Em The Stray, vimos que todo País das Maravilhas possui a sua Alice.
No 2º capítulo do clássico “Alice no País das Maravilhas” a jovem encontra-se numa situação inusitada: com mais de dois metros de altura do que o normal, Alice começa a chorar por não conseguir mais passar pela portinha que iria levar ao lugar mágico que o Coelho Branco prometeu. Essa tristeza a leva para o seguinte raciocínio: “Deixe-me ver: eu era a mesma quando acordei de manhã? Tenho a impressão de ter me sentido um pouco diferente. Mas se eu não sou a mesma, a próxima questão é ‘Quem sou eu?‘”
É exatamente esse trecho que Dolores lê em voz alta para Bernard, acentuando a sua crise existencial por um nível mental jamais explorado nos outros Androids (pelo menos é o que Westworld nos revelou até agora). É notável a centralização de Dolores nessa perspectiva dentro da série. Por mais que o show siga pelo caminho “vamos lotar de storylines a cada semana que não se conectam diretamente mas julgamos interessante”, Dolores surge como um baluarte filosófico no roteiro. Ela é literalmente essa Alice questionando a realidade do País das Maravilhas e compactuando com o instinto de sobrevivência que envolve sua condição. A desenterro das memórias é atualmente sua maldição, mas no futuro pode ser (quem sabe) a chave pra sua liberdade.
“The Stray” – diferente da longa introdução que tivemos até aqui – expandiu os bastidores de Westworld. O plot mais interessante nesse mosaico foi o que envolveu a programadora Elsie investigando um Anfitrião errante pelo parque junto com seu parceiro Ashley. A ameaça que dá nome ao episódio não é o primeiro caso isolado de um robô que “perdeu”o rumo de sua identidade, Elsie e Ashley deixam isso bem claro ao caminhar com naturalidade por cenários que gritam violência mas na realidade são apenas cenários. A frieza deles é o que o show gosta de frisar e é isso que torna a produção magnífica e criativa. Esse descontrole das máquinas vem ganhando novas cores cada vez que um fato estranho como esse acontece e caminha para um paisagem caótica viciante de acompanhar.
Os androids não são tão ingênuos como eu havia imaginado, nem mesmo os humanos estão completamente ilesos contra qualquer tipo de dano e isso ficou muito claro com Elsie desesperada (no estilo mais sarcástico possível) e Ashley (o cético) incapaz de salvá-la, até que o próprio errante comete suicídio. O que deixou bem visível que algo de muito errado está acontecendo no parque.

O episódio continuou jogando pistas nos pequenos detalhes. A constelação de Orion cravada na pedra, por exemplo, pode ser uma sugestão dessa revolução que os androids estão alimentando. O errante pode muito bem não ter caído naquele buraco por acidente, mas sim para se auto-destruir, fugir daquele mundo violento que a cada dia consegue ser mais violento ainda. As memórias em Westworld são a principal razão para a corrupção dos personagens que regem cada centímetro daquele lugar e são elas o principal vilão desse enredo lentamente desvendado.
É nessa premissa de memórias & auto-conhecimento que o show se desenrola desde o primeiro episódio. O que deixa a discussão entre Bernard e Ford mais firme e intensa. Enquanto Bernard acredita na realidade do parque como forma de confrontar o seu passado (leia-se a perda recente do seu filho), Ford desacredita sobre qualquer tipo de realidade que os androids possam absorver, rejeitando a ideia de tratá-los como entidades racionais. Os dois representam as duas linhas de pensamento que a série está desenvolvendo até agora. Quem será que irá ganhar no final?
E por fim voltamos para Dolores. O pecado de Bernard é simplesmente observá-la como um teste ao invés de uma chance de confrontar o raciocínio de Ford. Enquanto Bernard a usa para testar os limites racionais dos androids, Dolores aproveita cada segundo com ele para compreender cada vez mais a sua essência. A cena em que ela tenta dar um tiro e não consegue puxar o gatilho foi dentro dessa quebra de ritmo filosófico, ou seja, o limite lógico que seu mestre tanto procurava estava ali, na mira e pronto para ser ultrapassado mas na primeira oportunidade ela manteve-se dentro da sua condição, da sua identidade pré-estabelecida.
Até que no final do episódio…
Dolores – por força desse repertório que Alice tanto questionou sobre existência & aceitação – apertou o gatilho contra todas as memórias violentas que obteve até ali. Fugitiva da sua obrigação e aluna da sua existência. Fato esse que abre portas para um novo passo na série: o primeiro passo para a liberdade.
– De quem será que é a voz que Dolores ouve com frequência toda vez que está sobre pressão?
– Muito interessante a história que Ford revelou sobre o início do parque e o desentendimento com o sócio já falecido. Certeza que tem mais coisa por aí…
– O Daniel Barcelos não pôde cobrir Westworld essa semana e fui convidado a escrever a review pra vocês. O que acharam do episódio?















