Os efeitos do Boticário chegaram com força nesse sexto capítulo.
Chegamos na metade da primeira temporada e Sense8 já se equilibrou. Desde seu terceiro episódio, a narrativa vem uma crescente de qualidade louvável. A retirada do peso de ter que apresentar os personagens e a premissa básica de sua narrativa somente trouxe melhorias à história. O que mais acompanhamos nos últimos episódios foi o tratamento da dinâmica entre os personagens, assim como a construção de seus relacionamentos e a forma que os contatos estabelecidos entre eles passam a mexer com as suas formas de enfrentar a realidade. Não há a corrida para estourar miolos com a história por trás dos sensates. Houve a percepção de que, para que o impacto da mitologia seja maior, temos que observar os personagens se acostumando com a conexão, deixando de serem surpreendidos por ela e encontrando formas de cresceram através dela. Durante esse processo, nós também nos habituamos com a narrativa cheia de elipses e rimas, com as idas e vindas e as ligações que ocorrem. E o fato de estarmos confortáveis com a estrutura do projeto foi o que permitiu que Demons ousasse tanto.
A estratégia de colocar em evidência três personagens por episódio aparentemente vai ser a base da série mesmo. Dessa vez Riley, Sun e Capheus e somente as duas primeiras presenciaram o compartilhamento. A trama do rapaz se desenvolveu de forma independente. No entanto, isso não foi um aspecto negativo. Nos importamos demais com ele para reclamarmos do desenrolar de sua história. Principalmente quando há a quebra as expectativas. Silas Kabaka atraiu Capheus para seu espectro, mas não para transportar drogas e sim a sua filha. E isso foi uma saída sagaz do roteiro. Identificamos a preocupação genuína de Kabaka pela filha e, ao torná-la a carga do queniano, nós nos preocupamos ainda mais com o trânsito do rapaz para as sessões de quimioterapia e tememos muito, uma vez que, em caso de captura da garota, as consequências serão graves; e o primeiro alvo de Silas não será ele e sim sua mãe. Além disso, não temos como culpar a menina pelas ações do pai, assim, em caso de tentativa de sequestro, Capheus tentaria resgatá-la ou fugiria em busca da mãe?
Sun assumiu a culpa do desvio de dinheiro por parte do irmão e o que vimos por parte de sua família foi o que esperávamos: placidez. Talvez a percepção de que, de fato, mais que honrar suas memórias com a mãe, ela estava desperdiçando sua vida tenha feito o arrependimento surgir tão rapidamente. Riley, por outro lado, encontrou Nyx e a violência dos quais ela fugia desde a première. As duas mulheres ficaram sem saída. Sun não tinha para onde fugir: iria para a cadeia de qualquer jeito. A islandesa tinha somente uma possibilidade: seguir para a Islândia, o local do qual ela fugiu. A conversa entre as duas foi tocante. De fato, a áurea mais contida e soturna delas a aproximam e o passado as unia. Por isso, chegaram a mesma conclusão: elas precisam sair da situação em que se encontram. Assim como no caso da coreana e do queniano no episódio passado, o contato entre os sensates possibilitou uma mudança nos personagens e fica a felicidade em saber que a série realmente não pretende ficar presa à conveniência quanto aos compartilhamentos.
Conversando sozinho e sufocando ao acaso no meio de pessoas conhecidas não é algo que venha a resultar em burburinhos positivos. O policial está começando a sofrer as consequências de não ter controle sobre quando, como e onde ocorrerão os compartilhamentos. Por mais que saibamos que ele não seja louco, não é difícil imaginar a razão dos outros considerarem isso. Mas o ponto alto do personagem no episódio (tirando o que vem no próximo parágrafo) foi sua interação com Riley. Eles se viram lá na première e foi interessante a naturalidade deles em lidar um com o outro. Além disso, através deles, o roteiro calou a boca de quem estava em busca de criticar os questionamentos de sanidade dos personagens quanto as visões: eles trocaram números de telefone, ligaram um para o outro e ambos passam a ter a certeza de que não são visões insanas, eles mantêm contatos com pessoais reais. Até por isso a cena entre a islandesa e a coreana ocorreu de forma tão calma. Ambas já tinham estabelecido um contato mais aprofundado com outro sensate.
Falando em contato profundo, vamos falar de coisa boa: SURUBA, ORGIA, BACANAL, LEPO-LEPO, PARARATIBUM, MEU POVO! O que foi essa cena?? Não só isso, o que foi a construção da atmosfera erótica e cheia de tesão que fez com que o ato fosse consumado? Foi um perfume do Boticário, um óleo corporal, quem sabe reflexos de Fernanda Montenegro pegadora? Isso foi uma verdadeira derrubada de forninho na cara da Família Tradicional Brasileira. Mais que isso, não foi uma suruba de quinhentas mulheres bonitas e um homem, foi uma orgia que chegou a ter quatro homens e uma mulher. Sim, Sense8 não diminuiu a tração de suas bandeiras não e só fica o elogio imenso ao que isso representou. E, se acreditamos na cena, percebemos a excitação, o erotismo e não questionamos sua necessidade dentro da história é a prova da inteligência da montagem e da direção. Não, não era necessário que daquele surubão emergisse algo mitológico, saber que eles podem partilhar o prazer sexual mostra que sim, é possível que todos venham a compartilhar de mesmos sentimentos e emoções e, mais, que eles sejam exaltados pelo compartilhamento entre eles.
Antes de encerrar, seria injusto esquecer do casal da vez: Wolfgang e Kala, Kalang, para os íntimos. Os dois também estão mais à vontade com as visões compartilhadas e atração é forte. Mesmo assim ficou uma nota de tristeza. Por mais que tenha sido divertido acompanhar a dinâmica dos dois e constatar que juntos eles transbordam química, não deixou de ser triste enxergar o amor genuíno que Rajan sente pela noiva. Sim, fica a torcida por Wolfgang e Kala, mas seria que não podia virar um a três para que o indiano não sofresse?
Sense8 ousou ainda mais e ousou bonito e com orgulho. Desde os dois episódios iniciais que a série não escancarava seu liberalismo e sua bandeira de forma tão intensa. E o melhor: o episódio não se reduziu a isso. Todas as outras peças do quebra-cabeça foram movidas e a narrativa fica cada vez mais coesa e intricada. Resta agora saber quais serão as descobertas de Nomi agora que ela decidiu revirar a mesa e deixar de ser a vítima.
















