O início da transição.
A cena que abre Switch, episódio de abertura da segunda temporada de Better Call Saul, mostra um funcionário da rede Cinnabon conformado com sua situação, habituado a uma rotina em que precisa trocar poucas palavras com outras pessoas, longe de qualquer agito na pequena Omaha. Até o momento em que, por acaso do destino, se vê em uma situação delicada, preso na área de despejo do shopping em que trabalha. Quando finalmente fica livre, o pobre Gene deixa o ambiente, enquanto a câmera lentamente se aproxima da parede em que estivera encostado. Ali, pela primeira vez, podemos ver uma referência ao pseudônimo que dá título à série. “SG esteve aqui”.
Esse momento dá o tom da temporada e do episódio, e serve como contraste para outras situações vistas nos minutos que seguem. Como já vimos na primeira temporada, Gilligan e Gould gostam de criar no espectador a visão futura de Jimmy McGill, já em sua era pós-Saul Goodman. Ali, Thomas Schnauz, diretor e roteirista, segue o padrão estético do piloto, exibindo os acontecimentos em Omaha de forma monocromática, o que reflete o semblante melancólico e saudoso visto no rosto de Gene. Schnauz também cria um momento de agoniante tensão enquanto mostra seu protagonista indeciso entre esperar que uma boa alma o resgate e sair pela saída de emergência, o que fatalmente resultaria na indesejada presença da polícia no local. Gene, então, opta por permanecer mais 40 minutos em absoluta solidão.
Este é, aliás, o principal tema de Switch. É verdade que a história faz parte de um longo processo que levará à transformação definitiva de Jimmy McGill em Saul Goodman, mas para isso a série utiliza alguns parâmetros importantes que definem seu protagonista. Logo após a cold open, vemos Jimmy diante da oportunidade de sua vida em termos profissionais. Seu primeiro instinto, no entanto, é perguntar a Kim se essa suposta evolução significaria alguma coisa para o futuro dos dois como casal. Ao ouvir a resposta negativa, logo trata de recusar a proposta.
É esse momento que estabelece Kim como pivô do episódio. Até a última temporada, Jimmy tratava Chuck como seu porto seguro, baseando suas decisões de vida em virtude da aprovaç ão do irmão. Após esse tê-lo decepcionado definitivamente, o advogado se vê livre de seu fardo. É exatamente por isso que o vemos flertando com Slippin’ Jimmy, vigarista citado inúmeras vezes como um grande peso no passado de Jimmy. No entanto, ao vermos o personagem relaxado em uma piscina intensamente azul, percebemos que essa é de fato a primeira vez que o vemos genuinamente feliz. Aqui, novamente Schnauz faz um grande trabalho utilizando um contraplongée que evidencia que Jimmy não está cercado por ninguém, sozinho em um ambiente repleto de cores vivas.
Até que Kim ressurge. E, para mostrar para ela, como é o seu conceito de liberdade e felicidade, resolve aplicar um golpe em Ken (aquele, que tem sua BMW queimada em Breaking Bad). Por um momento Jimmy McGill acredita que poderá ter de tudo. A garota de seus sonhos e a vida vadia com a qual sempre se encantou. Não é por acaso que ele deseje tanto guardar a rolha da tequila bebida na noite anterior (outra referência a Breaking Bad), como um símbolo de seu recomeço. É também por isso que o vemos empolgado estudando sua próxima vítima enquanto manda animadamente correios de voz para Kim, como uma criança que acabou de aprender um jogo novo e não quer parar de jogá-lo.
No entanto, da mesma forma que acontecera com Chuck, Jimmy se revela extremamente inseguro com relação a Kim, o que se torna evidente pela insistência em ligar para explicar detalhes irrelevantes de sua ligação anterior. Ali, ele percebe que, se quer de fato ter uma chance de um relacionamento com ela, precisa voltar a ser o advogado que, segundo ela, tem muito talento. É interessante como Better Call Saul trata esse acontecimento, trocando as cores vivas da piscina pela monotonia dos ternos da firma de advocacia. Schnauz também substitui a leveza e o espaço em torno de Jimmy por uma situação em que ele se vê cercado de pessoas.
Mas há uma diferença capital. Se antigamente Jimmy era apenas um golpista sem futuro, agora sabe fazê-lo com autoridade. Mais do que isso, pode aliar Slippin’ Jimmy, vigarista, a Jimmy Mc Gill, advogado. Essa combinação, já sabemos, resultará no brilhante Saul Goodman. Nesse momento, contudo, ele está apenas testando os limites de estrapolação das regras. Sua primeira ordem em seu novo escritório é trocar sua monótona escrivaninha por uma de cocobolo, que já havia sido mencionada em Bingo. Mantém, no entanto, o quadro que espelha sua posição invertida no plano que antecede a essa cena, e que insiste em aparecer como se Schnauz frisasse que a situação de Jimmy está, literalmente, de ponta cabeça.
Logo depois, o momento mais sagaz da cena. Ao ver um interruptor com um aviso para que nunca seja desligado, Jimmy, mais uma vez testando os limites das regras, não titubeia e o desliga. Nada acontece. A situação, que encerra Switch (que pode significar interruptor em inglês), é literalmente o símbolo do episódio. Além de ser uma evidente alegoria da mudança de atitude de Jimmy em direção a Saul, revela um gosto do personagem por contrariar as regras e, mais do que isso, sair totalmente impune. A falta de consequências do ato diz a ele que é possível agir às margens da lei sem necessariamente sofrer com isso.
Nesse ponto, é importante voltarmos um pouco e trazermos a história de Mike e Daniel Warmolt. Na primeira temporada, fica claro que o personagem de Jonathan Banks é o elo criminoso da série, pelo menos por enquanto. Claro, em Switch, Mike serve somente como pretexto para que Better Call Saul conte a história de outro criminoso. O episódio faz questão de mostrar Daniel como um fora da lei inconsequente que acredita estar acima do mundo. Para isso, extrapola fazendo com que o personagem se revele com uma extravagante Hummer e um par de tênis que parece ter saído de um comercial do McDonald’s. Quando ele se encontra com Nacho para fazer a transação, Schnauz utiliza um plano abertíssimo para evidenciar o quão destacada é o carro de Daniel.
Da mesma forma, as cores vermelha e amarela praticamente gritam aos policiais que há algo errado, já que destoam completamente do padrão entediante da casa e das roupas do pobre profissional de TI. Aliás, a falta de cuidado de Warmolt contrasta com a primeira cena do episódio. Lá, Gene/Saul/Jimmy estuda cada um de seus passos, preferindo ficar 40 minutos sozinho a correr o risco de ser pego pela polícia. Já Daniel, inexperiente e consideravelmente estúpido, se apega a suas cartas de beisebol e praticamente implora para ser pego transgredindo as regras.
A mensagem aqui é clara. Há dois tipos de criminosos. Os inteligentes o suficiente para testar os limites de sua impunidade, e os que acreditam estar acima de tudo, e acabam atrás das grades por isso. É nítido o caminho que Better Call Saul entende como correto, e o que Jimmy está prestes a seguir.
Assim, se S.G. esteve em Omaha, é evidente que S.G. nasceu em Switch.













