É hora da vergonha alheia e do shock value.
Depois de um episódio tão insosso e incoerente como o da semana passada, era difícil ter muitas expectativas em relação ao futuro de Hostages – o que às vezes ajuda bastante, pois, dada a baixa antecipação, o que é “mais ou menos” pode até virar “bom”. Mas, após os quarenta minutos de melodrama e falta de originalidade de 2:45 PM, não tem como mudar de opinião e levar o show a sério.
Primeiro, fiquei bastante incomodado com a insistência da produção em querer emocionar o tempo todo – até parece que estou assistindo a uma reportagem do Domingo Espetacular. É difícil se emocionar quando não deu para se envolver com os personagens, de tão rasos que eles são. E quando eu digo que o episódio inteiro foi recheado de momentos tocantes (só que não), não estou exagerando. Teve Brian abraçando o filho e dizendo “tamos aqui pro que der e vier”; teve Ellen contemplando as flores da falecida amiga Ângela (quem se importa com essa avulsa?); teve a mãe de Ângela abraçando Ellen; teve Morgan e Jake dando as mãos em frente a estação; teve aquela última ligação de Ellen para o marido. Quanto melodrama, meu santo.
Mas se isso já não fosse o bastante, fomos presenteados com vários flashbacks inúteis ao longo do episódio. Miraram em “aprofundar os personagens”, acertaram em “encher linguiça”. Essa a impressão que deu quando mostraram o momento em que o casal comprou a casa (e daí?), ou quando Ellen conta para Ângela e Brian que vai operar o presidente. Totalmente dispensável.
Aí, um adendo: onde que sua esposa fala que vai operar o presidente dos Estados Unidos e você responde “nah, faça isso não, vai ocupar muito nossas vidas, vão mexer no nosso passado!”. Sério? A intenção da série foi mostrar que Brian estava com medo de ter seu affair descoberto, mas ninguém reage assim diante de uma notícia tão grande! Pensa de novo: sua esposa vai operar o presidente e você não comemora, não muda o semblante, não fica sequer impressionado? Oi?
Agora, façamos um balanço: os flashbacks serviram para adicionar alguma informação importante? Resposta: sim, eles mostraram como a produção pode ser brega, ao mudar a fotografia para tons de bege e cinza nesses momentos – que nem as novelas da Globo na década de 80, sabe?
E quando o episódio não estava tentando emocionar, ele estava chamando o espectador de burro. Sim, B-U-R-R-O. Com todas as letras. Porque a única explicação para tanta previsibilidade é a produção achar que quem está assistindo não sabe ligar dois pontos. Vejamos: o capítulo começa com o plano que Brian apresentou no capítulo passado, de servir de isca para o resto da família fugir, pois é o mínimo que ele pode fazer depois de ter traído a mulher (?) – coisa que Drª Sanders concorda numa boa (“olha, não pense que isso é porque estou com raiva de você ter me traído, mas ok, fique de isca e morra que eu vou pro Canadá”, disse ela – praticamente). Vamos lá:
– Momento choque velho: Ellen finge que se queimou com os muffins, mas era tudo fingimento! Cho-ca-do (not)! A danadinha aproveita que Duncan vira de costas e pega um bisturi.
– Momento vergonha alheia: Ellen vai deixar as crianças na escola e conta todo o plano. Aí Jake, esperto todo, pergunta: e os chips nas nossas costas? É quando Ellen faz uma cara de “ah, bobinho, eu já pensei em tudo” e, simultaneamente ao ato da médica tirar um bisturi do porta-luvas, toca aquela trilha clássica de suspense de filme B. Sério, tive que parar para respirar por conta da crise de riso instantânea! Principalmente pela cara de “nãããããããããããoooooo” que o irmãozinho banana fez depois. Palmas lentas.
– Momento vergonha alheia nº 2: Jake, aproveitando-se da sua posição de drug dealer bad ass, obriga um avulso que lhe devia dinheiro a plantar um falso rumor de bomba na escola. “Como você conseguiu isso?”, pergunta a irmã. E aquele frangote com cara de choro responde: “Eu não uso drogas, Morgan” – pausa dramática – “eu vendo drogas”. BOOM! Cada série tem seu “I am the one who knocks!” que merece, não é mesmo?
– Momento choque velho nº 2: as contas da família estão bloqueadas (por que né, Duncan & Cia são poderosos tem influência em toda e qualquer corporação), aí Brian tem que se virar para arranjar dinheiro (pegando da gaveta da amante, claro). Aí ele pede para a biscate deixar o dinheiro em um lugar previamente acordado com a esposa. O que eu achei que ia acontecer: esposa e amante vão se encontrar. O que aconteceu: isso mesmo, claro. Foi tenso ver as duas se confrontando? Não.
– Momento choque velho nº 3: Archer, o sabidão, já está sacando tudo e pede para ver o que Brian carregava no terno, pois demorou tanto para sair do banco. Só que o seriado fez questão de me mostrar o mesmo Brian pedindo um envelope 30 segundos antes – onde obviamente ele colocaria documentos avulsos para despistar seu sequestradores.
– Momento “are you kidding me?”: a equipe de sequestradores é mega fodona, mas não percebe que Drª Sanders anda dando umas fugidinhas entre as cirurgias. Se, no episódio passado, deu tempo de ela conversar com Sawyer, agora ela foi na loja de penhores da vizinhança (?) vender seu anel de noivado. Bom trabalho em vigiar os reféns, ó. Depois, Archer já desconfia que Ellen esteja aprontando, mas deixa ela ir lá no café da esquina. Sério, gente, mas que sequestrador gente boa!
– Momento choque velho nº 4: sai um carro disparado do hospital e todos os sequestradores se mobilizam para ir atrás dele. Meu Deus, vão pegar a Ellen! Não, por que desde o começo do episódio, Brian repete que vai ser a isca. Assim, foi uma grande surpresa (not) ver que era ele quem estava no carro.
– Momento “are you kidding me?” nº 2: Ellen é procurada por toda a cidade e já chega atrasada na estação, com os filhos desesperados e o ônibus quase saindo. Mas claro, sempre há tempo para uma última ligaçãozinha para o celular do marido – ela nunca poderia fazer isso depois de ter entrado no ônibus, não é mesmo? E pra que todo aquele cuidado de ligar para o colega de trabalho para não ser rastreada, só para depois ligar para o número de verdade?
Depois de tudo isso, vem o grande cliffhanger: Duncan dá um tiro em Brian, para a esposa ver, e ainda solta o grande cliché de “seu marido ainda está vivo, mas eu não tenho ideia de quanto tempo ele irá aguentar. Agora é com você, doutora.” – só faltou a risada maléfica. Mas vem cá, Hostages, ainda é o quarto episódio e você já está repetindo plot? De novo atirando no Brian para não matá-lo? Supostamente eu tenho que ficar apreensivo, achando que ele vai morrer? AH VÁ. Obviamente, Ellen vai desistir do plano e voltar para o marido – que continuará “vivinho da silva”, pois, como sabemos, os sequestradores são muito bonzinhos e incapazes de matar alguém. Nossa, que emocionante.
Observações:
– A equipe de maquiagem da série não se deu ao trabalho de rejuvenescer os atores nem um diazinho sequer no flashback da compra da casa. Produção caprichada, é isso aí.
– Por que os personagens sempre falam em “serviço secreto” e não em CIA? É um pequeno detalhe, mas acho estranho eles repetirem FBI o tempo todo, mas não mencionarem as três letrinhas da agência de espionagem nem por um decreto.
– Para não dizer que eu só reclamei de tudo, nesse episódio quase não falaram do assunto gravidez adolescente. O que é sempre bom, pois Hostages já extrapolou sua cota de draminha.
– Adoro quando Hostages dá uma de Três Espiãs Demais e mostra uma legenda com o nome dos lugares. Claro, o espectador não é inteligente o suficiente para perceber que um prédio grande parecendo com um hospital é, de fato, um hospital…
– Nina, a esposa de Duncan, não estava prostrada numa cama, em coma? Como assim ela me aparece saltitante, corada e maquiada arrumando as malas do hospital? E mais: para que mais esse arco dramático? Custava deixar a mulher em coma a temporada toda? Ah, não, tinha que ter o momento emoção de “eu vou viver minha vida antes que seja tarde, Duncan”. O que não pode, pois se ela sair do hospital todo o plano vai por água abaixo (?????). Mas nada é problema para Super Duncan, que inventa uma terapia experimental e convence a esposa a ficar no hospital, assim, fácil, sem nenhuma pergunta mais.
– Se cliché pouco é bobagem, o roteiro resolve esticar a história de Ângela, que agora envolve uma investigação interdepartamental. E quem foi requisitado pelo ~serviço secreto~ para fazer essa investigação? Alguém arrisca o chute? E, mais, alguém acha que Ângela morreu mesmo?
– Uma dúvida aflige minha cabeça neste momento: quem ficou cuidando do cachorro? Torcendo para os sequestradores gente boa terem pelo menos deixado ele com a vizinha antes de sair atrás da doutora, coitado.
– Estou aqui essa semana substituindo a Raquel de Meneses e, após terminar o texto, desejo uma coisa a ela: força, colega, pois não é fácil fazer review de uma série tão boa!















