Eu sei o que vocês fizeram na noite passada.

Um episódio matador. Modificar a ordem natural das coisas não é fácil para ninguém. Da coisa mais leviana até a coisa mais complexa, mudar a normalidade exige muito cuidado, cautela e atenção. Quando o mais novo morre antes do mais velho, este não consegue entender o porquê da injustiça da vida. Quando você coloca o predicado antes do sujeito na frase, o deslocamento tem que vir com vírgulas. E, quando você numa sala de roteiristas, dá a ideia de lá no piloto falar tudo o que vai acontecer no nono episódio, mas de uma maneira velada, que o telespectador vai entender só na hora certa, e perceber que tudo estava na frente de seus olhos, você precisa de muito planejamento. Imagino uma lousa imensa cheia de anotações, post-its multicolores realçando a imaginação de cabeças fumegantes e ideias alucinadas. Cuidado. Cautela. Atenção. Tudo isso teve, e este episódio veio para coroar o inicio da série, que por sinal, não tenho nem ideia de como se desenvolveria sua possível segunda temporada (outro crime? Reviravoltas? Sam vivo? Lila viva? Nenê de Lila vivo?), ou por quanto tempo essa história pode nos prender. Mas, que por enquanto prende a nossa atenção com uma maestria matadora. How To Get Away With Murder, desse jeito, mate-me sempre.

Vamos ser metódicos e pleonásticos e começar do início: a conversa derradeira de Sam e Annalise. Aquela cena entra como uma das mais memoráveis da série, e acredito que permanecerá por muito tempo na lista especial. Na conversa franca de um casal que briga, se ouve todo o tipo de farpas, daquelas que estão amargadas no fundo da garganta que sempre vai e volta para a boca. Aquela era a ocasião de falar tudo o que os dois estavam guardando. Numa premonição intuitiva (não de morte, mas de uma ruptura do relacionamento), os dois ali vomitam verdades reciprocamente. Há um cansaço no amor, do qual a gente já comentou muito aqui nas reviews e nos comentários, que ainda empurra o casal. E há de se lembrar, que mesmo cansado, existe ali um amor. Um amor que faz Sam chamar a sua monstra que só quer sexo selvagem, que ele tem vergonha de comentar o que faz na cama com ela de Annie. Um amor onde a mulher sabe que o marido a usa como uma vitrine de um casamento feliz com uma negra, mas tem passado as noite com outro homem na cama, a satisfazendo. É um amor que se completa na hipocrisia. A atuação de Viola é irrepreensível, e deixa a personagem de Tom Verica preso em sua insignificância, também bem defendido por este.

Após isso, desencadeia todos os fatos que levaram o crime da noite, que tínhamos conhecimento fragmentado de tudo e fomos aos poucos montando o quebra-cabeça. Vamos montar a cena do crime: Annalise sai de casa e deixa Sam sozinho afogando suas mágoas em copos de bebida (quem nunca?) pensando em Lila… Nesse meio tempo, Wes corre atrás de Rebecca (desde o episódio passado) está indo pegar as informações no computador; e Michaela aparece no escritório/casa para devolver o troféu. Sam, que tem mil e uma culpas no cartório, quer mandar a chatinha embora, mas ela é muito chata para obedecer o dono da casa da casa dele. Sem sucesso com uma, ele vai atrás de Rebecca porque sabe que a menina sabe demais. Nisso, Michaela Bueno tá narrando tudo para Wes com gritos e sonoplastias de uma menina mimada.  O grupo de estudos chega ao local, Wes consegue tirar a bartender do banheiro sã e salva, mas logo já é atacada pelo dono no notebook. Nisso, todos entram na briga, na fuga e na captura do pen-drive, Sam cai do segundo andar. Achando que ele está morto, todo mundo fica ali conversando tranquilamente como se não existisse um defunto estatelado no chão frio (quem nunca? #2). Mas, a vida ainda não acabou para Sam, ele não desiste assim tão fácil (Aquela queda não foi nada… ele é Joseph Climber!): ele levanta, ataca a menina, mas leva uma trofeuzada na cabeça certeira.

Enfim, vamos aos detalhes mais importantes. O roteiro foi inteligente ao ponto de dar uma parcela de culpa a todos os cinco ali presentes. Mesmo que Rebecca seja a mais criminosa como invadir a casa que fica sempre aberta para roubar o notebook do cara e tirar informações privilegiadas, ela teve uma culpa compartilhada com todos. Já que essa defesa pode ser encarada como cúmplice em tal violação. Laurel pega o pen drive e sai correndo, Connor tenta agarrar Sam e leva um soco, Wes é o primeiro a tentar prendê-lo e aquele que o impede de recuperar o pen-drive, e Michaela Tedesco é quem o empurra escada abaixo. Até que Wes o mata de vez. A tentativa se consuma. E agora há um homicídio de verdade, e que envolve diretamente todos ali, muito mais que apenas uma relação cliente-advogado. Aqui todos têm uma relação com o crime, na verdade, todos veem a vida virar de cabeça pra baixo. Laurel fica paralisada. Michaela chora. Connor vomita. E é o mais coitadinho do grupo que tem a coragem de matar o marido da chefa por uma menina, que está sendo acusada de matar a colega, que acabara de conhecer. Não imaginávamos essas reações lá no piloto bem desenhado da série. Mas, a gente já sabia tudo o que ia acontecer…

Aquela versão da história que ouvimos num episódio anterior contada por Rebecca no quarto do motel, não era verdadeira, e era ela querendo defender Wes. Mas, a vida não vai ser tão simples assim. Dentre as revelações do destino deste episódio, algumas chocaram e outras pareceram aleatórias demais. A mulher de Nate no hospital e a foto indicando que eles são recém-casados… Agora que Annie é viúva e que Nate curte o sexo selvagem dela, como a mulher vai ser inserida na história? Ela vai ser? Acredito que é um drama que compensa e uma storyline que pode ser bem desenvolvida. E Asher, no episódio, serve para fazer dancinhas estranhas na fogueira e receber uma ligação de Bonnie, que estava num megahotel falando sobre aparelhos odontológicos com um cara estranho, para a one-night standing mais estranha de todas as séries até hoje. Ficou parecendo último capítulo de novela da seis, onde todo mundo parece ter uma obrigação contratual de casar no último capítulo, e como não tem dinheiro para vestir um figurante de noivo, junta dois personagens WTF, e sem nenhuma troca de olhares durante a novela inteira. Foi essa a sensação. Não sei se esse relacionamento irar dar frutos, porque bem enraizado, isso ele não está.

Sobre a moeda de Wes, ela não tinha dois lados iguais, mas sim a sua desonestidade a sua vontade própria de querer fazer o que ele achava que estava certo tinha mais de uma cara. Ele jogou a moeda para dar um ar de legitimidade à sorte, mas na verdade, ele decidiu como ele achou que tinha dado certo (ou será que foi como Annalise recomendou?). Falando nisso, é na reviravolta final, que percebemos que toda aquela conversa que Annie teve com Nate, também fora pautada na mentira. A nossa advogada sabia que o marido estava morto e que todas as suas ligações não seriam retornadas, nem ao menos sua tomada de consciência teria alguma valia. É tocante, ainda mesmo depois de ver a cena final, a cena que ela deixa o recado na caixa de mensagem de Sam. Mesmo que aquilo tenha sido uma desculpa de afastamento do crime para uma futura investigação policial, parecia verdade a última carta de amor dos dois.

Enquanto ela diz no celular, palavras de apoio, ela sabia que ele estava sendo desovado. Que ele estava sendo queimado e depois esquartejado, depois ensacado e depois incinerado. Ele era um lixo naquele instante, e ela estava se despedindo de alguém a quem ela nunca retribuiu ou dedicou todo o seu amor, mas que vivia como um cúmplice de todos os segredos de ambos. Ela suportava Bonnie dentro de sua própria casa, mas o queria bem. Ela era sua vitrine, mas reconheceu o pênis dele num celular de uma menina morta. Entre segredos e covardias, a humilhação ali também fora recíproca. Ela se desmancha. Mesmo traindo, mesmo sendo traída, quando ela liga para a polícia no final do episódio, ela não tem mais tempo nem de se arrumar, de vestir a pompa que a Dr. Annalise Keating merece e que ela criou. Não, ali ela estava sendo ela, verdadeiramente, encobrindo uma mentira. Ela já não deve mais saber onde começam suas verdades, e onde terminam suas mentiras.

Entre as mentiras, que vão permear os novos episódios, estão o encontro de Wes e Annalise na noite do crime, Laurel mentindo para Frank sobre o troféu, Michaela agora vendo a vida num possível desmoronamento, ela aceita às determinações da sogra, e Asher achando que os amigos foram na festa da fogueira. Connor agora é um dependente de droga para Oliver, e parece que a relação de Bonnie e Annalise voltou a ser como era. Parece que a loira não pode ser deixada de lado.

Para concluir, vou listar aqui algumas evidências, provas e suspeitas, que foram citadas no episódio e também de outros anteriores, que quero ver como será o desenrolar pelos episódios:

  1. O material genético de Sam, impressões digitais do pessoal e o sangue: será que eles não deixaram nenhum rastro por aí? Tudo bem que a maioria estava de luva, mas estas roupas sujaram, será que aí mora algum desdobramento suspeito.
  2. O anel de Michaela: o anel de noivado de Michaela foi reencontrado no lixo? Pelo que eu percebi, acho que não, será que ele ficou perdido em algum lugar?
  3. O carro de Connor na frente do escritório de Annalise: ele foi visto por Asher quando este estava em busca do seu troféu. Será que o almofadinhas vai ser chantageado pelo resto do grupo ou envolverão ele no rolo?
  4. O policial que perguntou aonde eles iam com o tapete da professora Annalise: no piloto, um policial viu que eles estavam saindo da casa da advogada, com uma atitude bem suspeita.
  5. O vídeo de segurança da loja de conveniência onde Wes comprou o álcool: será que aquela loja não tem nenhuma câmera de segurança que poderá ser usada contra os nossos amiguinhos no tribunal?

Peço ajuda para vocês leitores a completar essa lista, e criarmos teorias de como essa série vai ser desenvolvida a partir de agora. Acredito que a fase procedural dela está prestes a finalizar, ou se não, ela terá que ser muito bem delimitada para não perder os plots mais interessantes que vão ser o desenrolar dos assassinatos de Lila e Sam nos tribunais. Descobrimos tudo o que aconteceu na noite passada, mas parece que todo mundo ainda guarda os seus segredos. Fiquei surpreso positivamente com a condução do roteiro até aqui, e espero que continuemos com essa qualidade até o fim da temporada. Vida longa à HTGAWM!

Alegações finais

– Prêmio de Melhor Maneira de Passar Bom Ar na Casa Sem Que a Visita Perceba vai para Asher pela outstanding performance de tossir junto com o spray. Genial!

– “Não somos más pessoas, depende para quem você faz essa pergunta” virou a frase da minha vida.

– Um pequeno detalhe que permeia toda essa noite de sexta-feira com um belo assassinato para realizar e limpar as evidências: na segunda-feira, temos provas finais! Estudar com casos práticos (quem nunca? #3).

– Diz ai Wes o que você vai fazer? Eu vou dar uma trofeuzada pra me defender. Ele vai dar uma trofeuzada no marido dela, ele vai dar uma trofeuzada no marido dela. (Eu precisava deixar registrado isso.)

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Bom, voltaremos lá no dia 29/01 com mais série e mais reviews, espero que estejam gostando da cobertura! Devo voltar em algumas aparições no SM, mas, se não, desejo uma boa virada de ano a todos! Espero vocês na segunda parte da primeira temporada, bem acompanhados de mais falsidades, mais segredos, mais mistérios, Viola Davis, Keating’s 5 e Marcia Gay Harden! Vem 2015! Até lá!

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