Somos infinitos.

Pode soar despretensioso afirmar que a nossa limitação humana nada mais é do que uma simples mentira. Mas o “infinito” no caso a que me refiro diz respeito a possibilidade filosófica de compreendermos o universo na visão de ser um ambiente sem limite lógico. A ciência busca o tempo todo encaixar explicação para cada detalhe que nossos olhos podem captar, e muitas vezes procura razões em objetos nanoscópicos.  A religião segue no mesmo raciocínio, mas ao invés de explicar o que nossos olhos podem ou não podem enxergar, ela busca na emoção o sentido da vida e o que pode estar no outro lado do túnel. Basta observar o fascínio que os egípcios tinham pelo pós morte e o retorno triunfante ao mesmo corpo de antes.

The OA é despretensiosa por lidar exatamente com essa luta que temos. Eu diria até que um nome alternativo para a série seria “Um Ensaio sobre a Liberdade”, fazendo uma brincadeira com o famoso livro de José Saramago. A série desde o seu primeiro minuto vem destrinchando caminhos com uma leveza viciante que me fez (e está fazendo) encarar cada segundo como um beija-flor ávido por cada gota, batendo as asas e sentindo exatamente o que o frescor que esse líquido inexplicável pode executar. É uma série que basicamente fala e discute sobre liberdade. A liberdade de ser você mesmo; a liberdade de mudar e ser quantas pessoas você quiser; a liberdade de caminhar entre conhecimentos nunca visitados; a liberdade física, mental, psicológica, espiritual… Mas com todas elas é preciso perceber que para existir liberdade é preciso existir uma prisão.

O sexto episódio foi o melhor exemplo disso. As bifurcações do título nada mais são do que os sinuosos caminhos que a narrativa está proporcionando (apoiados pela perfeita contadora de história que Praire é) com aquele medo de não compreender exatamente para onde tudo irá levar. São tantos medos que falar um pouco deles chega a ser assustador… Claro que a bifurcação também diz respeito a teoria dos muitos mundos, mas é saudável observar um pouco além no que diz respeito ao que a série vem apresentando. E ela consegue fazer muito mais através de outras nuances e alcançar níveis de percepções bem mais teóricos e científicos que demais produções apenas tocam na superfície.

Em “Forking Paths” os confinados seguem sua jornada para descobrir o quinto movimento e abrir o portal cósmico para fugir daquele lugar e alcançar outros mundos. Percebemos também que Hap não é o único (e também não deverá ser o último) a estudar a possibilidade de vida a após a morte tomando como cobaias pessoas que passaram pela EQM. A ironia dessa revelação e do tema do episódio (sobre as bifurcações e a teoria dos muitos mundos) é de que se você parar para pensar na infinita possibilidades de universos que este raciocínio garante, então provavelmente dentro de todas as possíveis ações que você teve no decorrer da vida, outros “vocês” surgiram e outros universos também. Vou explicar isso mais para o final.

Foi interessantíssimo ver que Homer, Praire e os outros acabaram unindo forças para descobrir o quinto movimento. Mais interessante ainda foi acompanhar a narrativa os desenhando como Anjos. Sem falar na revelação de que o objetivo da protagonista – ao contar a história para os 5 aprendizes – é nada mais do que ensinar os movimentos e com isso abrir o portal cósmico (que pode ou não existir) e quem sabe salvar o restante do grupo.

Prairie Johnson em Forking Paths
A Teoria dos Muitos Mundos

Hap naquele momento em que conversava com seu colega personificava dentro da história esse sarcasmo filosófico. Existe outra pessoa realizando a mesma coisa que você em algum outro lugar desse planeta, e pode até mesmo estar a frente do conhecimento que você adquire. Mas também existe outras infinitas possibilidades de existir outro você em algum outro lugar realizando coisas completamente diferentes. Maluco não? Claro que na série essa ironia ficou discreta, mas confesso que foi uma sacada genial em revelar que até mesmo Hap está sujeito a cair na sedução de ser o único credor do seu trabalho. Dói demais imaginar que você não é único né? Dói mais ainda imaginar que você pode ser uma fração infinita de possibilidades e que o universo que você vive é apenas um dentro de bilhões de outros universos com outras bilhões de cópias do que você acreditar ser real e singular.

The OA começou muito discreta nos seus mistérios, revelou-se impecável e caminha para ser uma bela surpresa do ano. Foram apenas seis episódios mas já deu para captar que dentro das infinitas possibilidades na história do Anjo Original que a única saída possível pode ser um desastre dramático com um sabor agridoce e próspero. É uma série que nasceu delimitada e move-se para ser uma obra de infinitas interpretações.

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PS: A música que Hap coloca para tocar enquanto os jovens estão aprendendo os movimentos  se chama “Groping the Angel’s Face”, que significa “Tateando a Face do Anjo”.

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