Cláudia Varejão | Portugal, Japão, Suiça, 2016, 113’, Documentário

Falar sobre tradições e manutenção social, frequentemente, é também falar sobre opressão feminina e machismo. Há, felizmente, exceções a essa tendência, em que as tradições afloram naquilo que há de mais profundo na essência humana, práticas simultaneamente libertárias e milenares. ‘Ama-San’, documentário de estreia da portuguesa Cláudia Varejão, relata o conto das mulheres japonesas pescadoras que há centenas de anos mergulham no oceano em busca de pérolas, um ritual cíclico, através do qual essas mulheres entram em contato, quase que espiritualmente, com seus próprios âmagos.

Não é preciso conhecer absolutamente nada acerca das amas para compreender que o que se vê no filme é uma tradição secular. As mulheres repetem todos os dias, religiosamente, os rituais de preparação para os mergulhos, desde a maneira como dobram o pano que envolve a cabeça até a forma como limpam as ostras, já em terra. Recusam-se, ainda, a aderirem a tecnologias avançadas para facilitar o ofício, evitando, por exemplo, tanques de oxigênio, limitando os mergulhos ao tempo que prendem a respiração e tecnologias essas que ameaçam a própria existência das ama-san. Pretendendo louvar a natureza cíclica desse cotidiano, Varejão faz de seu filme uma grande repetição também. Inicia-se nas casas, depois nos barcos, no fundo do mar, em terra, e finalmente em casa outra vez, reiniciando o ciclo, o qual vemos em tela pelo menos três vezes no decorrer o filme, e sem grandes mudanças entre si. A crença de que a repetição levará à perfeição, ou algo próximo, é, afinal, a raiz da tradição, da conservação.

É curioso notar, então, que o Japão – um dos países mais negativamente afetados pelo conservadorismo no mundo, em especial no tocante às mulheres – seja também o lar das ama-san. A economia pesqueira, aquela que vem pouco a pouco apagando a manutenção dessa prática de forma brutalmente mecânica, é um universo notavelmente masculino, e cuja existência visa nada exceto lucro crescente, em oposição às mergulhadoras, que se jogam para debaixo d’água antes por necessidade e espiritualmente do que economicamente, e que encontram no barco e nas companheiras de trabalho um universo terapêutico, em que é possível serem verdadeiramente mulheres, sem o temor da repressão.

Nesse incansável ritual, há algo de estranhamente onírico na maneira como se portam essas mulheres, seja no equipamento que utilizam, tão ultrapassados que parecem saídos de um Wes Anderson altamente estilizado, seja nas cenas de mergulho, em que as ama-san se perdem em meio às algas, que são, sem nenhuma exceção, de tirar o fôlego, e que parecem antes uma metáfora de uma viagem interna ao inconsciente do que a mera profissão dessas mulheres. A experiência de ‘Ama-San’ é de uma natureza um tanto imersiva, literal e figurativamente, e que não é muito frequente na arte documental, a qual muitas vezea prioriza a palavra e o conteúdo à custa da linguagem imagética.

É no mínimo para se refletir e ponderar que um dos filmes mais feministas de dois mil e dezesseis, e em que o difícil é encontrar uma cena que não passe no tal teste de Bechdel, seja sobre a manutenção de uma tradição centenária, em um dos países mais conservadores do mundo. Essas mulheres, idosas ou jovens, de famílias grandes ou solitárias, são acima de tudo independentes, donas do próprio universo, pois conhecem o passado como a própria mão, e dele extraem as respostas para todas as perguntas propostas pelo mundo.

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