A Kalindanização de Carrie.

Eu posso ser um reviewer, mas antes disso eu sou um espectador. Quando a gente começa um trabalho de crítico ganha uns vícios, uma dificuldade de distanciamento que precisa ser equilibrada para garantir a totalidade da experiência. Eu me lembro que na ótima quinta temporada de The Good Wife, travei batalhas ferrenhas com outros fãs, por não concordar com os métodos mesquinhos de Kalinda para conseguir o que queria. Para garantir a posse de informações, ela usava de sexualidade e manipulava suas relações de amizade, sendo festejada por isso pelos fãs, que, obviamente, reconhecem o imenso valor que tinha a personagem. Minha discordância partia apenas de um princípio básico: Se ela enganava e manipulava com sexo, acho que pode fatalmente ser superada por quem consegue o mesmo sem precisar ultrapassar esse limite. Kalinda é uma ótima personagem, mas não é a melhor investigadora.

Na review anterior de Homeland eu falei do meu medo de que, novamente, Carrie usasse o sexo para ganhar confiança. Provavelmente a imagem dela seduzindo o menino Aayan incomodou alguns leitores, que reagiram com eloquência e disseram que meu apontamento era absolutamente descabido, e que ela estava apenas flertando para conseguir o que queria. Bom, o flerte virou investida sexual estabelecida e mesmo que isso componha um quadro coerente do que Carrie foi capaz de fazer com Brody, não posso deixar de achar essa uma saída fácil, previsível e lamentável. Ao mesmo tempo, sigamos com o projeto Carrie Sem Fronteiras, onde absolutamente todas as ações da personagem são justificáveis pela doença ou pelo simples estabelecimento de que o que ela faz, sempre será incrível.

É uma cilada falar a respeito, porque como podemos culpar uma agente de ir pra cama com alguém que tem informações necessárias para a segurança nacional? E Carrie ainda tem o agravante de agir por si mesma no meio dessas éticas de proteção mundial. Eu me arrisco, inclusive, a dizer que ela pode chegar a usar a ideia de “fazer um sacrifício” apenas para justificar a vontade de ir pra cama, de fazer sexo, assim mesmo, pelo sexo. Não é como se a coisa toda fosse absolutamente errada, mas não consigo deixar de me perguntar o tempo todo se é a coisa certa. No fim das contas, Carrie usa o termo “Iron in the Fire” para representar a imprevisibilidade de Aayan, quando efetivamente, essa seria uma ótima forma de sintetizar a própria série.

Deixando tudo isso de lado, temos dois aspectos interessantes do episódio para comentar. O primeiro é a rede que circula a morte de Sandy. O marido da embaixadora virou um personagem importante no meio dos segredos e seguimos com maridos e esposas de cargos de autoridade, dando um jeito de ferrar com tudo. Achei particularmente interessante o diálogo de Saul com o “General Bunny”, que desacredita na realidade do 11/9 e irrita o outro com essa tolice conspiratória. Também me aborreço bastante com teorias de que os ataques foram planejados pelos próprios EUA, mas não posso deixar de achar irônico que Saul queira desvendar uma conspiração que, para o lado oposto, soa igualmente tola. Chega a parecer um pouco confuso, já que a morte de Sandy parece ter sido conveniente para quem ele defendia e inconveniente para quem ele atacava.

Outro ponto curioso é Haqqani estar vivo. Isso coloca Carrie em mais maus lençóis ainda. De fato, o ataque que ela ordenou acabou não atingindo o alvo. Se os remédios são apenas uma tentativa de proteger um parente, Carrie pode estar seduzindo Aayan para arrancar dele algo que ela já sabe: que Haqqani vive. O garoto pode, enfim, não ter mais nada a oferecer a não ser a localização do terrorista. É grande coisa, claro, mas que novamente, me parece bastante possível de ser alcançado sem que ela precise atravessar esse limite. Enfim, não quero parecer moralista, definitivamente, mas algo me soa desconfortável no meio disso tudo.

Semana que vem vamos descobrir se Carrie vai ou não continuar essa brincadeira. Eu realmente não acredito que ela vá se apaixonar pelo garoto, mas consigo compreender as hesitações de Fara e Quinn. O projeto Carrie Sem Fronteiras pode ser dramaturgicamente ousado, mas a personagem vai pagar um preço por isso. Só espero que o destino dessa temporada não seja pautado pela exploração descabida dela… Homeland é Carrie, mas não é só Carrie.

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