Quando a abertura termina e a primeira sequência de Trace Decay em Westworld começa, Ford traz Bernard de volta e assim que fica “online”, o recém-revelado anfitrião explode em uma profusão de reações emocionais que são tão humanas quanto as nossas. Chegamos na oitava semana e finalmente parece que a série de Nolan e Joy estreitou o seu ponto de vista maior, a sua analogia principal, o seu “lirismo irônico”. Trace Decay começa com a explosão de emoções de uma máquina e termina com a descrição da completa assepsia afetiva de um homem. Em torno disso está um mundo onde os limítrofes que separam a consciência da autoconsciência soam cada vez mais frágeis.
Se a dramaturgia de Wesworld parecia bagunçada até metade de sua temporada, agora podemos dizer com segurança que ela sabe exatamente para onde está indo. Trace Decay foi um episódio com uma narrativa tão bem conduzida que foi capaz de clarear os intuitos ideológicos da série de modo quase completo. Ainda não sabemos se são duas linhas temporais distintas, se um personagem é o outro mais velho ou mesmo se aquele mundo é o nosso mundo ou algum mundo muito mais distante. Essas são questões válidas e que validam o planejamento do show. Porém, mais interessante é ver como as fronteiras filosóficas da história se definem. Diferente do que acontece em segmentos parecidos (como Inteligência Artificial, Eu Robô e tantos outros), aqui não é uma questão de ter máquinas desenvolvendo comportamento humano… O mais assustador em Westworld é ver o homem se afastando do que o diferencia delas.
Karma

De todas as narrativas da série, a de Maeve é a mais acessível. Assim como com muitos de vocês, me incomoda que ela faça tantas coisas dentro das instalações técnicas do parque e não seja percebida. Mas, ao passo em que o roteiro não se preocupa com essa explicação, ele também nos aproxima do show de modo mais direto, o que para a complicada dramaturgia que eles apresentam na maioria do tempo, é extremamente valioso. Há uma simplicidade calculada na forma como essas sequências são escritas, quase como se servissem para nos puxar de volta, antes que o emaranhado de mitologia vista nas sequências do parque nos engula de incompreensão.
E ver Maeve consciente de tudo que está lhe acontecendo é muito interessante e divertido. Vê-la falar do parque, da consciência de que há duas “mentes” trabalhando dentro de si (o que está acontecendo também com vários outros anfitriões) e de que sair não vai ser tão fácil é muito sedutor. O que ficou claro é que ela pretende promover uma anarquia dentro das storylines estabelecidas e que para isso ela precisaria ter o controle. Esse controle lhe foi dado por Felix sem as habituais maiores explicações do porquê dessa subserviência. Mas, era um movimento que a história precisava fazer e vamos aguardar para que ela tape esse buraco mais tarde. É como eu disse, há uma condução simplificada dentro desse plot e ela é necessária justamente porque equilibra o nosso interesse.
Quando Maeve volta para o parque com a aparente capacidade de refazer os caminhos dos anfitriões, a série chega num ponto importante de sua gênese: As máquinas e os seus defensores lutam por um senso de “liberdade” que é questionável em muitos aspectos. Há uma conversa entre Ford e Bernard que é essencial para compreender isso. Segundo o “dono” do parque, os homens gostam de achar que há algo especial a respeito de si mesmos, mas acabam sempre presos aos mesmos ciclos, exatamente como fazem os anfitriões. Então, não seria seguro dizer que nascemos todos capazes de empenhar um único papel? Analisando cuidadosamente a dinâmica, a rotina de Westworld, notamos que ela é um reflexo direto da nossa rotina, da forma como somos atraídos pelo fardo, pelo karma, condenados a repetir padrões que vão desde escolhas profissionais até escolhas amorosas. Sendo assim, o que nos diferencia dos anfitriões? Aí que está, senhores. Podemos viver no redemoinho das repetições, mas a capacidade de desviar desse fardo, desse karma, também é nossa e é ela que os anfitriões querem ter. Isso é o “O Labirinto”.
The Memory Remains in Trace Decay
Fiquei maravilhado vendo Maeve agir dentro do parque como uma narradora ativa, falando em terceira pessoa mesmo, como se fosse um Deus presente. Ali naquele momento, ela era o agente perturbador que desvia todo mundo de seus caminhos. Mas, ainda não é possível dizer que ela o faz para dar os outros o mesmo que ela tem (a capacidade de decidir interromper as repetições). A complexidade de camadas é tão sensacional, que Maeve vira uma “sócia” do parque de modo indireto e passa a usar os outros anfitriões para seus propósitos. Ela não lhes dá a autoconsciência, ela só os desvia de um fardo pro outro.
E quando paramos para pensar no que Trace Decay fez por ela, dá para trazê-la facilmente para o posto de dona dessa história. É óbvio que a série pretende alguma coisa com a “mocinha” Dolores sendo parte importante dos avanços. Esse papel de donzela que precisa ser sempre salva é um clássico dos westerns e não há a menor sombra de dúvida de que Nolan e Joy vão refutar isso (talvez o tenham feito insinuando que ela possa ser Wyatt). Assim como estão fazendo com Teddy, que quando começa a ter lembranças, ganha mais força. Notem como a série faz uma correlação direta entre memória e impulso. Os anfitriões só começam a se desviar quando começam a lembrar, porque é a memória que resguarda em si importantes padrões motivacionais humanos. Lembrar de uma emoção pode nos fazer querer revivê-la ou evitá-la e para isso somos empurrados para tomar atitudes que levem a um caminho ou ao outro.
Dolores teve algumas lembranças que reforçam a ideia de uma timeline distinta de outra. Ela se viu num tempo aparentemente remoto (onde Maeve estava presente) e no instante em que se viu morta no rio, William já não estava ao seu lado. Esses pequenos avanços ou retrocessos (ainda não sabemos), se correlacionam com as lembranças dos anfitriões de um modo geral. Vimos agora que o que Maeve lembrava realmente aconteceu e que a mente e o corpo dela se transportavam e sentiam os impactos. Partindo dessa premissa, podemos dizer que as lembranças de Dolores também são recortes de uma realidade ocasional e que nos revelará, mais tarde, o grande segredo que está por trás da mitologia. É por isso que acho possível que ela seja Wyatt, o verdadeiro grande rival de MIB. O que seria sensacional se ele fosse mesmo William. Ford teria dado a ele a sua grande amada como verdadeira inimiga.
Maze

Já perto do fim, vimos o Homem de Preto contar a Teddy um pouco de sua história. Aqui precisamos voltar ao diálogo entre Ford e Bernard, quando o anfitrião pergunta a Ford que se a dor emocional é um processo aerado, que não tem raízes físicas (ou seja, não depende de circuitos de nenhuma espécie, orgânicos ou eletrônicos), o que difere a dor do homem da dor do anfitrião? Ford responde que essa pergunta atormentou Arnold sua vida inteira e isso conclui uma coisa importante a respeito dele: Arnold não enxergava a diferença, enxergava a semelhança. Essa emoção elusiva que não depende de circuitos e que é como uma entidade invencível (não coincidentemente, ela reside essencialmente no campo da memória).
Então, MIB conta a Teddy que no mundo aqui fora ele era um filantropo, fazia coisas boas por todos o tempo todo, mas escondia uma escuridão que foi capaz de esgotar sua relação com mulher e filha. Ele seguia as regras, as diretrizes do “nosso parque”: ser bom, fazer caridade, pensar no próximo. Mas, isso não era quem ele era por dentro. Então, ele decidiu voltar ao parque Westworld (notem como ele escolhe a palavra “voltar”) para tentar descobrir ali quem ele era de verdade. Preferiu não aderir a uma narrativa estabelecida e quis cometer um ato hediondo apenas para saber como se sentia a respeito dele. E foi aí que a coisa toda me pegou de jeito.
MIB escolheu Maeve, que na época estava presa numa storyline tranquila que contava apenas consigo mesma e sua filha. Ele resolveu matar as duas, a sangue frio, só para ver se o que a família pensava sobre ele era verdade: se ele era mesmo aquele homem sem emoção. Ali no parque de Westworld, um mundo sem lei e sem pecado, viver como um homem frio poderia ser estranhamente confortável… Viver como um anfitrião. Como ele previa, não sentiu nada ao matá-las. Mas, eis que aquela criatura desprezível criada apenas para ser abatida, se recusou a morrer e quis salvar a própria cria, o próprio laço. Lutou contra a morte e impulsionada pelo que ele – em qualquer instância – se recusaria a chamar de amor, tentou escapar. Naquele momento o Homem de Preto viu a máquina ter o que ele não tinha: a emoção elusiva. E isso ele chama de “O Labirinto”. O labirinto que ele quer tanto encontrar com o intuito mais simples e arrasador de todos: sentir.
Trace Decay foi um grande episódio… Estou realmente impressionado com o que vi e acho que Westworld tem nas mãos um incrível material de desenvolvimento. Se até o Season Finale as coisas continuarem se organizando da forma como vem acontecendo desde o episódio sete, teremos um exemplo de série que consegue o feito inédito de ser filosófica, intensa, cheia de ação e mistério, em medidas bem calculadas para atrair todo tipo de público. Eles estão com tudo nas mãos para isso… E mal posso esperar para saber se a entrada desse “labirinto” vai nos confrontar de verdade.
> O futuro da Marvel depois de Doutor Estranho!
Westwords: Tive a impressão de que Bernard teve uma lembrança de estar enforcando Elsie. Confere?
Westwords 2: O Homem de Preto ficou surpreso de rever Angela e precisamos lembrar que ela foi quem apresentou o parque a William. Ou seja, mais uma pista de que podemos ter mesmo duas timelines diferentes.
Westwords 3: Estou tão irritado quanto Maeve pela substituição de Clementine.
Westwords 4: O que diabos Charlotte e Lee estão tramando?
Westworld 5: Que lindos Jeffrey Wright e Thandie Newton em Trace Decay. As formas como eles iam da emoção para a apatia em segundos era sensacional.
Westwords 6: Tenho uma pequena desconfiança de que Bernard não só seja um anfitrião como também o próprio Arnold. Ou melhor, uma cópia de Arnold. Não me surpreenderia se os momentos em que vimos Dolores falando com ele nos primeiros episódios sobre questões emocionais (em instalações nada modernas), sejam flashes do passado. No presente, Bernard seria uma cópia do “sócio”de Ford, que chegou a dizer essa semana que Bernard foi criado para alcançar o que técnicos humanos não conseguiram e que a maior parte das emoções dos anfitriões foram criadas por ele. Além disso, a personalidade de Ford é sombria o suficiente para que ele tenha matado o parceiro e depois feito uma cópia que ele mesmo pudesse controlar. Sei que já vimos uma foto dos dois e fui caçar na internet quem tivesse uma explicação para isso. Não achei, então, quem tiver, manda bala. Eu adoraria que essa teoria fosse válida.
Agora sou eu quem está com vocês. Peço licença e vamos nos divertir.















