Em um pedaço do último texto, eu comentei sobre a responsabilidade que a parte magoada tem ao alimentar uma relação conflituosa. Pareço jogar a culpa para a vítima da história, mas, em alguns casos, não há vítimas ou culpados, mas desentendimentos. Tomando os irmãos como exemplo, fica difícil pensar em quem traiu quem primeiro, principalmente quando adicionamos a garota que, segundo Zana, foi a responsável por começar tudo isso. Se a garota não foi a culpada, talvez a mãe — ou mesmo o caçula. A questão é que o plano de vingança arquitetado na cabeça do irmão mais velho foi alimentado por seu rancor, e ele estava pouco disposto a contribuir para a paz em família.

Yaqub, visto por nós a princípio de maneira tão amena, teve diversas oportunidades para se acertar com o irmão, mas não buscou isso. Ele já estava marcado pela necessidade de provar para os pais e para a cidade que poderia se sobressair. Mesmo em seu acolhimento, voltado aos estudos, ele ajudou a afundar essa relação criando uma distância que nem mesmo os pais poderiam ultrapassar. A indisposição para perdoar e suas decisões refletem alguém que representa tudo, menos a bondade. Não há visão de bondade na série, na verdade, e ficamos presos a pessoas humanas demais, que, por sua vez, estão presas em vidas duras demais e, mesmo com a natureza tão aberta ao redor, não conseguem escapar do desejo individual em transformar tudo ao redor em posse.

Zana, por exemplo, quer que Domingas seja uma posse anunciada o tempo todo, sem nunca perder a chance de estabelecer uma hierarquia na situação. Não só por ser autoritária, mas por ser egoísta. Seu elogio, inclusive, precisa vir acompanhado de uma forma de lembrar aos subordinados que eles não passam disso. Assim os deixa até não precisar mais deles, como vemos no final desse quarto episódio.

Além dessa mistura de personalidades, o que me chamou atenção nessa sequência foi o forte jogo de luz e sombra e, dessa vez, não só visualmente, mas no significado das transições. Dois Irmãos, se olhada de fora, é essa minissérie com decisões duvidosas, principalmente em relação ao casting, mas traz uma história rica que se enriquece a partir de um trabalho estudado das vidas que retrata. A sombra, que foi um elemento bem presente nos primeiros episódios, mostrou sua razão de existir nesse contexto no episódio dessa quinta-feira.

Ao chegar do Líbano, Yaqub se refugiou na sombra do irmão, como fez durante a infância e no começo da adolescência. Omar sempre foi aquele que chamava a atenção de todos, aquele que subia em árvores e desafiava o pai… Sendo assim e sabendo disso, o regressante utilizou desse conhecimento para dar seguimento a seu plano. Sabendo que o Caçula consumiria todo o tempo de sua mãe e da família, ele pôde ficar na paz dessa sombra e se dedicar aos estudos.

Na transição que acontece nesse episódio, e ao ganharmos novos atores, sem que houvesse de fato a necessidade disso, o jogo de luz e sombra reverte seus lados e Omar precisa lidar com a glória do irmão, que o esconde e tira seu brilho. Yaqub foi inteligente, construiu uma imagem, e a construiu distante, onde a família não pudesse alcançá-lo para ofuscar suas conquistas com seus carinhos e suas brigas. Em São Paulo, acompanhando o desenvolvimento do estado e da região, ele atualiza os parentes com cartas, linhas que vão diminuindo ao passar do tempo. Cada nova vitória de sua carreira vai consolidando essa imagem refletida no norte, onde o mito de ser Yaqub se espalha e todos os homens da família se prostram em reconhecimento.

Em seu pequeno reino, enquanto a casa vive seus dias de beleza, Omar abusa da atenção que recebe. O jogo de manipulação entre mãe e filho, e filho e irmã prossegue. Rânia, ainda jovem, após o acontecido com o homem que levara em casa, isola-se na residência e projeta seu carinho e sua relação ideal no irmão. Este a recebe, usa de seu afeto, mas logo colhe lá fora o que lhe falta: a evidência disso está nas cenas com a mulher prateada, quando mãe e filha se sentem traídas, afinal, estão perdendo algo. Na visão delas e de muitas pessoas que conhecemos, se algo não está conosco, é porque o perdemos. Sem muito refletir nisso, as duas guerreiam como podem para assumir o posto soberano na vida do rapaz. Zana é mais prática, expulsa e humilha a dançarina, suborna sua família e fica à espera do filho. O pródigo volta e lá, em sua rede vermelha, explosão de muitos sentimentos que remetem a essa cor, ela o abandona para sofrer e aceitar o próprio destino.

Na nova fase de Dois Irmãos, apresentada no começo do episódio, mais adulta,  cada um está mais perto de reconhecer qual a jornada de suas vidas. Yaqub assume sua grandiosidade, bem suada e construída com cenas muito bregas. Omar assume sua falta de propósito, e Halim desiste dessa guerra com o filho. A minissérie também assume qual a trajetória que pretende percorrer, e quem não se sentiu fisgado até aqui dificilmente será conquistado pelo restante. Nael, sempre à sombra, oferece a narrativa como recompensa aos que estão admirando essa trilha. Fiquemos, então, comentando o que fora visto e o que fora deixado de fora, pois, entre um episódio e outro, podemos assumir o posto de destaque — até a transmissão do episódio seguinte, quando somos jogados nas sombras de ser plateia.

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ps:

A passagem do tempo acontece, mas nunca sabemos a idade das personagens. Podemos chutar algo quando nos baseamos em Nael. Sendo assim, não se passou tanto tempo assim para justificar a troca de atores. É sempre uma alegria ver atores empregados, mas há muitos atores sobrando nesse elenco. Não comentei sobre a atuação de ninguém porque não vi nada que justificasse um comentário. Eliane Giardini é ótima, mas não vi esforço algum para se adequar ao perfil da personagem como Juliana Paes fez. Bárbara Evans protagoniza cenas bem ruins e bregas. O roteiro não fez esforço algum para de fato criar uma personagem à atriz.

pps:

Os elogios à série relevam diversos detalhes, eu sei. Um deles é o incômodo que me traz quando as produções exploram o corpo masculino e o corpo feminino de modo tão distintos. Isso, na verdade, é um problema da indústria em geral, não só da minissérie. Acho engraçado como cada ator pronuncia de forma diferente os nomes Yaqub, Omar e Halim, não sé entre si, mas entre as cenas também.

No livro, o narrador realmente diz que nunca souberam o que Zana disse à mulher prateada. Aqui repetem isso, mas depois da atriz ter berrado naquela altura. Aliás, se a obra original deixou livre para a roteirista criar esse diálogo, por que o primeiro caminho é sempre o de uma fala racista? Pessoalmente, não tinha pensado nisso durante a leitura.

Ah, e a última cena é pavorosa.

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.