Um dos momentos mais esperados da série.

É comum nos emocionarmos ao vermos uma cena na televisão. De todas as séries que já vi, a proposta de casamento de Chandler para Monica, em Friends, é a única que me fez chorar em cada uma das centenas de vezes que a vi. Existem diversas maneiras de provocar emoção, desde as mais imprevisíveis, como uma eventual identificação individual de uma pessoa por um personagem ou situação, até as mais elaboradas, que buscam atingir todo o público através de diversos recursos que provocam lágrimas de forma que o espectador sequer perceba que está sendo manipulado (em um bom sentido, claro). Em séries de TV, isso passa por um longo caminho de conhecimento dos personagens envolvidos. Mas e quando só conhecemos metade da história? Como criar um momento emocionante nesse caso? É a pergunta que The Lighthouse responde de forma sublime.

Escrito por Rachel Axler e dirigido mais uma vez por Pamela Fryman, o episódio se passa durante a manhã do sábado que antecede ao casamento de Barney e Robin. Por conta de eventos passados, a noiva e Loretta continuam brigadas, criando um inferno astral para Barney, flagrado no meio da situação, que envolve até uma intensa disputa envolvendo ovos mexidos (o melhor prato de café da manhã do mundo, diga-se). Enquanto isso, Ted quer conhecer um romântico farol em Farhampton, mas é aconselhado a não ir por estar sozinho, o que leva Lily a dar a ele um péssimo conselho. Já Marshall passa por Cleveland enquanto briga com Daphne.

Note como The Lighthouse é diferente de No Questions Asked no que diz respeito à forma como é encaixado na temporada. Enquanto este jamais soa integrante do fim de semana do casamento, o episódio desta semana se mostra inserido no contexto sem que isso necessariamente signifique que todas as tramas tenham relevância para os arcos de cada personagem. Dessa forma, o vemos como componente de uma ideia que já aceitamos desde o season premiere, inevitavelmente conferindo maior fluidez e acepção ao que é visto em tela.

Dessa forma, é muito mais simples para que o humor do episódio funcione. E é através de piadas notadamente exageradas que HIMYM cria momentos cômicos sem que isso se torne artificial, seguindo a tendência da temporada em apostar em situações sempre próximas ao non-sense, como os pedidos de todo o salão pelos ovos mexidos de Loretta, resultado provavelmente do fato de contarmos com um narrador não-confiável que reconhecidamente floreia suas histórias. Aliás, o momento em que Barney comenta sobre a experiência de ouvir o “Dark Side of the Moon” enquanto come os ovos de sua mãe é especialmente cômico. Bem como o retorno da piada mais repetida da temporada, mas que continua funcionando perfeitamente: “Thank you, Linus”. No único momento do episódio em que ela se tornaria óbvia a série consegue se desvencilhar do problema insinuando a ineficiência do pobre garçom.

No entanto, The Lighthouse tem seus problemas. Mais especificamente um: Marshall. Em geral, HIMYM tem sido competente em lidar com a ausência do personagem, mas aqui ele se mostra completamente à parte, o que desperdiça os retornos dos pais de Ted, por exemplo. Em outras palavras, enquanto acompanhamos desenvolvimentos importantíssimos acontecendo em Farhampton, seria difícil engajar com piadas envolvendo esse arco ainda que estas fossem muito bem elaboradas (não são), o que acaba por prejudicar o personagem, cuja dinâmica com Daphne já começa a ficar cansativa.

No que diz respeito a Barney e Robin, The Lighthouse novamente procura se diferenciar de seu antecessor. Apesar de os conflitos entre o casal funcionarem até certo ponto da temporada, HIMYM precisava fazer algo além disso, e a briga entre a noiva e Loretta funciona muito bem nesse aspecto, já que é feliz em ressaltar o fato de que os dois são feitos um para o outro sem necessariamente fazê-los brigar, o que acaba gerando um divertido flashback que conta como Barney soube do problema de Robin sobre ter filhos.

Aliás, essa trama acaba por ser importante para Robin individualmente. Se o pouco conhecimento que temos sobre sua mãe é divertido para o espectador por conta da forma como a série lida com isso, o episódio deixa claro que para ela não é. Assim, o roteiro é feliz em criar um momento em que a coloca em posição fragilizada e aberta a uma maior receptividade por parte de Loretta, encerrando o conflito entre as duas de maneira surpreendente, mas não menos feliz, como não poderia deixar de ser.

Mas é Ted quem é o grande protagonista de The Lighthouse. Durante toda a trajetória do personagem, sabemos de todas as suas decepções e do quanto certos símbolos são importantes para ele. Por isso, o discurso irritado de Lily, que o manda para o farol com Cassie mesmo que ele saiba que ela não é a garota certa para aquilo, em parte traduz todos os anos em que o público praticamente o mandou fazer o mesmo. E o desastre total em que isso se transforma é ainda mais emblemático, simbolizando a tragédia amorosa que é a vida de Ted, personificada na figura de uma inocente garota que nada tem a ver com o que fizeram Stellas da vida.

E, depois de todo esse desastre, da deturpação de mais um símbolo romântico para nosso protagonista, HIMYM nos leva a um ponto no futuro, em que ele está no farol por uma segunda vez. Nele, Ted e a Mother, já namorados, estão juntos em uma situação diametralmente oposta ao que vemos com Cassie, uma bela forma de aproximá-los sem nenhum desenvolvimento prévio, contando com a ajuda da excelente química entre Josh Radnor e Cristin Milioti. Ali, o espectador é surpreendido com uma proposta de casamento, arrepiante por se tratar do desafogo de um personagem pisoteado pelo destino, e ainda que mal tenhamos visto a pessoa que está ali para responder um empolgado “sim” antes mesmo que a pergunta seja feita, a conhecemos de longa data pela forma que o mesmo Ted se referiu a ela nestes oito anos e meio.

Maldito cisco no olho.

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