O maior evento da história da televisão.

Fez-se a luz no primeiro dia… Nos dias seguintes a forma foi sendo conhecida enquanto beleza. Flores, folhas, texturas conduzidas pela água ou pelo vento. Havia algo além do firmamento e ele era concreto. Terra cercada de água e um número muito, mas muito reduzido de habitantes. Um homem e uma mulher, os primeiros opostos. Para eles só havia deleite, embora qualquer tipo de existência precise ser regida por alguma coisa  e tudo que eles soubessem era que saber e conhecer estava no campo do proibido. Havia um lugar, no centro dessa terra cercada de água, onde estava aquela coisa proibida chamada conhecimento e que se fosse acessada, lhes daria condições de conhecer o segundo grande oposto: o bem e o mal, o claro e o escuro.

A partir do momento em que tinham nas mãos o livre-arbítrio, eles podiam decidir qual caminho tomar, qual voz ouvir. O conhecimento gera inquietude e pouco a pouco, a necessidade de atravessar o horizonte foi se tornando quase insuportável. Mas, aquela terra pura, solene, ainda estaria ali, cobrindo-se de névoa para evitar que outros acessassem a realidade sobre as verdadeiras forças da criação. O tempo passou e o conhecimento transformou o paraíso num solo de poderes deslocados. O oceano o abraçou como a um território fantasma e ele se vestiu daquele título que cai sempre tão bem ao inexplicável: o de lenda.

Será mesmo que o homem (como agora eram chamados os seres que foram gerados da necessidade de saber) estaria preparado para lidar com algumas evidências da verdade? A pergunta começou a ser respondida por um monge irlandês (sim, um monge irlandês que é aparentado distante de Desmond, aquele que descobriu a ilha por acaso) chamado São Brandão. Louco por aventuras e desbravamentos, encontrou em 565 D.C. , uma terra que ele teria chamado de “uma grande representação do Éden”. Brandão afirmava ter colonizado os nativos, ainda que aquele lugar tivesse características muito estranhas.

“… Conta-se que S. Brandão terá pedido a Deus para ver o Paraíso e o Inferno e, após a sua fuga e a dos restantes monges aos invasores Normandos, S. Brandão e os monges (em número que variava entre 18 a 300 pessoas) iniciaram uma viagem, que durou sete anos, em busca do Paraíso. (…) Após quarenta dias, em alto mar, sem avistar terra, deparam com um grande muro de nevoeiro que circundava o que pensavam ser a ilha do Paraíso e que impedia os descendentes de Adão de entrar. (…) À ordem do jovem guia, um anjo abriu a porta e os monges entraram no Paraíso guiados pelo jovem que lhes mostrou as árvores, os rios, as flores, os frutos, os perfumes (que pairavam no ar de um doce e eterno verão), os bosques cheios de animais de caça e a enorme abundância de peixes, num local que não conhecia pobreza, dor, doença, fome e sede. Ele afirmou que a ilha era habitada por grandes coelhos pretos, e um mágico que vivia em um castelo de pedra. 

Depois que voltou de sua expedição, Brandão informou a todos os interessados de que a ilha existia, situando-a em mapas que despertaram a curiosidade de todos. Novas expedições se fizeram, outros relatos de visualização da ilha foram feitos, mas ela, inexplicavelmente, continuava a aparecer em outros mapas, em localizações sempre diferentes. Uma delas, vejam só, nos remetia às Ilhas Canárias, de onde veio o personagem Richard Alpert. O arquipélago de sete ilhas acabaria por ter uma oitava, que nunca era visível por muito tempo no mesmo lugar e que tinha propriedades bastante peculiares.

Lost mapa

Conforme o tempo foi passando, estudiosos começaram a trabalhar a possibilidade de que talvez a ilha não existisse e ela começou a aparecer menos em mapas e relatos de viagem. Aquele lugar que era o limiar entre céu e inferno, que guardava a sabedoria da escolha entre o claro e o escuro, aquele lugar foi perdendo seu papel relevante na condução da humanidade.

“Esse lugar fora descrito como cheio de delícias, exuberância e belezas sem fim. Muitos consideravam ser o paraíso para onde todos iriam após a morte ou simplesmente Ilha dos Mortos. Essa lenda é conhecida como Hy Brazil, palavra celta que vem dos termos “breas” e “ail” e significa Ilha dos Abençoados (Teria originado o verbo to bless no inglês “abençoar”?). 

Vagando pelo oceano, fantasmagoricamente, essa primeiramente chamada Ilha de São Brandão tinha suas raízes na crença de um território que originou a vida e que depois, fez o equilíbrio da existência se estabelecer através de um simples conceito: há sempre um lado claro e o outro escuro. Não se pode dizer o que aconteceu com essa ilha através dos tempos, mas podemos arriscar que em algum momento ela foi descoberta por náufragos, egípcios, cientistas, crédulos, que ela tinha guardiões e que num dia de sol de setembro, um avião se partiu em três acima dela… E caiu.

Lost primeira escotilha

Então, depois de cinco anos acompanhando os eventos que resultaram desse acidente, eis que uma tela branca vira o interior de um avião, o mesmo 815 de outrora, onde um Jack mais magro e depilado está sentado ao lado de Desmond, que ao que sabemos, nunca esteve naquele avião. Dai a câmera desce para o lado de fora da aeronave, transpassa as nuvens, alcança o mar e afunda nele, de onde podemos ver, estupefatos, a ilha que conhecemos tão bem, submersa. O sexto ano de Lost começava assim, senhores… Sob a ideia devastadora de que, de algum jeito, o passado foi realmente modificado e poderíamos assistir comovidos, a chegada do vôo que nunca chegou.

https://youtu.be/BN2_906OCLM

Parecia inacreditável, mas Lost tinha conseguido a reinvenção da própria narrativa mais uma vez. Em absolutamente NENHUMA temporada o exercício da fragmentação temporal conseguiu chegar a ser enfadonho, justamente porque quando estava perto da exaustão, a dinâmica mudava de novo e éramos obrigados a prestar atenção em tudo para não perder nada.

Season One: Narrativa da ilha + Flashbacks dos sobreviventes do meio do avião.

Season Two: Narrativa da ilha + Flashbacks dos sobreviventes do meio do avião e da cauda.

Season Three: Narrativa da ilha + Flashbacks dos sobreviventes restantes e dos Outros.

Season Four: Narrativa da ilha + Flashbacks dos sobreviventes restantes, dos Outros e Flashforwards dos Oceanic Six.

Season Five: Narrativa da ilha no presente e passado (mas como se fosse presente) + Flashbacks dos sobreviventes restantes, dos Outros e Flashforwads dos Oceanic Six.

Season Six: Narrativa da ilha + Flashsideways  e Flashbacks dos personagens limítrofes. 

Eles já sabiam o que estavam fazendo, mas agiam como se quisessem nos enlouquecer com sua nova proposta de brincar com o que teria acontecido se o avião jamais tivesse caído. O problema é que a ousadia da ideia estava diretamente ligada ao caminho por onde fomos levados na temporada anterior. O plano deles era refazer o passado e o passado apareceu na premiere totalmente refeito. Natural então que os flashsideways fossem interpretados como uma consequência disso e não como uma alegoria. Damon e Carlton não perceberam que ao se preocuparem em contextualizar a abordagem espiritual com os eventos do quinto ano, deixaram órfãos aqueles que exigiam que os fatos se interligassem de maneira prática. Porém, de forma alguma não há conexão entre os eventos da ilha e a realidade alternativa. Eles estão ligados por uma força poderosíssima: a força do anseio. 

Em dado momento da premiere, lá nos flashsideways, Hurley já dá a primeira pista. Ele diz: “Eu sou o cara mais sortudo”. O azar sempre perseguiu o personagem, mas naquele novo passado ele é acompanhado pela sorte. Havia algo de errado… O avião não cair não mudava a personalidade ou o que viveram antes daquela viagem. Mas, ali estava, na nossa cara, desde sempre, a evidência de que aquela não poderia ser uma vida real, simplesmente porque traía todo um histórico que contava de muito antes do voo 815 existir. Não podia ser uma hipótese de um passado… Só podia ser outra existência, num campo paralelo ao que já existiu. 

Posso dizer que fiquei extremamente feliz ao ver que o plano não tinha dado certo mesmo e eles apenas foram levados de volta ao presente. Assim, a série manteve sua máxima temporal intocada: O que aconteceu, aconteceu. E essa era outra pista de que o que víamos nos flashsideways não podia ser consequência de coisa alguma. Estava lá, mas nossa ansiedade de desvendar tudo com explicações complicadas, encobriu aquela que era a mais simples. Foi triste ver Juliet viva por mais alguns segundos, mas ela serviu bem ao propósito de reiterar mais um sinal de que aquela realidade sem ilha não podia ter existido sob nenhuma condição. Juliet diz aquele “funcionou” no limiar da morte… Da morte! Mais sugestivo que isso e passaríamos para o sublinhado. 

Hoje, olhando pra reação dos fãs ao lidarem com esse final na época, me lembro de uma verdadeira batalha para provar que os criadores da série não tinham o controle de tudo nas mãos. Bem, eles podiam não ter o controle de tudo, mas tinham uma baita de uma cobertura. Algumas das perguntas levantadas nesse começo de temporada podem ser respondidas se tivermos só um pouco mais de atenção. 

“Por que Jacob aparece pra Hurley só agora para dar explicações que poderiam ser dadas antes?”

Porque ele está morto e Hurley vê gente morta. Jacob trabalha com a ideia de cognição da responsabilidade e saberemos por que mais adiante.

“Por que Hurley teve que carregar aquele case de guitarra ridículo?”

Porque aquela era a senha para eles entrarem no Templo, uma parte da ilha claramente comandada por crédulos de Jacob. De fato, todo o comportamento dos Outros naquele cenário era justificado pela ideia de proteção aos candidatos. Os nomes dos seis possíveis estavam dentro do case.

“Por que Jacob tenta salvar Sayid mesmo que ele fique meio ferrado depois?”

Porque Sayid era um candidato e valia a pena tentar salvá-lo naquele momento em que o Monstro de Fumaça ganhara a vantagem.

Apesar de tudo ter uma resposta, tudo é maravilhoso? Não, claro que não. Era ABSOLUTAMENTE dispensável que aquele chefão precisasse de um tradutor porque detestava falar inglês. Essa foi uma afetação ególatra dos roteiristas que custou caro. Muita coisa era só decisão estilística, mas por causa do excesso de dramatização de algumas dessas escolhas, tudo parecia em suspensão, como se houvesse algo que ainda precisássemos descobrir. Não era de se estranhar que alguns espectadores sentissem a falta constante de preenchimentos de lacunas.

Lost Monstro

Vão se passar muitos anos e eu ainda vou achar que a mitologia em torno do Monstro de Fumaça é uma das mais inteligentes de toda a história da televisão. Tudo que ele fez da primeira temporada até aqui se clareou com justificativas espertíssimas. É muito necessário ficar atento, rever todo o enredo, conectar as motivações descobertas na última temporada com tudo que vimos, e então pode-se chegar perto da dimensão do que Lost produziu com esse “personagem”. A começar por Terry O’Quinn, que representava Locke Real, Locke Fumaça fingindo ser Locke Real e Locke Fumaça sendo Fumaça Abertamente.  E essa tacada de mestre do Monstro se passando pelo careca é igualmente proporcional à tacada de mestre dos criadores ao encontrarem essa forma poderosa e ao mesmo tempo triste, de revelar esse segredo.

“Eu não entendo”, foram as últimas palavras de Locke Real e tem tanta crueldade nessa sentença que isso me comove até hoje. Sim, porque John achava que era especial, que tudo que fazia era pela ilha e que ela iria protegê-lo. Mas não… Ele era só um homem ingênuo, louco pra ser importante, que acabou sendo escolhido para ser o cavalo de um vilão muito mais esperto que ele. E temos que tirar o chapéu pra sexta temporada aqui de novo… Locke Fumaça era um baita de um vilão, dos melhores. Só a trama que ele ergueu para conseguir trocar de Christian para um dos sobreviventes da queda (que lhe desse acesso à Jacob), foi genial. No fim de tudo, Locke Real entendia que não havia para onde voltar, enquanto o Monstro só quer voltar pra casa. Percebem como é lindo isso? O mesmo ator vestiu a antítese de dois personagens que tinham o mesmo rosto. Um queria ficar de qualquer jeito, morreu por isso. O outro queria sair de qualquer jeito e morreu por isso também… 

De volta ao Templo, precisamos lidar com a ressuscitação de Sayid e a volta de Claire. Explicar a forma como Sayid retorna só é possível se tocamos de novo na ideia da ilha como um polo de energia ambígua e de motivações maniqueístas. Jacob influenciava seus escolhidos e o Homem de Preto, idem. Sayid, Claire e Walt sempre tiveram a escuridão em comum. Não podemos esquecer JAMAIS que essa é uma história apoiada na ideia de “um lado escuro e outro claro” e que se Jacob (o lado claro) “tocava” naqueles que trazia pra si, nada impedia que o Homem de Preto também fosse capaz de “tocar” aqueles que, assim como ele, fossem regidos pela escuridão. De certa forma, Ben, que também foi ressuscitado, sempre trouxera consigo a mesma energia sombria equivalente às pulsões do Monstro de Fumaça. Tudo em Lost é sobre recrutar, ter fé, acreditar, escolher um lado. 

https://youtu.be/TbW7fm4vdAk 

O belo teaser com a trajetória do Monstro em seu caminho de recrutamentos leva até Sawyer, desiludido com a ilha e presa perfeita para receber o “toque” do antagonista. The Substitute foi um episódio emblemático e me lembro muito bem de como meus olhos grudavam na tela enquanto Locke Fumaça explicava calmamente para James a razão pela qual ele tinha sido enviado até ali. É claro que nem tudo são flores mesmo e detalhes como a escada no desfiladeiro ou farol do episódio seguinte precisariam ter sido vistos muito antes para garantir organicidade (tal qual com o pé da estátua) e lamento que Damon e Carlton não tivessem escolhido um caminho mais seguro e menos plástico para essas revelações. 

Adoro os nomes na caverna, cada um ligado a um número, naquele metodismo clássico que aos poucos vai formando a personalidade de Jacob. Me lembro como delirei ao ver a dúvida sobre os Kwon sendo levantada e a forma como Jacob passava de observador para manipulador. Lost também sempre foi uma série que demarcou o ego de seus líderes. Lá estava o nome de Locke riscado… Enquanto o verdadeiro corpo dele era enterrado no acampamento. John, enfim, conseguindo a permanência definitiva. 

Lost Nomes

E já que falamos de ego, precisamos estabelecer que Lighthouse é um episódio que se refere ao ego em seus dois caminhos possíveis: o real e o dramatúrgico. Costumo dizer que a maior estupidez da sexta temporada foi aquele farol, que era um recurso egomaníaco dos criadores para dizer mais coisas que poderiam ser ditas com menos megalomania. Dá pra entender o que eles queriam: do mesmo jeito que o Homem de Preto levou seu recruta Sawyer para VER do que Jacob era capaz, Jacob (através de Hurley) também levou seu recruta Jack para VER e entender o que tinha nas mãos a partir dali. De sua forma controversa, Jacob lutava com o próprio ego, tentando fazer com que os candidatos compreendessem sozinhos a importância daquela escolha. 

Nesse jogo de recrutamentos, Claire não deixa de ser uma reprojeção de Russeau, com a diferença de que Russeau não cedera ao chamado do Fumaça. E como em todo processo de recrutamento, tudo é uma questão de convencimento. Convencer começa no exercício de fazer duvidar… Isso me leva imediatamente para a mitologia de Lúcifer e aos anjos que levou consigo quando deixou o paraíso. Anne Rice tem um livro maravilhoso chamado Memnoch, em que o vampiro Lestat conhece aquele que chamamos de demônio e ele lhe conta sobre o pesar que é sofrer o julgo de maldito apenas porque questionou as decisões de Deus. É a mesma forma como o Homem de Preto se vê: alguém injustiçado pelo direito natural de questionar e conhecer. Jacob tem as leis, o Homem de Preto as refuta e assim se confirmou um conceito que atravessou a humanidade. 

“… nós perdoamos Deus. Aceitamos os fato de nossas vidas terem sido fantásticas, dignas da dor e do sofrimento … E nós lhe perdoamos o fato de nunca ter explicado nada disso pra nós, de nunca ter se justificado, de não ter castigado os maus ou recompensado os bons, ou seja lá o que for que todas essas almas, vivas ou mortas, esperam d’Ele. Nós lhe perdoamos. Não sabemos, mas suspeitamos que Ele conhece um grande segredo a respeito de como toda essa dor poderia passar e ainda assim continuar sendo bom. E se ele não quiser contar, bem, ele é Deus… Ainda o perdoaremos, mesmo que ele jamais se importe conosco, como não se importa com os seixos das praias lá embaixo.”

Memnoch – Anne Rice 

A partir do momento em que morreu, Jacob precisou rever seus planos de fazer com que os candidatos percebessem as coisas sozinhos. Vamos saber lá em Across the Sea porque ele valoriza tanto a autopercepção, mas o fato é que se ele não está mais vivo, precisa correr com sua substituição antes que seja tarde demais. Então leva Jack até o farol e mostra aquele exagerado sistema de observação, que de novo soa como uma decisão estilística egocêntrica e ajuda a atrapalhar um pouco a credibilidade dos eventos. Sabemos que com aquilo eles querem manter conectados os conceitos de destino, dos números e do recrutamento. Mas, lamentavelmente, aquele farol não estava longe o suficiente para nunca ter sido visto.

Lost Farol

Ainda bem que em Sundown uma espécie de faxina foi feita em alguns dos exageros. Locke Fumaça e Jacob jogaram suas barganhas e chegaram ao ápice disso. Com o templo desprotegido, o Monstro pode finalmente entrar e tocar o terror. Esse foi um dos pontos altos da temporada… Toda aquela tensão sobre a chegada dele no pôr-do-sol, os sobreviventes se dividindo de novo e os dois grupos buscando cada um o seu lugar naquele imbróglio filosófico do qual era impossível alcançar esclarecimentos específicos. Quando a noite chegou e trouxe a morte junto, Jacob e Locke Fumaça já tinham cada um o seu séquito, dividido entre os que acreditavam no propósito e os que queriam rebelar-se contra ele.

Nesse ponto da história eles abordaram Ben exatamente por essa perspectiva. Foi definitivamente interessante perceber as mudanças pelas quais o personagem passou a partir do momento em que notou o quanto ele mesmo vinha sendo manipulado. A epifania de Ben está entre as coisas mais belas e coerentes que a série fez em toda a sua história. E compreender tudo isso foi ainda mais desbravador porque nos flashsideways podíamos vislumbrar um Ben que tivera a chance de escolher não ser o manipulador, o mentiroso limítrofe. Ele podia escolher Alex ao invés do poder.  Lá naquela “realidade” estavam os seus pontos de identificação: a filha que ele sempre quis mentorar, Locke dividindo com ele o desejo de ser um líder… Na ilha, Ben se via precisando admitir que foi usado e que nunca soube de nada. Seu monólogo foi simplesmente arrebatador… Seu olhar quando Jack e Hurley voltam pra praia e todos vão abracá-los, foi de uma tristeza cortante. Ben chegou num ponto incrível de sua trajetória e repito: ela se justifica panoramicamente em todo o show.

https://youtu.be/oGjdg_eSeFA

Lost Segunda Escotilha

Então chegamos até o lindíssimo episódio Ab Aeterno, quando as origens de Alpert são explicadas e voltamos a ver a série flertar com a ideia de uma ilha ligada aos conceitos de céu e inferno, bom e mau, claro e escuro. Não pode ser coincidência que o personagem de Nestor Carbonel (inspiradíssimo) tenha vindo de uma das ilhas canárias. A misteriosa Ilha de São Brandão, citada no início desse texto, foi cogitada algumas vezes como sendo a oitava ilha canária, com seus poderes misteriosos e localização itinerante.

O fato é que Richard chegou à ilha de uma forma maravilhosa. Ele perdeu a esposa, matou um homem e por conta de sua natureza crédula, tinha absoluta certeza de que seria castigado com o inferno iminente. Ao chegar até a ilha e dar de cara com o Monstro de Fumaça (que faz uma primeira investida nos restos do naufrágio do mesmo jeito que faz no dia da queda do avião), ele dá como certa a sua estadia no fogo da danação eterna. O que ele não sabe é que o Monstro só repetia seu ritual de avaliação, sendo Richard o candidato mais provável para um recrutamento.  O que ele queria era o que sempre quis: alguém para matar Jacob.

O problema todo é que esse belíssimo episódio também traz consigo a metáfora da rolha, que foi espinafrada aos quatro ventos por todo o globo. Mas, vamos pensar um pouco… Jacob não precisava dizer nada sobre “o mal que não pode escapar”, já que proteger a ilha é uma questão que se basta sozinha, afinal, ela é mesmo especial. Porém,  seu rival escuro é uma realidade e precisa ser combatido. Independente da explicação que Jacob dá, o intuito é convencer o interlocutor de que o Homem de Preto deve ser evitado. Desde  o início dos tempos, existe uma forma de controle tão eficiente quanto aquela que parte da culpa cristã? Não importa de fato, se o Homem de Preto é a noção de um mal maior ou não, Jacob só precisa que as pessoas acreditem nisso.

Seguindo nessa linha de resoluções, Desmond também retornou a pauta e como sempre, isso representou trazer de volta a base dramatúrgica da energia eletromagnética. Vamos entender os planos de Charles para o genro um pouco mais adiante Mas, Happily Ever After foi um episódio que ajudou a complicar um pouco as expectativas do que significava a realidade alternativa. Assim que Eloise apareceu nos flashsideways com aquele ar de “eu sei o que está acontecendo”, categorizou que havia algo prático para ser descoberto. A sensação cresceu quando Daniel levantou a hipótese de que o experimento de anulação de um passado tivesse dado certo, gerando outra espécie de presente. Mesmo que as pistas de que nada daquilo pudesse ser real estivessem ali, os roteiros tinham nos acostumado mal e sempre achávamos que havia lógicas escondidas na neblina.

Desmond voltou pra ilha novamente usurpado e Eloise saber de tudo na realidade alternativa também era uma forma de reconectar o público com a maneira como esses dois personagens são os únicos que compartilham estágios diferentes de consciência, que são provocados pela descarga de energia. Do mesmo jeito que levaram a consciência de Desmond para o passado, também levaram para um futuro onde, depois da morte, só restaria mesmo uma noção consciente da vida. É muito importante que todos se lembrem de tudo que foi discutido antes, sobre as consequências hipotéticas da manipulação dessa energia. Foi muito coerente que eles tivessem feito Desmond passar por novas descargas eletromagnéticas, porque isso faz uma ponte com tudo que já falamos antes. O problema todo foi a maldita frase de Daniel nesse episódio:

Eu acho que já explodi”

O diálogo entre ele e Desmond abriu uma série de hipóteses que sustentavam a ideia de que algo sim, real, tinha acontecido quando Juliet explodiu a bomba. Vejam bem, Carlton e Damon tinham plena consciência do plano geral e essa consciência eliminava expectativas… Porém, o público não tinha o mesmo privilégio e foi construindo um monte de teorias e anseios que estavam ligados a uma perspectiva concreta (ainda que mitológica) e nem de perto ligada ao espiritual, ainda que o espiritual estivesse sublinhado na série o tempo todo. Arriscaram demais dando uma outra pista falsa de que a bomba tinha realmente conquistado algum efeito prático. A pista, entretanto, só era falsa segundo a NOSSA perspectiva… Revendo a série e a temporada final, fica muito evidente que a realidade alternativa não tem como ser real.

Mas, também é partir daqui que gradativamente, os personagens dessa realidade vão começando a ter uma epifania sobre onde estão e porque vivem aquelas vidas. Isso acontece com Hurley numa liberdade poética do roteiro, que resolve lhe dar o piquenique com Libby que ele nunca teve e um episódio inteiro em que ele surge como alguém com muita sorte. O tempo todo a maior pista de que aquilo não é real está sendo esfregada na nossa cara, mas não notamos: ainda que a bomba tivesse funcionado, ela não mudaria o passado, ela mudaria apenas os eventos pós-815. E o que víamos era uma mudança pré-viagem que não tinha nenhuma base lógica. Portanto, como já disse, não poderia ser real.

Fique por perto para conferir a segunda a última parte da nossa mega análise da 6ª temporada de Lost. Ainda essa semana, aqui, no Série Maníacos.

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