Para um contador de histórias, só basta a conquista do público, pois o resto fica por sua conta: é sua profissão, é o que sabe fazer. Confia nas habilidades próprias. O mesmo acontece com diversos escritores, principalmente os iniciantes: a dificuldade maior é encontrar olhos para suas palavras, uma vez que estas (ele comprova) são merecedoras de atenção. Nas séries, o mesmo, se esticarmos a observação. Conquistado, é difícil que o público se vá — não totalmente. Sempre ficamos para ver outro momento mágico acontecer, confiando no talento dos roteiristas, nossos contadores de histórias, de, mais uma vez, encantar-nos.

Nesse clima de círculo para ouvir fábulas, New Colossus continua diretamente o episódio anterior, dando a seu público a oportunidade de se juntar às pessoas que escutam a história e a Prairie Johnson, responsável por contá-la. Finja que acredita em mim até que acredite, ela disse anteriormente. É o que fazemos, até porque há a desconfiança plantada em nós sobre sua sanidade, quando nos foi mencionado seus remédios, seus surtos e suas visitas a médicos. Essa dúvida está lá, e o roteiro se aproveita disso, pois deixa a trama no comando de sua protagonista, como um livro narrado em primeira pessoa, pouco confiável para se ter sua palavra como prova.
“Se eles retornam, isso significa que eles foram a algum lugar. Aonde eles foram?”
— Hunter Hap, The OA.
Durante os primeiros vinte e cinco minutos, assim como nos últimos minutos do episódio anterior, acompanhamos o grupo de seis virando a madrugada. A primeira noite que passam juntos é envolta em mistério e dúvida. Prairie como contadora sabe manipular sua plateria depois de conquistá-la, e é isso que faz. Seus olhos meigos comandam, diz o soneto. Assim como usa palavras doces para convencer estranhos a fechar os olhos, ela sabe descrever a si mesma de maneira frágil — ou com ares proféticos quando quer atestar o que fala.
(Fiquei me perguntando por que não juntaram o final do episódio anterior com o começo desse para criar um único episódio que investigasse o passado da personagem, mas isto é um detalhe e não atrapalha a experiência de assistir-lhe).

The OA explora com sabedoria sua trama principal nesse seguimento, além de incrementar com outros conflitos. Nada soa fora do lugar ou sobra, e a sensação é de que a dupla responsável pelo roteiro tem plena consciência do que faz, pois o texto flui entre as cenas, combinando uma edição inteligente e uma fotografia inspirada com diálogos que nunca parecem afetados ou exagerados. Este segundo episódio é bem superior ao primeiro, o que ocorre com mais raridade do que podemos imaginar: na maioria das séries, o piloto é o melhor episódio.
Como deixou transparecer que Steve fosse muito importante, eu pensei que a série limitar-se-ia a abordar a amizade dele com a protagonista, mas não é o caso e aqui nossos olhos se voltam para outras pessoas. É mais um ponto positivo, afinal, ganhamos outras personagens interessantes: Alfonso (Brandon Perea) é o jovem inteligente do grupo e que tem medo de se meter em confusão — receio justificável, pois sabemos que se reunir em uma casa abandonada, depois da meia noite, onde se trafica drogas não é o mais inteligente a se fazer. Se a personagem dele parece muito datada, temos Buck (Ian Alexander), personagem introspectiva e que pode virar destaque nos episódios seguintes.

New Colossus, que é o nome do soneto que o guarda lê para ela no começo do episódio, parece ser dividido em três partes. Na primeira, acompanhamos a infância e resgate de Nina Azarov e como ela foi adotada e mudou de nome. A atriz Zoey Todorovsky, que interpreta a protagonista quando criança, faz uma boa participação e é preciso dar-lhe os elogios cabíveis. É nessa primeira parte que muito do que vemos pode não ser a verdade, mas a verdade que Prairie conhece. Nesse momento, a série compõem sua história de modo delicado, aproveitando-se da sensibilidade das circunstâncias e nos entregando momentos bonitos. O relacionamento entre Prairie e seus pais, que nos parecia tão seco e cru antes, ganha novas cores com essa abordagem.
Em seguida, Afonso e sua vida complicada dividida com os irmãos e a mãe doente invadem a tela e temos dez minutos dedicados a uma apresentação bem feita sobre ele. Novamente as redes sociais aparecem, algo pequeno, mas que valoriza o pensar contemporâneo da produção — se bem que eu não imagino por que você mandaria algo importante por Snapchat, e quem utiliza o aplicativo deve concordar com isso.

Cada bloco desse episódio parece estar em um gênero, e, no terço seguinte, a série se torna um thriller bem conduzido. Conhecemos personagens que estavam no material promocional, mas que ainda não tinham sido devidamente introduzidas. Finalmente ouvimos Homer e começamos a entender a importância que ele tem a OA. Outro ponto que se liga é por que ela viu um vídeo antigo sobre o acidente dele na internet assim que conseguiu se conectar. A música ganha muita importância e gosto quando isso ocorre. Hap (Jason Isaacs) é bizarro, mas suas motivações são interessantes, por mais que lembrem o argumento de outras produções, como o filme de horror franco-canadense Martyrs de 2008. As cenas se encaminham para um final assustador, mesmo que saibamos que a personagem escapou de lá. Ainda resta saber tudo o que aconteceu. Noto que a água, além do sonho e da música/silêncio, tem muita importância na série. Vejamos aonde isso nos leva.
Talvez por ser detalhista, algumas coisas não soam bem, como o fato de uma jovem deficiente visual desaparecida começar a tocar no metrô sem que ninguém a reconheça. São pequenos detalhes, entretanto. The OA flerta com a possibilidade de estarmos em boas mãos, ouvindo uma boa narrativa de bons contadores de histórias. A recomendação da série é reafirmada aqui e o perigo de criarmos expectativas está, aos poucos, sendo fermentado. Espero que nós, aqueles que sentaram para ouvir, não nos decepcionemos.
> Entendendo Westworld com Carol Moreira!
ps: A cena sobre as batidas de coração é linda.
ps: A cobertura de The OA aqui no Seriemaníacos será feita em grupo, e o plano é um texto por dia. Fiquei responsável pelos dois primeiros episódios, mas nos vemos nos comentários dos seguintes. Espero sua companhia.















