Na dúvida de se escolher um caminho, escolha o mais fácil.

 Spoilers Abaixo:

Antes de começar o review de Homeland eu pensei bastante. Revi o episódio, tentei me livrar de toda bagagem que poderia interferir no meu julgamento. Levei em consideração também o que o SérieManíacos poderia sofrer diante do que fosse escrito… Eu também tinha uma escolha. Escrever sobre os 15 minutos finais de ação, elogiando e exaltando a “coragem” da série, me salvando de maiores transtornos e evitando xingamentos mais exaltados. Ou poderia escolher o outro caminho, aquele que se arriscaria a realmente analisar os fatos, e o embuste preparado por roteiristas que temem seguir em frente, e apenas reciclam a mesma ideia de quando essa série nasceu.

 Eu não costumo ser hesitante, mas como vocês têm acompanhado, com Homeland eu tenho sido. E meus medos se confirmaram diante desse final. O que eu esperava era uma pista do futuro, e o que mandaram foi uma confirmação do passado. Numa temporada que, inexplicavalmente, valorizou ao máximo o romance dos protagonistas, a finale passa mais de 20 minutos de seu tempo sublinhando essa relação. Foram tantos beijos, risos, confissões, declarações de amor… Ou a série tinha virado uma história do coração, ou essa era uma maneira nada disfarçada de anunciar grandes tragédias.

O que provoca a hesitação da crítica é exatamente esse cheiro de tensão no ar. Homeland consegue entregar bobagens, mas ficamos desarmados pela atmosfera de medo. Por mais que eu virasse os olhos de pavor para todo aquele love story, algo se preparava para acontecer, e por causa desse algo seguimos em frente, acreditando e nos envolvendo. Mesmo que precisemos nos perguntar de verdade se esse “algo” ainda está valendo a pena.

Quantas vezes vimos, nessa temporada mesmo, Brody passar de aliado a detentor das maiores dúvidas? Quando o capítulo Abu Nazir se encerrou, encerrou-se também esse ciclo vicioso. Era hora de seguir em frente, uma vez que o personagem não podia passar mais tempo dentro dessas mesmas motivações. Pegar outras vias era o caminho mais difícil, porque essas vias incluíam eliminar a dinâmica que deu certo. Mas por favor pessoal, estou tão louco assim em me perguntar se quero passar mais uma temporada com a dúvida de se Brody é mesmo um terrorista ou não? Ao que parece, os roteiristas resolveram não tomar o caminho mais difícil… Ou até tenham resolvido, mas não puderam ser mais claros, infelizmente.

Acredito na culpa de Saul, e essa sim, teria sido uma grande decisão. Ficou implícito para alguns e explícito para outros, mas estava ali. Estava nele indo ao enterro do terrorista, estava no jeito que falou com Carrie, estava na última cena… Um season finale, porém, pede clareza nas mudanças significativas, e por causa da falta delas, fica até difícil dar essa questão como resolvida. Saul pode voltar simplesmente como o chefe, e esse ser seu grande plot no ano que vem. Ao lado do outro grande plot central: a perseguição à Brody.

Falei isso em voz alta e não soou bem. Se os momentos melados dele com Carrie no início me irritaram, a despedida na hora da fuga foi quase insuportável. Agora Homeland é uma série sobre o amor impossível. Sobre dois amantes que não podem ficar juntos, e que se renunciam por amar demais. Até o titulo remete a uma escolha a ser feita em cima dessa relação. Quando penso no quanto teremos que lidar mais ainda com isso no ano que vem, me dá um nervosinho interno. Escolheram tudo que era mais fácil: o retorno da dúvida sobre Brody, o retorno da situação com sua família, a sobrevivência dele para viver a mesma história… Não podemos nem dizer que ser um fugitivo é uma coisa nova, porque não é. Ele sempre esteve fugindo de alguma coisa, agora só estamos diante de outra variação disso.

E nos textos que leio só vejo menções ao quanto foi incrível o momento da explosão. Sim, foi incrível, mas foi o suficiente para salvar todo o resto? Foi o suficiente para salvar o cérebro de Quinn de só ter começado a funcionar na hora do tiro? Foi o suficiente para negarmos a maneira estúpida com a qual Carrie e Brody se retiraram da cerimônia antes do atentado? Foi o suficiente para apagar a sensação de que tudo agora é sobre o amor desses dois? Não compreendo porque Homeland precisa ter um casal à frente de todo o resto… Não entendo porque Homeland precisa passar mais tempo focando na dúvida sobre Brody. Não há mesmo, mais nada que se possa fazer?

Por um momento, enquanto via Walden e Nazir sendo enterrados ao mesmo tempo, pensei no quanto seria incrível se a série fosse sobre as analogias entre eles. Um Brody vice-presidente, simpatizante das causas terroristas, rivalizando com decisões drásticas, manipulando o sistema… Com uma Carrie como sua maior e mais implacável rival. Bons sonhos pra nós… Na review passada fui acusado de só pensar “no que a série poderia ser”. Não é justo… Amei com todo coração cada momento de genialidade do programa. Basta ler textos antigos e procurar. Mas diante dos acontecimentos, que mais posso fazer? Talvez vocês tenham razão… Sim, vocês têm. Eu só consigo pensar no que a série poderia ser, porque ultimamente, quase todo posicionamento positivo sobre ela, só se baseia no que ela já foi.

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