A voz da consciência em Westworld é a anfitriã dos maiores medos em The Well-Tempered Clavier.
O que é consciência? Dana Scully diz em um dos episódios de The X-Files, que os mortos falam conosco através de seus túmulos e que isso é a consciência. Talvez Dolores concordasse com ela, enfim. O curioso é que quando paramos para pensar no contexto em que usamos a palavra e o significado dela, ele vem sempre acompanhado de algum pesar. A consciência é a resposta ao mal, ao errado, ao que não deve ser feito, porque o que pensamos antes de fazer algo considerado bom não é chamado de consciência, é chamado de impulso. O ser humano gosta de acreditar que o bem é como um hormônio irracional, sem premeditação, e que o mal é o elemento da dúvida. É o inconsciente.
Numa primeira análise, o que Westworld quer nos dizer é que a consciência separa o homem da máquina. Assim que tentou dar aos circuitos eletrônicos a capacidade de sentir dúvida – assim que os tornou conscientes – Arnold perdeu o controle. O oitavo episódio dessa série tão complexa estabelece primeiro um fato: a consciência é corrosiva em qualquer instância (orgânica ou virtual). Depois, se faz uma grande pergunta: o que pretendia Arnold depois de tornar conscientes as suas crias? Qual era o objetivo desse personagem? Como ele pretendia lidar com a “responsabilidade” do que provocou? Acho que responsabilidade é uma palavra importante aqui, já que tomá-la é o primeiro reflexo de direto de quem tem consciência. The Well-Tempered Clavier foi um episódio sobre isso mesmo, ser responsável.
Inferno de The Well-Tempered Clavier
Quando a abertura termina, Maeve surge na tela tentando enganar Bernard com seu número de anfitriã submissa. Finalmente ele percebe que há algo errado com ela e o confronto é inevitável. Diante de uma situação em que não há saídas possíveis sem se indispôr, Maeve resolve dar a ele a única coisa capaz de perturbá-lo a ponto de deixar seus reflexos menos dominantes: ela lhe dá a autoconsciência. Bernard precisa lidar de novo com a realidade de ser um anfitrião, dessa vez com tempo suficiente para pensar numa forma de fazer exatamente o que ela manda: ir atrás da história completa.
A partir daí, The Well-Tempered Clavier começa a fazer uma interessante escolha de palavras. Maeve passa a chamar as instalações técnicas do parque de Inferno, aquele lugar para onde você vai quando “morre” e que não é reconfortante como seria o paraíso. Mesmo uma analogia bem por cima revela que há uma duplicação direta da premissa do Jardim do Éden. Os princípios ativos da gênese humana, segundo a mitologia, são muito simples: Deus criou o mundo (um parque), povoou-o com pessoas (os anfitriões) e deu a elas uma vida (uma narrativa). O problema é que, no início de tudo, essas criações eram “mecânicas”, simples apreciadores da vida nos domínios do Éden. Deus então, inquieto como ele só, ofereceu ao homem uma oportunidade de plenitude, achando que ele simplesmente fosse tomar a decisão certa. O homem (o anfitrião) preferiu morder a maçã (acessar o potencial de seus códigos) e tornou-se, enfim, consciente. A divindade (o dono do parque) sentiu-se responsável pelo que provocara (a emoção elusiva que dói e mata) e então só conseguiu pensar numa coisa: oferecer possibilidades de redenção.
Não estou aqui sendo petulante ao ponto de achar que conheço os motivos de Arnold. Mas, quando Maeve surge maravilhosa – e essa personagem é cada vez mais maravilhosa – diante de Hector para também lhe oferecer o dom da verdade, ela lhe diz que eles precisam voltar ao inferno e é essa missão – muito mais que a morte – a grande dificuldade daqueles que escolhem um caminho redentor. É bastante claro para mim que uma vez tendo visto que deu àquelas máquinas a capacidade de sentir, Arnold sentiu-se responsável por elas e começou a achar que assim como o próprio Deus, sua obrigação era derrubar as fronteiras do “Éden” e deixar que eles tomassem as próprias decisões. Será mesmo que todos podem ser frios como Logan ao que machuca aquilo que não deveria sentir dor? A dor é só uma questão de vísceras?
Demônio
A interessante escolha de palavras desse episódio continua quando Teddy volta a lembrar de sua história com Wyatt. A montagem de Westworld já é bastante fragmentada, mas essa semana ela estava especialmente difícil. Teddy manteve a linha mitológica das colocações sobre o que existe por trás – ou acima – deles e chamou de demônio aquilo “que o controlava”. Já sabemos direitinho que o que controla os anfitriões nessa esfera tão absoluta é Ford ou Arnold ou qualquer um que tenha alcançado as mesmas capacidades, como Maeve. De qualquer jeito, esse controle é como uma interferência incontrolável daquilo que está soberano, algo que somente Deus (nessa interpretação mítica) poderia executar. Então, The Well-Tempered Clavier nos leva para a memória de Teddy em que Wyatt é o “demônio” que o controlava (quando sabemos que o controle só vem de cima ou foi dado a um anfitrião). A trama nos mostra que Maeve é um anfitrião capaz de ordenar outros a ferir – ou ferir ela mesma – outros anfitriões. A questão é que Maeve pode estar fazendo agora o que outro conseguiu fazer antes dela.

Ainda insisto na minha teoria de que quem estava controlando Teddy naquela memória era Dolores (ou Wyatt) e quando ela diz a Arnold que ele não poderia ajudá-la porque ela o matou, entendo que a declaração está diretamente ligada ao momento temporal em que ela passa pelos corredores técnicos e todos estão mortos. O intrigante é que acreditamos que a linha temporal em que Dolores está de calças é a do passado (onde ela acompanha William) e que quando ela está de vestido está num passado ainda mais remoto. Sendo assim, dá para arrumar a ideia de que ela visitava Arnold com seu vestido azul (que passa pelas instalações enquanto tudo ainda está bem). A insana montagem reparte o momento em que ela está de calças em dois: ela vê todos mortos em um momento e vê tudo deserto em outro. É exatamente no recorte onde tudo está deserto que ela encontra o Homem de Preto. Ela está usando a mesmas roupas da linha temporal de William, mas se essas roupas representam também dois momentos (lembrem-se dela morta no rio), como ter certeza de que o encontro com MIB matou a teoria de que ele seja Billy?
Deus
Não é uma coincidência que exatamente nesses momentos em que Dolores está aparecendo em três recortes diferentes, a teoria de que Bernard é uma cópia de Arnold esteja sendo confirmada. Westworld pode não ter surpreendido, mas isso aqui é uma qualidade inestimável. Se chegamos até essa desconfiança foi porque a dramaturgia nos levou a isso e essa condução reforça o compromisso da série com a coerência. Foi muito interessante ver como as sequências entre Bernard e o filho eram na verdade parte de um sinistro estudo de emoções promovido pelo próprio Arnold. A reprodução cruel de um quadro sentimental devastador (que ainda nos revelou que a mulher que Bernard via naquela chamada de vídeo era o próprio Ford).

As analogias que a série propõe são arriscadas e deliciosas; e nesse momento, colocam Arnold numa posição de divindade compassiva, que se sente responsável pelos seres que criou, enquanto Ford surge como o Lúcifer que não quer oferecer livre-arbítrio algum. Ele só quer o domínio, o jogo, a obediência. Assumir aquela voz da terceira pessoa, para ele, é um deleite. De forma alguma ele se compadece dos anseios de um anfitrião… Ele quer contar histórias de dor e pesar, de morte, de hedonismo (a escolha do velho oeste – um período anárquico da história – não é aleatória) e suas motivações não incluem a consciência. Se William e MIB forem a mesma pessoa, se Dolores realmente matou Arnold, a construção de um arco em que ela seja Wyatt casa perfeitamente com os propósitos de Ford. MIB ajudou a salvar o parque em algum momento, mas Ford não é o tipo de homem que gosta de dever favores.
Terminamos The Well-Tempered Clavier com Bernard “se matando” e isso provavelmente representará que ele volta para o escuro. A chegada de Maeve e Hector deve se unir a revelação do segredo das linhas temporais, naquele que provavelmente será um Season Finale de nos enlouquecer o juízo. O melhor de tudo é a sensação de que ainda que possamos levantar teorias, não somos capazes de compreender o plano maior. Do mesmo jeito que nunca seremos capazes de compreender as motivações e recortes narrativos de Deus. Westworld é como um testamento teológico sendo escrito diante dos nossos olhos. Isso é para pouco senhores, para muito poucos.
> Entrevista com o elenco de 3%!
Westwords: “Se o mundo lá fora é tão maravilhoso, porque vocês ficam querendo vir para cá?”.
Westwords 2: Logan até estendeu a foto da irmã, mas já aprendemos que na série não conseguir ver uma foto claramente é sinal de mais segredos. E aliás, a foto é a mesma que Dolores encontra quando ainda está com o pai, não é? Só que naquela versão ela não consegue enxergar William.
Westwords 3: William continua sua escalada para tornar-se o homem frio que pode vir a ser MIB.
Westwords 4: A equipe de Ford continua diminuindo a olhos vistos. Podiam promover Clementine.
Westwords 5: Minha amiga Carol Alcântara acha que a mulher em cima do cavalo na abertura da série é uma representação de Dolores na versão Wyatt. Eu estou muito inclinado a concordar com ela.















