Vagalhões no horizonte.

Eu acredito no inferno”

– Alison

Nos último episódios The Affair sempre tem me dado um motivo para reclamar, mas ao mesmo tempo nos proporcionado cenas inspiradas. Os problemas não desapareceram. A separação de pontos de vista continua a causar inbróglios temporais que são detectados com poucos segundos de raciocínio lógico, mas deixo as reclamações que já fiz de lado para me focar no que de novo temos aqui: uma performance espetacular de Ruth Wilson.

A abertura da série é uma das melhores que estrearam em 2014. Sombria e melancólica, dá muito bem o tom do que iremos presenciar nos próximos 60 minutos. Mas é apenas nesse episódio que a conexão realmente acontece. A música de Fiona Apple transita entre a morte e o amor marital, uma combinação estranha e degradante que se agiganta na forma de ondas… As mesmas ondas que se chocam contra Alison quando ela “sink back into the ocean”, e sabemos aí que para ela essa combinação é muito real.

O episódio se inicia com os pontos de vistas trocados e Alison aparentemente mais feliz do que nunca com seu aparentemente renovado “affair”. Mas conforme as ondas vão lhe atingindo ela cambaleia progressivamente até atingir o fundo do poço, regredindo a antigos hábitos e por fim trocando as ondas metafóricas pelas reais numa tentativa quase bem-sucedida de suicídio. E tudo isso em apenas metade de um episódio.

A sensação que tudo isso dá é claustrofóbica, e esse é precisamente o sentimento de Alison. Todas suas rotas de fuga são bloqueadas: Noah se mostra reticente em deixar Helen imediatamente e a venda do rancho e a consequente mudança para um lugar distante de Montauk é subitamente inviável. E como num último golpe de misericórdia a dissimulada mãe de Cole finalmente mostra as garras e toma uma das atitudes mais vergonhosas e detestáveis que já vi esse ano, esfregando a morte de Gabriel na cara de sua própria mãe.

Alison acaba no hospital depois de pesar a mão em sua tortura pessoal e nos entrega o que muito provavelmente será seu Emmy tape ano que vem. Toda a angústia, culpa e flagelação transborda de forma incontida e depois de quase voltar para o oceano ela decide fugir. Casamento e morte estão fortemente entrelaçados para a personagem, e ao abandonar Montauk ela quer se livrar dos dois.

É uma primeira metade de episódio fascinante que acaba tornando sua segunda parte um tanto opaca. Entretanto, mais uma vez The Affair escorrega com algo que eu considerei particularmente revoltante. Alison ir pra cama com Oscar? Não, não compro essa ideia em nenhuma hipótese. A personagem em vários momentos demonstrou seu justificadíssimo asco pelo personagem, e a repetição desse plot twist em vários filmes e seriados que já assisti torna tudo mais detestável. Por que uma mulher enraivecida tomaria uma atitude dessas, principalmente com o homem que odeia?

Já na parte de Noah temos o plot twist que provavelmente servirá para orquestrar o último episódio desse ano. Não é bem uma surpresa que Whitney tenha engravidado de Scotty, algo que até mencionei aqui na review passada. O que acontece é que subitamente temos Noah como suspeito principal (e toma principal nisso) enquanto que a picuinha de Oscar com os Lockhart parece ter se desvanecido.

Nesse embrulho todo temos também a luta interna de Noah para tomar uma decisão final sobre Alison. O suicídio que ele acidentalmente presencia no apartamento de Max catalisa sua tomada de posição, mas em nenhum momento essa trama atinge o brilho que o pesadelo de Alison consegue nos proporcionar. Creio que no último episódio provavelmente veremos a morte de Scotty (aleluia) e então teremos uma ideia mais concreta do que The Affair poderá apresentar no futuro. Mas enquanto tivermos as boas atuações e cenas memoráveis que aproveitamos nas últimas semanas, eu estou dentro.

Outras observações importantes: 

– Nosso querido detetive faz mais uma de suas aparições randômicas, mas dessa vez de forma mais incisiva. Dá uma trollada em Noah com a história dos seus filhos e o pressiona por respostas. Dou o braço a torcer para a série por inverter a ordem dos suspeitos de forma tão rápida, mas será que teremos algo realmente surpreendente?

– Não consigo deixar de me perguntar o quão estúpidos Scotty e Whitney são para terem um bebê. Sem métodos anticoncepcionais? A camisinha furou? Gostaria de saber o que realmente aconteceu aí, talvez ainda exista algo mal explicado nessa história.

– Indescritível a dó que senti de Cole quando ele chegou correndo na estação disposto a fugir junto de Alison, sem saber que ele é justamente uma das pessoas de quem ela está fugindo.

– É interessante notar a ambiguidade no sentimento de Alison para com a dificuldade de Noah em se livrar de sua família. Sim, ela quer que ele se separe de uma vez e fique com ela, mas creio que há uma ponta de rancor nesse desejo. Noah tem quatro filhos, Alison teve um e ele morreu. Ela está mais livre para assumir seu relacionamento porque não tem filhos, mas o lembrete de que ele tem deve ser doloroso, uma memória constante de que algo extremamente valioso foi perdido e nunca mais será encontrado.

– Saíram os indicados ao Globo de Ouro e confesso que fiquei muito surpreso com as três nomeações que The Affair recebeu. Entretanto, creio que apenas a de Ruth Wilson foi realmente merecida. A categoria de Melhor Série esnobou muita gente boa por aí, e embora seja extremamente gratificante ver um ator de The Wire, a série mais esnobada pelas premiações de todos os tempos, ser indicado para qualquer coisa também reconheço que Dominic West não é essa Coca-Cola toda.

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