Quatro meses depois, nada mudou.
O que Shakespeare está tentando dizer é que amor puro não pode sobreviver em um mundo imperfeito”
– Noah
Depois do feriado de Thanksgiving The Affair retorna após duas semanas de espera e, coincidentemente, na série o tempo também passa. É inverno e Noah resolve voltar para Montauk como um teste para sim mesmo. Seu casamento ainda está abalado pelo caso que ele teve com Alison e a relutância de Helen em perdoá-lo. Mas ao chegar na pequena cidade o teste se prova muito mais difícil do que ele imaginava.
Embora as atuações de Dominic West e Ruth Wilson estejam afiadas como sempre, é inevitável que o cansaço comece a aparecer. Após oito episódios ainda estamos batendo na mesma tecla: Noah está indeciso, Alison está indecisa e com isso o jogo de puxa e empurra entre os dois continua. Após quatro meses ambos ainda não sabem exatamente o que querem. Eles se amam? Sim. Amam seus cônjuges? Sim. Mas até agora não há uma decisão. Em todo momento que os dois compartilham a tela o perigo de uma recaída parece iminente, e eles nem ao menos se privam de correr um atrás do outro.
Isso certamente mostra a natureza do problema que eles têm em mãos, um amor imperfeito como aquele descrito por Noah no começo do episódio, capaz de sugar para dentro de si o que estiver ao seu redor (uma bela metáfora apresentada pela poltrona de Butler). Mesmo assim fiquei exasperado com os dois amantes em algumas cenas do episódio. A esse ponto da história Noah já deveria ter juízo suficiente para não se aproximar de Alison, não? Principalmente por já ter terminado o caso com ela e estar se esforçando há um bom tempo para voltar às graças da esposa. Obviamente que o caso de Alison e Noah é um dos pilares da série, mas como mantê-lo quando ele se torna cada vez menos plausível?
Por esse motivo é que outros relacionamentos brilham com mais força nesse episódio. Helen reatou com o marido mas não se esquece da traição, e numa cena espetacular conta para ele os motivos que a levaram ao casamento. É algo muito singular e visceral, um resumo em palavras de sentimentos que parecem muito mais poderosos quando não são pronunciados em voz alta. Helen esperava uma vida tranquila ao lado de uma pessoa normal, longe da influência da alta sociedade com a qual já estava intolerante em virtude de seus pais. Mas Noah mudou, e seus planos se despedaçaram. A figura de um relacionamento erodido pela desconfiança é poderosa e brilha mais forte do que o caso de Alison e Noah, que já conseguiu sustentar sozinho o episódio quatro mas agora fraqueja pelo cansaço.
Embora Cole não ganhe tanto holofote, é visível que sua situação com Alison não diverge muito da de Helen. Enquanto para ela o abalo estrutural é por conta da traição, para ele é um pouco mais complicado. A morte de Gabriel ainda deixa cicatrizes, mas é Noah quem realmente deixa tudo em suspenso: Alison realmente estava disposta a ficar com ele, e agora que o personagem retornou as dúvidas também retornam.
Mas aí outro ponto causa mais incômodo. As divergências mnemônicas dessa vez atingem novamente a presença de Athena, a mãe de Alison. Enquanto poderíamos justificar seu sumiço anteriormente, mesmo sem saber exatamente o porquê, pela existência do interrogatório, agora não parece existir razão aparente para seu reiterado desaparecimento da memória de Noah. Mero esquecimento? Difícil de engolir. The Affair novamente nos deixa no escuro, passando a impressão de que está começando a usar os pontos de vista para criar dúvidas que não possuem respostas razoáveis.
Quanto ao mistério da vez, a série já começa a dar pistas de que a morte de Scotty está próxima. Talvez seja no próximo episódio, e também é possível que tenhamos outro salto temporal para a época da investigação do nosso amigo detetive que novamente aparece stalkeando os personagens e fazendo perguntas incômodas. Temos essa única certeza, e o resto é pura especulação. The Affair gosta de nos deixar no escuro, então lá vamos nós para os dois últimos episódios dessa temporada.
Outras observações importantes:
– Toda a plot da avó de Alison foi convincente, principalmente no momento em que Noah a acorda para fazer companhia a ela nos seus momentos finais. Mesmo assim, o fantasma dos pontos de vista diferentes continua a me perseguir: como Alison lembraria de algo tão intenso de forma totalmente diferente, sem nem estar presente no momento da morte? E o empurrão que Noah lhe dá para assinar a ordem de não ressuscitar, enquanto em sua própria versão esse problema nem ocorreu? POR QUE DIABOS É TUDO DIFERENTE??
– Whitney bulímica? Não seria… grávida? Teorias de seu envolvimento com Scotty prosperam cada vez mais.
– Butler finalmente ganhou uma cena que não envolve ele sendo um idiota. Alguns acreditam que Noah se aproxima de Alison novamente por acreditar que sua inspiração para a escrita pode voltar desse jeito. Não acredito nisso, mas é fato que o personagem perdeu o ritmo de escrita, enquanto que no futuro ele é um escritor completo com direito a adaptação cinematográfica. E no funeral de Scotty Alison não está sentada ao lado de Cole…














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