The OA 1×02: New Colossus

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Para um contador de histórias, só basta a conquista do público, pois o resto fica por sua conta: é sua profissão, é o que sabe fazer. Confia nas habilidades próprias. O mesmo acontece com diversos escritores, principalmente os iniciantes: a dificuldade maior é encontrar olhos para suas palavras, uma vez que estas (ele comprova) são merecedoras de atenção. Nas séries, o mesmo, se esticarmos a observação. Conquistado, é difícil que o público se vá — não totalmente. Sempre ficamos para ver outro momento mágico acontecer, confiando no talento dos roteiristas, nossos contadores de histórias, de, mais uma vez, encantar-nos.

Em cena: a atriz Brit Marling como Prairie Johnson, nossa contadora de histórias. New Colossus
Em cena: a atriz Brit Marling como Prairie Johnson, nossa contadora de histórias. New Colossus

Nesse clima de círculo para ouvir fábulas, New Colossus continua diretamente o episódio anterior, dando a seu público a oportunidade de se juntar às pessoas que escutam a história e a Prairie Johnson, responsável por contá-la. Finja que acredita em mim até que acredite, ela disse anteriormente. É o que fazemos, até porque há a desconfiança plantada em nós sobre sua sanidade, quando nos foi mencionado seus remédios, seus surtos e suas visitas a médicos. Essa dúvida está lá, e o roteiro se aproveita disso, pois deixa a trama no comando de sua protagonista, como um livro narrado em primeira pessoa, pouco confiável para se ter sua palavra como prova.

“Se eles retornam, isso significa que eles foram a algum lugar. Aonde eles foram?”

Hunter Hap, The OA.

Durante os primeiros vinte e cinco minutos, assim como nos últimos minutos do episódio anterior, acompanhamos o grupo de seis virando a madrugada. A primeira noite que passam juntos é envolta em mistério e dúvida. Prairie como contadora sabe manipular sua plateria depois de conquistá-la, e é isso que faz. Seus olhos meigos comandam, diz o soneto. Assim como usa palavras doces para convencer estranhos a fechar os olhos, ela sabe descrever a si mesma de maneira frágil — ou com ares proféticos quando quer atestar o que fala.

(Fiquei me perguntando por que não juntaram o final do episódio anterior com o começo desse para criar um único episódio que investigasse o passado da personagem, mas isto é um detalhe e não atrapalha a experiência de assistir-lhe).

Em cena: a atriz Zoey Todorovsky faz uma participação como Nina Azarova quando criança. New Colossus
Em cena: a atriz Zoey Todorovsky faz uma participação como Nina Azarova quando criança. New Colossus

The OA explora com sabedoria sua trama principal nesse seguimento, além de incrementar com outros conflitos. Nada soa fora do lugar ou sobra, e a sensação é de que a dupla responsável pelo roteiro tem plena consciência do que faz, pois o texto flui entre as cenas, combinando uma edição inteligente e uma fotografia inspirada com diálogos que nunca parecem afetados ou exagerados. Este segundo episódio é bem superior ao primeiro, o que ocorre com mais raridade do que podemos imaginar: na maioria das séries, o piloto é o melhor episódio.

Como deixou transparecer que Steve fosse muito importante, eu pensei que a série limitar-se-ia a abordar a amizade dele com a protagonista, mas não é o caso e aqui nossos olhos se voltam para outras pessoas. É mais um ponto positivo, afinal, ganhamos outras personagens interessantes: Alfonso (Brandon Perea) é o jovem inteligente do grupo e que tem medo de se meter em confusão — receio justificável, pois sabemos que se reunir em uma casa abandonada, depois da meia noite, onde se trafica drogas não é o mais inteligente a se fazer. Se a personagem dele parece muito datada, temos Buck (Ian Alexander), personagem introspectiva e que pode virar destaque nos episódios seguintes.

Em cena: os atores Brandon Perea como Alfonso e Ian Alexander como Buck, destaques desse segundo episódio. New Colossus
Em cena: os atores Brandon Perea como Alfonso e Ian Alexander como Buck, destaques desse segundo episódio. New Colossus

New Colossus, que é o nome do soneto que o guarda lê para ela no começo do episódio, parece ser dividido em três partes. Na primeira, acompanhamos a infância e resgate de Nina Azarov e como ela foi adotada e mudou de nome. A atriz Zoey Todorovsky, que interpreta a protagonista quando criança, faz uma boa participação e é preciso dar-lhe os elogios cabíveis. É nessa primeira parte que muito do que vemos pode não ser a verdade, mas a verdade que Prairie conhece. Nesse momento, a série compõem sua história de modo delicado, aproveitando-se da sensibilidade das circunstâncias e nos entregando momentos bonitos. O relacionamento entre Prairie e seus pais, que nos parecia tão seco e cru antes, ganha novas cores com essa abordagem.

Em seguida, Afonso e sua vida complicada dividida com os irmãos e a mãe doente invadem a tela e temos dez minutos dedicados a uma apresentação bem feita sobre ele. Novamente as redes sociais aparecem, algo pequeno, mas que valoriza o pensar contemporâneo da produção — se bem que eu não imagino por que você mandaria algo importante por Snapchat, e quem utiliza o aplicativo deve concordar com isso.

Em cena: os atores Brit Marling como Prairie Johnson e Jason Isaacs como Hunter Hap, na terceira parte do episódio. New Colossus
Em cena: os atores Brit Marling como Prairie Johnson e Jason Isaacs como Hunter Hap, na terceira parte do episódio. New Colossus

Cada bloco desse episódio parece estar em um gênero, e, no terço seguinte, a série se torna um thriller bem conduzido. Conhecemos personagens que estavam no material promocional, mas que ainda não tinham sido devidamente introduzidas. Finalmente ouvimos Homer e começamos a entender a importância que ele tem a OA. Outro ponto que se liga é por que ela viu um vídeo antigo sobre o acidente dele na internet assim que conseguiu se conectar. A música ganha muita importância e gosto quando isso ocorre. Hap (Jason Isaacs) é bizarro, mas suas motivações são interessantes, por mais que lembrem o argumento de outras produções, como o filme de horror franco-canadense Martyrs de 2008. As cenas se encaminham para um final assustador, mesmo que saibamos que a personagem escapou de lá. Ainda resta saber tudo o que aconteceu. Noto que a água, além do sonho e da música/silêncio, tem muita importância na série. Vejamos aonde isso nos leva.

Talvez por ser detalhista, algumas coisas não soam bem, como o fato de uma jovem deficiente visual desaparecida começar a tocar no metrô sem que ninguém a reconheça. São pequenos detalhes, entretanto. The OA flerta com a possibilidade de estarmos em boas mãos, ouvindo uma boa narrativa de bons contadores de histórias. A recomendação da série é reafirmada aqui e o perigo de criarmos expectativas está, aos poucos, sendo fermentado. Espero que nós, aqueles que sentaram para ouvir, não nos decepcionemos.

> Entendendo Westworld com Carol Moreira!

ps: A cena sobre as batidas de coração é linda.

ps: A cobertura de The OA aqui no Seriemaníacos será feita em grupo, e o plano é um texto por dia. Fiquei responsável pelos dois primeiros episódios, mas nos vemos nos comentários dos seguintes. Espero sua companhia.

  • Fabiano

    Já terminei de ver a série e achei sensacional e suas reviews são tão interessantes quanto. Só o que me incomoda são essas mesóclises, parece que você vai dar um golpe no SérieManiacos e congelar os posts por 20 anos.

  • Fabiano

    Já finalizei. Assistam. Apenas assistam.
    Foda!

  • Diogo lopes

    Já assisti e to louco pra ver as próximas reviwes, pra mim foi uma das 5 melhores estréias do ano. A pergunta que não quer alar é : haverá uma segunda temporada?

  • Matheus Brito

    A série já tinha me fisgado no 1º episódio, esse aqui apenas confirmou que valia a pena seguir até o fim. E como valeu! Série linda, sublime, espetacular… faltam adjetivos <3

  • Arya Ibelin

    Louca para a ultima reviews para ver as teorias..

  • Denia Karru

    A música no metrô aconteceu no segundo ou terceiro dia em que ela saiu de casa, e nesse momento ela está em Nova Iorque e seus pais moram em outro estado, mesmo que já tivessem emitido um alerta geral, muitas pessoas poderiam não ter visto ainda.
    Amei demais essa série, espero que seja renovada.

    • Bárbara Oliveira

      eu também *—*

  • Felipe Farias

    Gostar eu gostei. Mas tem mto adolescente na série ?

  • Fábio Santos

    Não achei a review do primeiro episódio. Não tem?

  • Jhiullio Boltagon

    Quem lê a review pensa que os personagens secundários foram bem desenvolvidos…