decisão de não apenas não fugir, mas fazer questão de continuar a transitar por Medellín, com a ajuda de La Quica, Limon e Maritza, mostrando a força que Escobar ainda tinha com a população (sobretudo a mais pobre) de Medellín em uma cena lindíssima que demonstrou a idolatria do povo pelo patrón.

E suas reações, essas ainda mais marcantes pela total ausência de medo e de misericórdia que já é marca registrada de Escobar, como a morte de Jaime, ao descobrir a traição em andamento que parte de seu cartel – chefiada por Judy, Jaime e Don Berna – começava a arquitetar ao sentir a sua iminente queda.

Em suma, as ações de Escobar nesse episódio foram essenciais para fixar a ideia de que sua força é maior do que seus desafetos possam imaginar, e tal qual um escorpião, é no momento em que Escobar está mais acuado em que ele mais ataca, e se torna ainda mais perigoso.

Nos aspectos técnicos a série manteve o excelente trabalho já apresentado na primeira temporada. Apesar de não ter havido nenhuma cena grandiosa de ação, as tomadas continuaram a ser ágeis, o clima eletrizante da season finale foi (na medida do possível) mantida, e o clima de tensão não caiu em nenhum momento, com uma direção primorosa que seguem a cartilha de Padilha, que é um mestre em obras de ação policial urbana.

Já no quesito atuações, preciso destacar o brilhante trabalho de Boyd Holbrook e Wagner Moura. Enquanto Holbrook foi o ator que recebeu o personagem que mais evoluiu nesses onze episódios de Narcos, Moura começa a se sentir mais confortável no papel de Escobar e, com isso, alcança o nível de atuação extraordinário do ator que os brasileiros já estão acostumados e a tomar a série para si.

A construção de ambos os personagens é provavelmente um dos melhores aspectos de Narcos desde sua estreia, e tanto Holbrook quanto Moura cresceram tanto, que a expectativa de um confronto entre Escobar e Murphy torna essa temporada ainda mais sensacional.

Apesar de os dois protagonistas reservarem para si todo o destaque do episódio, preciso fazer um breve destaque também ao trabalho de Pedro Pascal. O fato de não receber elogios com tanta frequência é apenas em razão do fato de Javier Peña ser um personagem mais completo que Murphy e Escobar, não passando por uma transformação tão grande quanto estes dois, mas que nem por isso merece menos destaque ao trabalho de Pascal que sempre defendeu o personagem com maestria.

Sem me delongar em detalhes que certamente só farão maior sentido nos próximos episódios, pretendo encerrar essa review com a complementação da ideia que levantei no começo do texto.

Narcos, desde a sua concepção, me parece uma série criada para alcançar a grandiosidade que tantas outras séries já alcançaram na TV. Seu roteiro, seus personagens e seus aspectos técnicos têm todos os requisitos necessários de um grande hit televisivo, e a série parece pronta para decolar. A primeira temporada, apesar de muito boa, não conseguiu tornar a série grandiosa, mas ao criar um clima de verdadeira guerra urbana, e criar uma caçada com um Pablo Escobar perigosamente acuado e sem mais nada a perder, a série parece ter apostado tudo em uma grandiosidade que parece iminente…

O primeiro capítulo da derrocada de Pablo Escobar parece ter começado a trilhar esse caminho para colocar o nome do traficante não apenas no rol de grandes personagens históricos, mas também no rol de grandes personagens da televisão, e com Escobar vocês já sabem, né? Você apenas respeita, hijo de puta!

P.S.: Narcos também é a primeira série da Netflix que faço cobertura, logo, quero criar uma rotina no lançamento das reviews. Assisto o episódio como telespectador, vejo outra coisa, e depois revejo o episódio prestando atenção nos detalhes para só depois fazer a review. Por isso nem estou devorando a série – como geralmente faço com todas as outras da Netflix – e estou evitando ver outro episódio sem ter feito a review do anterior (para evitar que o meu texto seja infectado por algum acontecimento futuro que eu já saiba na trama). Em razão disso, minha ideia é lançar uma review a cada dois dias. Independentemente de manter ou não essa rotina, ao final de cada texto vou apontar a data da próxima review.

P.S. 2: Até pela rotina detalhada acima, estou trabalhando essa cobertura com todo o cuidado para parecer como se assistíssemos a série de forma convencional, logo, nem mesmo vejo um episódio sem ter escrito a review do anterior, para fugir dos spoilers. Da mesma forma, peço o mesmo cuidado por parte dos leitores, EVITEM PUBLICAR ACONTECIMENTOS DE OUTROS EPISÓDIOS NA REVIEW DE UM OUTRO EPISÓDIO.

P.S. 3: Começo a sentir o Wagner Moura cada vez mais confortável na pele de Escobar e prevejo o ator nos mostrando tudo o que ele é capaz de fazer no decorrer da temporada. Espero com todas as forças uma indicação ao Emmy do próximo ano.

P.S. 4: Apesar de já ter lido muito sobre a fuga e morte de Escobar, creio que esse será o momento que a série terá se afastado mais da realidade, criando algo mais dramatúrgico para o fim do personagem (até mesmo porque existem muitas teorias sobre o que de fato ocorreu no dia de sua morte), e as chamadas de “Quem matou Pablo Escobar?” mostram o mote maior desse novo ano de Narcos.

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