De um caso extraconjugal a um quebra-cabeça investigativo.

 Eu não acredito em acidentes”

– O Detetive

No último episódio The Affair se consolidou como uma série dramaticamente inteligentíssima ao abordar o caso de Noah e Alison. Aqui, voltamos com força ao mistério da morte de (finalmente a revelação, de forma muito singular, aliás) Scotty. O que impressiona é que nessa uma hora a série consegue instilar inúmeras dúvidas na mente do espectador, estimular teorias e ainda assim manter sua qualidade dramatúrgica.

No que concerne ao caso do assassinato, as perguntas não surgem da morte de Scotty em si. A questão é que nessa semana as divergências entre os pontos de vista de Alison e Noah foram monstruosas, e isso levanta uma miríade de perguntas sobre a autenticidade de cada relato e o que cada uma dessas diferenças significa para a trama.

A discrepância mais óbvia é a curta estadia de Noah no primeiro encontro com Alison. O problema que ele tem em casa com Whitney é totalmente apagado da memória de Alison, o que consequentemente apagaria também o encontro indesejado que ele teve com Oscar na estrada, o que também apagaria o surgimento desse mesmo Oscar em sua casa posteriormente… A questão é que ao voltarmos à versão de Alison, vemos seu chefe lhe perguntando sobre a casa de Phoebe por aparentemente motivo nenhum. Mas se ele esteve anteriormente nas proximidades e encontrou Noah na beira da estrada com um pneu furado isso justificaria a pergunta, não? Nesse caso, creio que podemos ter quase certeza de que Alison omitiu informações.

O que nesse caso seria interessantíssimo, já que Oscar é disparado o suspeito mais provável de ter matado Scotty. A rusga que ele teve com os Lockhart por causa da pista de boliche, a visita que o próprio Scotty lhe dá(*), o temperamento estourado… O interessante é que Noah não parece ter a preocupação de esconder essa informação. Ou será que Alison simplesmente esqueceu?

(*) Uma teoria muito interessante é de que Scotty visitou Oscar para lhe vender algum tipo de droga. Isso explicaria o comportamento esquisito do mesmo ao visitar a casa do sogro de Noah. Outros sugerem que o esquema de drogas envolve TODA a família, o que seria ótimo para nos enganar ao mostrar pessoas nervosas sobre uma investigação policial, mas por motivos diferentes dos que pensamos (uma estratégia clássica de livros investigativos). Alison fazendo aquela ligação desesperada no episódio passado, talvez?

Esse é apenas um exemplo de toda a complexidade que envolve The Affair, em parte fruto da esperta utilização dos pontos de vista divergentes. O que realmente me deixa muito feliz em relação à série é que o embasamento dramático não fica em nenhum momento para trás, e a diferença de pontos de vista também é utilizada para dar mais nuances a esse aspecto da trama.

Nesse episódio particularmente é a chegada da mãe de Alison que cumpre esse papel. Ela é um tanto caricata, mas sua exatidão ao ler os pensamentos e atitudes da filha se prova compensadora. Sua constatação de que a filha finalmente parece feliz, mesmo que banhada em esoterismo, é certeira: Alison está em sintonia com Noah, algo que possivelmente não acontecerá mais com Cole. A primeira cena do episódio, na qual ele a flagra se preparando para sair, é incrível. Obviamente algo está errado, mas ninguém fala sobre isso. Há uma barreira entre os dois que surgiu quando Gabriel morreu, e eles estão acostumados demais a se manterem calados, a esconderem as feridas com medo de que elas reabram.

Noah, por sua vez, é puro barulho. Interessante paralelo que se faz aqui: Alison talvez não se sinta bem em sua família por causa do silêncio, promovido tanto pela falta do filho quanto pela barreira com Cole. Com Noah é justamente o contrário. Filhos, esposa, sogros, tudo converge numa balbúrdia imensa que distingue fortemente uma parte do episódio de outra. A cena na qual ele repele o filho ao sair para se encontrar com Alison é sintomática. Ele quer sair do ambiente familiar, esquecer de suas preocupações nos braços da amante e a última coisa que deseja é a presença do garoto.

Entretanto, as preocupações o encontram a todo momento. É muito difícil tomar uma posição sobre Noah quando ele interage com sua família. O modo como Whitney e toda os familiares reagem à tentativa de suicídio de Jody também me deixou com um nojo extremo, mas quase tudo o que Noah fala para alguém, seja Whitney ou sua esposa, também pode se aplicar a ele. Ele recebe o dinheiro do pai de Helen, não? Ele trai a esposa enquanto serve de guia moral à filha, não? Noah está preso em suas contradições, preso com a família de Helen, e quando expressa o desejo de fugir no final do episódio fico totalmente convencido de que ele realmente quer isso, de que ele não está brincando. Até quando o amor conjugal pode sobreviver enquanto sua família te dilacera por dentro e sua amante lhe dá muito mais conforto que todos os parentes juntos?

The Affair começa a dar maior profundeza à sua trama, provando que consegue lidar com um enredo cada vez mais complexo e dedicado a dois assuntos totalmente diferentes. Ainda melhor, sabe usar uma única ferramenta narrativa (os dois pontos de vista) para desenvolver ambos os temas. Junte-se a isso um elenco de altíssimo nível e uma produção caprichada para termos uma grande série. Que o efeito Showtime passe longe de The Affair!

Outras observações importantes: 

Outro pensamento interessante tendo em vista a revelação de que Scotty é a vítima. No segundo episódio o flagra dele na festa com Whitney é lembrado por Alison e omitido por Noah. Estaria o pai protegendo a filha?

– Amei a cena da briga de Noah com Oscar, grande atuação de todos os envolvidos. Outra hipótese se desenvolve aqui: Oscar desconfia do caso entre seu novo amigo e Alison, e resolve utilizar isso contra Cole depois que este destruiu seu plano de construir uma pista de boliche.

– “How do I un-asshole myself?”. Amei essa pergunta! Whitney finalmente ganhou um pouco mais de atenção, sua atitude estava realmente dando nos nervos.

– Não tive a oportunidade até agora, então permitam-me elogiar a incrível abertura da série. Desconfortável, misteriosa e quase esquizofrênica, ela fica ainda mais singular com a voz trôpega de Fiona Apple. Lindo trabalho.

– Por último, é preciso lembrá-los de que Dominic West e John Doman são parceiros de longa data, e enquanto aqui o sogro esnoba o genro, em The Wire o chefe esnobava o subordinado. Relembre aqui.

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