Quando OITNB estreou em junho (11) de 2013, não cansava de ouvir que esta série era a OZ feminina, que em partes é verdade, ela ecoa este programa que findou 10 anos antes. E o que vinha a minha mente, é se ela seria capaz de conseguir aprofundar psicologicamente de igual modo ou semelhante como a série da HBO magistralmente fez.

Era inevitável não pensar que uma série com Jason Biggs, o quase eterno Jim Levenstein de American Pie (1999), com a até então não muito conhecida Taylor Schilling (Piper), pudesse chegar à altura de OZ. Evidente que isso não tirou o brilho e futuro sucesso de OITNB. Me tornei fã logo no primeiro episódio, já que é quase impossível não gostar das muitas voltas e reviravoltas que Piper e seu ex-noivo Larry Bloom nos proporcionaram até a segunda temporada. E eis que vem a 3ª T, o que era bom, fica muito melhor, Orange Is The New Black não só mostra que é uma divertida comédia dramática, mas também, uma série com grande potencial para se tornar um dos melhores dramas psicológicos da história dos seriados. E sem sombra de dúvidas, se equiparar psicologicamente a OZ. Essa história está se construindo com a 4ª T.

Nossas queridas detentas de Litchfield são muito mais que simples mulheres presas, são pessoas repletas de uma vivência rica e envolvente que não devem simplesmente ser reduzidas a uma visão maniqueísta de um sistema político opressor numa relação de força e poder totalmente oposta entre homens e mulheres. Ambos são vítimas de uma mesma realidade social. É problemático ser homem. É complicado ser homossexual no mundo que vivemos. É difícil ser mulher na conjectura planetária nossa.

Agora vamos comentar sobre este episódio 😉

Fala galerinha do SM! Ainda se recuperando do choque que foi o primeiro episódio desta 4ª T com suas mais de 80 detentas novas? OINTB promete ser mais impoliticamente correta do que foi anteriormente, e fazer jus as muitas críticas quanto a eventos passados.

E começamos bem com a treta entre a divertida Tova Hayes (Black Cindy) e sua parceira de espaço de cela, uma muçulmana que duvida de sua judicidade devido a sua cor, e ela de sua “naturalidade islâmica”  provocando se ela era de Carrache (a cidade mais frutífera do Paquistão, seu centro econômico), ri muito.

Que venham mais bons embates entre as duas. Eu particularmente gostei da muçulmana. Ter alguém desta religião é algo bem positivo na série. Na 3ª T, OITNB foi bem criticada por brincar com a fé do Profeta Muhammad e Alá. Tivemos uma cena com a Vause mais “polida” lendo o Alcorão, e outra mais provocativa com Morello e Ingalls na fatídica fala que o único livro que não foi queimado na biblioteca por causa do acorrido nela, era este Livro Sagrado e sua alusão a uma represália ou algum tipo de atentado terrorista, que felizmente, não é que o representa o islamismo.

E já que estamos no núcleo da fé, perdemos o universo judeu do Larry e família, mas ganhamos o de Tova com uma boa provocação ao judaísmo pop de Hollywood nos episódios passados, e neste, somos apresentados ao Mezuzá, um poderoso símbolo místico do judaísmo colocado na parede de entrada de seu espaço de cela. Parabéns Netflix, gostei de ver.

O flashback desta vez foi sobre Maria Ruiz e a negação de sua naturalidade dominicana por causa do El León, seu papi que a expulsa de casa por não concordar com os afrontos de sua filha. Que não era tão santinha, de olho no bad boy Cabrón do bairro, dona de um chamativo rabo de saia, a corajosa Ruiz pega o pacote de drogas que ele esconde duma batida da polícia para futuramente servir de barganha sedutora.

A inversão de/e (re)valores(isação) para num momento criarmos desprezo, em outros apego pelos personagens em OITNB é fantástica. A briga com seu pai era uma questão territorial, a busca de uma identidade do que poderia ser compreendido como um “bom” dominicano. Seu sonho profissional era ser uma higienista dental, e numa bela cena com seu peguete boxeador (bom soco garota), somos expostos a uma fragilidade masculina, que diferente do que o desconstrucionismo pós-moderno tentam impor, sempre é bom lembrar que o homem é tão frágil emocionalmente quanto a mulher, pode até posar de galo, mas quanto a falar de si, é comum agirem como pintos precisando da mãe galinha.

E dando continuidade a essa fragilidade emocional masculina, sempre é bom nos depararmos com cenas do tipo, mesmo a série tendo como plot central a fragilidade emocional das mulheres, que no fim disso tudo, OINTB quer mostrar que viver é difícil para qualquer um, contudo, com uma boa “armadura”, podemos suportar a complexa realidade do que se denominou historicamente o que chamamos de ser humano. E isso está explícito no nome do episódio: Power Suit, que vindo na esteira do episódio anterior, Work That Body For Me e o que fazer com os nossos corpos, não só remete a um tipo de vestimenta urbana da década de 80, um terno largo com ombreiras dando um ar de sobriedade e impacto social (que coisa horrível é esse terno), mas também, a ARMADURA (não é o que está sendo feito por Red com Piper?).

Quando li o título do episódio, imediatamente lembrei de um dos melhores jogos da história dos games, o sensacional Super Metroid (Super Nintendo, 1994), que não só é considerado por especialistas, mas visto em vários Top 10 da internet. Sua trama contém a primeira e grande mulher heroína dos games, a Samus Aran. Sua história foi iniciada em 1986 com Metroid. Suas Power Suit’s têm histórias.

A power suit (nossos códigos de vestimenta), se tornou um dos principais meios de demarcação de território na evolução do homem, que conjuntamente com as variadas armaduras mentais criadas, vão demarcando espaços e criando relações de poder (Piper e seu negócio de calcinha suja não está aí para mentir). O que também se confirma com o monte de dominicanas dentro de Litchfild.

Apesar do principal núcleo em OINTB ser tratado comicamente algumas muitas vezes, vejo que é importante numa luta pela consciência negra ou afroamericana quanto a um estereótipo de “pobreza e inferioridade”, uma representação negra na série para extirpar as retratações do tipo do imaginário popular que foi imposta a esta parte étnica da sociedade durante vários séculos. E não tem como não ter raiva do Healy sendo Healy sugerindo uma realidade de “gueto” para a comunidade negra do presídio. Ponto para Judy contestando ele e mostrando sua empatia com este grupo social.

Galera que episódio, merecia uma parte 1, 2 e 3 de tão bom e rico de conteúdo que foi. Judy King promete na série, e nos encontramos novamente na próxima review. Mas antes, não deixe de relembrar o episódio 1 aqui.

(Já que a série direta e indiretamente provoca e caminha com o discurso pós-moderno, ‘tamo’ todos juntos)

Cellpadding 1 – É cruel, mas como não rir no contexto do momento Leanne dizer “que se é para ofender, que ofenda direito as dominicanas”.

Cellpadding 2 – Vause pirando mais que Lolly é fantástico, e nada me faz mudar que Whitehill sabe muito mais do que aparenta saber ou é.

Cellpadding 3 – Se fosse comigo sendo acordado por um detento fazendo exercício com a parte superior do beliche suspendendo ele com as pernas, teria que me controlar para não lhe dar umas porradas (ri muito na hora). Piper mostre que é GangstA de corpo e alma e põe a “gordinha” no seu devido lugar ali dentro now! (risos). Que pensar globalmente que nada. Na cadeia (da ficção somente é claro) alguém tem que mandar, e também ser deposto quando fazer merda. Piper se cuida garota!

Cellpadding 4 – Quero romance entre a Poussey e a politicamente correta ‘japa girl’ nos próximos episódios.

Cellpadding 5 – Força Doggett com Coates. E muito equilíbrio Yoga Jones com as benesses de Judy King, realmente resistir a um bom chá de ervas não é para qualquer um.

Cellpadding 6 –  Para os bom vivant do universo urso. OINTB tem um urso que não é loser (texto seu aqui). Que também não é chubby, belly, gainers, muscle bear (ou outro animal da fauna ursina), e nem aprendiz de mini-barbie (guarda prisional John Bennett), é um Big Bear. WOOF Piscatella (Brad William Henke)! É incrível como a barba muda o homem.

Cellpadding 7 – Não existe nada mais normal culturalmente do que sentir prazer com cheiro de calcinha suja de mulher, ou ter tesão com cueca suada de homem. Toma cuidado com seu reinado Piper?

Cellpadding 8 – E cá entre nós, todo homem precisa de um bom terno no seu guarda roupa. E sem essa de papo de pós-moderna/o que este tipo de vestimenta estaria num top 5 da opressão masculina e feminina. Caputo ‘tamo’ junto.

Cellpadding 9 – Morello sua linda. Baton vermelho é pura sedução, curto muito essa guria. E Coates seu pilantra, bem que ela poderia ter ficado mais um pouco com o véu. E não vamos resumir sua ‘vivência” a ‘agrada homens quer biscoito’, a mulher pode e deve se desejar, ser mãe, noiva, ser saidinha, esposa fiel ou ter um casamento de novela se assim querer e o seu parceiro estiver de acordo. Mesmo ela sendo piradinha, e o amor também sendo um sentimento que faz pirar. Sempre é bom poder amar, pensar que podemos contar com alguém independente de ser homem/mulher, sexo, ou identidade de gênero.

Cellpadding 10 – E que surpresa boa foi ter ouvido Piper dizendo anteriormente o nome de Margaret Mead. Antropóloga cultural norte-americana que dedicou sua vida aos estudos dos “papéis sexuais” que homens e mulheres exercem na sociedade e o que pode ser feito com os seus corpos, que nunca deixará de ser uma Power Suit. E pegando carona neste icônico nome (que até ela é descontruída absurdamente pelos desconstrucionistas da contemporaneidade), não irei usar nas minhas reviews o discurso dos pós-modernos. Sei que no Brasil é comum o uso deste tipo de narrativa em determinados comentários ou falas sobre OITNB, que mesmo reconhecendo uma certa valia e importância para certos atores sociais (ainda é o principal discurso que chega até eles), eu não sou pós-moderno.

Não usarei este tipo de linguagem social, por entender que este tipo de comunicação se tornou um dos meios mais retóricos de análise da academia (e com várias pessoas fora dela) devido as suas muitas falas assumindo a metáfora dO Olho de Deus, a verdade última, “ele sendo o grande Deus, somente Ele poderia julgar os homens por ser o criador de tudo”, e pior, uma visão de cima com alto déficit de alcance do que acontece na superfície.

Cellpadding 11 – Antes de terminar, quero agradecer quem leu, se irritou com alguns comentários, torceu o nariz, não leu, ou apenas deu uma espiadinha (tudo isso faz parte), mas fiquem sabendo, Orange Is The New Black é um dos melhores seriados de drama da atualidade. E que saudades da Sophia Busert. Se alguém quiser conhecer o grupo citado por Crystal, ACLU, aqui. E para quem não conhece, LAMBDA é um dos grandes símbolos LGBT, foi criado/identificado pela Gay Activist Alliance em 1970 de Nova York. Sua origem é grega (11ª letra do seu alfabeto), e trás na sua origem e ressignificações: liberdade, libertação e força. E por fim, menos discurso pós-moderno dos desconstrucionistas com seus inúmeros realismos ingênuos, e um pouco mais de realismo crítico.

Artigo anteriorThe Last Ship 3×01/02: The Scott Effect/Rising Sun [Season Premiere]
Próximo artigoPerson of Interest 5×12: .exe
Fayez Knon
Professor, e nas outras horas viciado em séries (um série maníacos, rsrs). Sempre assisti mais séries do que filmes, e isso desde criança. Gosto de TV Shows desde uma comédia a um drama ou do suspense a uma ficção científica. Se a trama é boa, vale o meu momento assistindo.