Em diversas entrevistas e palestras, Milton Hatoum, autor de Dois Irmãos, o romance, fala bastante sobre arquétipos dentro de sua obra. Assim como cada detalhe sobre a trama foi pensado (tendo ele, inclusive, feito a planta da casa da história e mantido consigo por muito tempo para se localizar na narrativa — talvez herança de sua formação em Arquitetura), ele criou os gêmeos e as demais personagens como representações distintas e com objetivos claros. A personalidade que cada um adquire não é por acaso e não foi ganhando cor conforme ele escrevia. Como ele mesmo esclarece, entretanto, as personalidade se misturam e muitas vezes um assume o lado obscuro do outro e ambos trocam de polos. O mesmo acontece com o restante. Aproveitando-se dessa riqueza na estrutura de sua história, a minissérie explora bem a dualidade de cada participante desse enredo que o próprio narrador chama de jogo.
O tempo muda tudo. Não deixa nada acumular.
— Dois Irmãos.
A continuação direta do episódio de estreia, que demorou certo tempo para funcionar comigo, foca-se no relacionamento dentro da família principal. Por mais que cubram períodos e acontecimentos distintos, os dois episódios fazem um bom trabalho ao focar em conflitos internos, algo que Maria Camargo, responsável pela adaptação, já adiantara em entrevistas. Explorar essas relações é muitas vezes incômodo, porque muitas decisões entendemos e concordamos — e aquelas que não entendemos, logo admitimos haver por aí quem as tomasse. Na estreia, ficamos sabendo da deterioração da casa onde moram e da própria família, então é para lá que rumamos; mesmo nos bons momentos em cena, sabemos que haverá um final amargo. Isso não tira a importância de trilharmos esse caminho fadado ao fracasso. Por mais que a queda tenha sido anunciada, é também interessante ver como ela se dará e como cada um é responsável por quebrar pelo menos um dos alicerces.

Segundo Episódio
Um dos pontos mais fortes em Dois Irmãos é a capacidade de trocar o foco da história, como se todos fossem protagonistas, ou protagonistas em pontos isolados. Os irmãos permeiam todos os campos, mas às vezes ficamos com a impressão de que é uma história sobre Domingas, por exemplo. Os momentos em que a índia ganha a tela são os meus favoritos principalmente porque ela é uma protagonista improvável dentro da história, não só em questões técnicas e externas, mas dentro da própria narrativa, uma vez que sua personagem fora adotada para viver em uma cabana nos fundos da casa. Logo o foco muda, entretanto, e passamos a visualizar Halim novamente e seu desgosto diante das ações do filho caçula. Rânia, mesmo que mais raramente, também tem seus momentos, principalmente nesse segundo episódio, e contribuiu de forma significativa ao enredo.
Tudo melhora depois de uma guerra.
— Dois Irmãos.
O segundo episódio investe em muitos momentos dentro da casa, deixando a impressão de que o episódio inteiro se passa em seu interior. É uma boa escolha mostrar o quanto a casa é bonita e a representação de cada objeto e cômodo para seus moradores, porque, só assim, depois de visualizarmos o seu auge, é que sentiremos o peso do apodrecimento de suas paredes. A fotografia, que ainda é o ponto alto da minissérie, brinca muito com as cores que podem surgir de cada ângulo da casa, entregando sentimentos em forma de imagem. Exemplo: Rânia não só se veste com roupas claras, mas tem essas cores amenas seguindo-a pelas escadas como forte analogia à ingenuidade da jovem.

Além dessa direção artística vibrante, o texto toma liberdade para acrescentar cenas à obra original. As cenas, momentos raros, são bem-vindas e nunca fogem do que acreditamos ser a proposta da produção. Nesse caso, temos um caso raro em que a adaptação contribui bastante, até porque as lacunas estão lá no texto de Milton esperando algum tipo de preenchimento. Os diálogos se encaixam perfeitamente nas personagens e a cronologia individual criada para a minissérie sabe intrigar o telespectador, por mais que o confunda algumas vezes.
Nesse segundo episódio, ficou evidente a liberdade que cada ator teve para criar sua personagem, principalmente os mais veteranos, que fizeram uma leitura particular a partir de sua visão de quem interpretavam, coisa que também fazemos. Sendo assim, só resta o questionamento sobre as escolhas feitas pelo elenco e se estas couberam aqui. O exemplo mais forte é a Zana histérica de Juliana Paes, que chora o tempo todo, demonstrando um contorno mais emocional dado pela atriz à personagem. Não acho que isso a favorece e suas caretas se tornam cansativas e repetitivas. Antonio Calloni, que interpreta Halim a maior parte do tempo, tem aquela forma de falar com a mão e parece um ator de um gesto só, batendo no rosto de todo mundo; talvez porque isso lhe remeta a um estrangeiro.

Dois Irmãos diz muita coisa somente com as imagens, muita coisa que entendemos sem a necessidade de palavra alguma, como a cena à la Sophie’s Choice de Zana no porto. A cena em questão fez o possível para tentar explicar a razão de somente um dos gêmeos ter viajado, mas engolimos a decisão tanto quanto Yaqub no momento em que parte e durante o período em que se mantem fora. Ele, por sinal, volta pouco aberto ao diálogo, aos pais e à família que o recebe. É de se questionar até que ponto a mágoa desenvolvida em sua ausência ajudou na ebulição que chega seu relacionamento com o irmão. Omar, por outro lado, visto de cima inclusive pela câmera, é aquela personagem criada para não se gostar e nem precisa muito disso. Nesse episódio, ele protagoniza uma cena ausente em tela, mas com efeitos devastadores sobre a vítima: Domingas. A ausência da exibição de cena lembra muito a ausência de um posicionamento dos próprios pais dele sobre a situação. Tudo naquela casa acaba omitido, e os abusos que a índia sofre fazem parte.

O investimento feito na análise das relações entre eles é talvez mais nítido nesse episódio do que no seguinte, não só pela gravidez de Domingas, mas pelas insinuações envolvendo Zana e seus filhos — o caçula precisamente. Essa tensão quase sexual de tão à flor da pele que é entre mãe e filho está no material original e ganha a tela de modo crível e incômodo, assim como deve ser. Não sei até que ponto a minissérie levará esse teor entre eles, mas foi interessante assistir a um vislumbre aqui.
Eu ainda destacaria Zahy Guajajara, que interpreta Domingas, para falar que a escolha da atriz foi bem sucedida. O uso do preto e branco intercalando as cenas quando dados históricos são inseridos é um bom recurso. A nudez é bem usada em alguns momentos para explorar a relação entre Zana e Halim, ponto importante no estudo deles como casal. Há uma cena na praia e uma cena na lagoa e as duas se destacam, por mais que se oponham.

Episódio Três
O terceiro episódio tem uma duração próxima ao anterior, mas é o que faz melhor uso de seu tempo e nenhuma cena é dispensável ou parece muito longa. As brigas entre pai e filho ficam mais sérias e vão crescendo conforme o episódio passa para que aquele final em aberto seja crível. Halim aqui é mais presente e ativo, e agradeço por isso. Enquanto nossa empatia pelo pai cresce, nosso desprezo pelo filho só aumenta, e diversas atitudes durante os cinquenta minutos vão contribuindo para isso.
Domingas, mesmo grávida, é levada de lá para cá e precisa ajudar na casa, e isso não muda muito quando Nael, seu filho, nasce. Ele, narrador da história, nasce filho de uma história que ninguém comenta e que a vizinhança assiste desconfiada. O silêncio sobre o pai da criança, podendo ser de Omar e seu ato desprezível ou Yaqub e seu bom relacionamento com a índia, possivelmente se manterá assim. A primeira coisa que pensamos é que o Caçula deve ser o pai, mas há possibilidade para ambos, mesmo que a minissérie não tenha alimentado bem essa dúvida. A sequência do nascimento da criança, aliás, é muito bonita e talvez a melhor por enquanto.
A esperança e a amargura são tão parecidas.
— Dois Irmãos.
Yaqub é aconselhado por um professor a deixar Manaus porque se continuar a viver por ali será devorado por seu irmão. Já vemos vestígios disso: Omar sente-se dono de tudo e de todos, não aceitando ficar no canto ou ter sua atenção dividida, tanto no colégio quanto em casa. Como não tem a inteligência e o esforço para ganhar o reconhecimento que o irmão adquire, ele usa o charme e a beleza, suas armas.

Algo que não me incomodou tanto aqui porque foi bem mais balanceado foi o uso do narrador. Não me entendam mal, gostaria que Irandhir Santos narrasse até minha ida à padaria, mas nem sempre o narrador é um recurso necessário na história. Em algumas cenas, os dados levantados por ele são importantes, como na da briga, mas em outras é mais que dispensável e acho que a minissérie poderia respirar um pouco longe disso.

O presente avança um pouco, quando vemos Halim em busca de Omar, o que já adianta seu desaparecimento. As cores vibrantes das cenas protagonizadas por Antônio Fagundes no barco dividem o período em uma esfera especial, como se fosse um plano da memória com outras luzes em uma peça de Nelson Rodrigues.
Manaus cresceu assim: no tumulto de quem chega primeiro.
— Dois Irmãos.
Como bônus, ganhamos trechos que falam sobre Manaus, por mais que saibamos que a minissérie não se comprometerá nesse sentido, e trechos que exploram as consequências da Guerra por lá.

Michel Melamed, mais um ator de Capitu a entrar no elenco, foi uma ótima escolha para viver o poeta Antenor Laval, amigo de Omar, e que ganha bastante importância no futuro. Maria Fernanda Cândido faz uma boa participação, mesmo que eu acredite que algumas cenas de sua personagem sobram. Matheus Abreu, que interpreta os dois gêmeos por enquanto, tem bons momentos, mas é um estreante com cara de estreante, e muitas vezes estridente demais.
Dois Irmãos teve um primeiro episódio estranho e que se alongou muito em cenas caricatas demais. Os episódios que deram seguimento, entretanto, tiveram uma edição mais cuidadosa e pouco pecaram, e em coisas que podemos relevar, pois não apagam o brilho de belas cenas ou falam mais alto que uma trilha bem cuidada. O telespectador pode demorar certo tempo para ser fisgado, seja na dificuldade em acompanhar a narrativa ou nos próprios diálogos em cenas inaudíveis, mas uma vez fisgado só poderá definir Dois Irmãos de uma forma: deslumbrante.















![Dois Irmãos 1×10: Episódio 10 [Series Finale]](https://seriemaniacos.tv/wp-content/uploads/2017/01/Dois-Irmãos-1x10-1-218x150.jpg)