Sambando na cara das séries jurídicas.

RICO é sem dúvida nenhuma o episódio mais impressionante e satisfatório de Better Call Saul no quesito advocacia.  Quando as primeiras informações sobre a série começaram a flutuar na rede após o final de Breaking Bad pouco se sabia sobre o rumo que essa prequel/spin-off, mas o sentimento principal é de que teríamos duas coisas: comédia e assuntos jurídicos.

Esse episódio nos oferece doses cavalares de ambos e surpreende por se enveredar em um gênero muito clichê da televisão americana sem perder um pingo sequer de originalidade por causa disso. A construção lenta e progressiva do “caso da semana” é feita com esmero, os detalhes são criativos e bem construídos e o desenvolvimento dos personagens acompanha tudo sem perder o passo. É, talvez esse seja o melhor episódio de Better Call Saul até agora.

Uma das coisas que me fascina nesse prisma jurídico da série é como ela se dedica a analisar casos totalmente fora do padrão normal da televisão americana. Testamentos? Idosos numa casa de repouso? Fraude através de papel higiênico? Quando supomos por um momento que ninguém se interessaria por isso BCS comprova que um roteiro afiado e doses cavalares de pura criatividade conseguem construir tramas interessantes a partir de qualquer coisa.

Essa epopeia na qual Jimmy e Chuck se metem juntos também nos ajuda a entender os personagens de forma muito melhor. Com a ajuda de um flashback no início do episódio os showrunners nos apontam para um fato que já podia ser percebido em outros episódios: ninguém acredita em Jimmy. Kim, Chuck e Hamlin têm a chance em RICO de depositar um voto de confiança no personagem, mas nenhum deles se anima a fazê-lo. Desde quando McGill era um estagiário entregador de correspondências na firma do irmão as pessoas esperavam menos dele, mas guess what? Jimmy compensa tudo com esforço, sendo passando anos cursando direito à distância ou organizando filetes de papel sulfite. Ele possui lábia, um detector de falcatruas hipersensível e aplicação invejável. O problema é que ninguém põe fé no personagem.

Por isso mesmo é agradabilíssimo acompanhar Jimmy desvendar um caso sozinho e impressionar a todos com sua astúcia. Chuck fica visivelmente perplexo com a sujeira que o irmão consegue desenterrar sobre o retiro dos idosos e resolve ajudá-lo. Os dois trabalham juntos e Chuck até se esquece por alguns momentos de sua “doença”, provavelmente esbarrando na possível cura: trabalho.

Em meio a essa trama incrível somos ocasionalmente transportados para a narrativa de Mike. É um pouco anticlimático, e continuo sendo da opinião que o personagem funciona melhor em contraste com Jimmy, Walter ou Jesse. Mesmo assim não deixa de ser animador ver Mike de BCS iniciar sua jornada em direção ao Mike de Breaking Bad, ainda por cima utilizando de um improvável contato com o veterinário e eventual médico que atendeu-o quando foi baleado.

É relevante abrir um parênteses aqui para discutir quais serão os destinos de BCS se a série resolver enveredar também pela trama criminosa de Mike. Imperiosamente o personagem terá que conhecer Gus em algum momento, e Gus não poderá conhecer Jimmy. Como seria essa dinâmica de duas plots diferentes que não poderiam se cruzar numa mesma série? Será que preferirão deixar Gus de lado?

Essas questão assombram BCS e possuem peso muito maior quando olhamos para trás: tramas picotadas e nenhum arco principal na temporada. A série não se prende a uma única narrativa e mesmo assim consegue estabelecer uma plot totalmente nova em seu antepenúltimo episódio e não passar a impressão de que estamos assistindo um filler. A estrutura da série é mutável e imprevisível, e mesmo sabendo que eu já mencionei isso na última review quero direcioná-los para esse pensamento. Better Call Saul está desprezando todas as regras de como se estruturar uma temporada e está arrasando nisso.

A perspectiva que temos agora é de dois episódios finais lidando com essa trama do retiro de idosos e possivelmente a sequência da história de Mike na máfia (?). Mesmo assim tenho quase certeza de que outra plot ainda surgirá inesperadamente no meio do caminho. Façam suas apostas.

Bullet Points 

– Nesse episódio fica difícil de culpar Jimmy por tomar o rumo da advocacia de porta de cadeia, não? Seu talento e seus esforços são ignorados a todo momento pois as pessoas se recusam a vê-lo como alguém capaz de alguma outra coisa, ou até mesmo são incapazes de visualizá-lo em outro emprego, ambiente ou patamar econômico. Isso me faz lembrar dos problemas que Kanye West, um dos artistas que mais estou ouvindo e gostando ultimamente, teve para iniciar sua carreira de rapper quando os membros de sua gravadora o viam apenas como um produtor simplesmente porque ele não tinha a “persona criminosa” tão popular para o estilo naquela época.

– Atenção caros shippers que rolou um selinho nesse episódio. É incrível como a série ainda consegue manter a relação entre Kim e Jimmy sob uma profunda névoa de ambiguidade.

– Palmas para a edição e mixagem de som pelo toque de criatividade. Na cena em que Jimmy tenta obter acesso aos seus clientes no retiro e é impedido pela recepcionista o som de papel triturado interage perfeitamente com o que ocorre na tela além de adicionar um agradável efeito cômico. A cena em que Chuck sai de sua casa e finalmente percebe o que está fazendo também foi brilhantemente editada: é possível sentir todos os aparelhos eletrônicos perfurando o cérebro do personagem com aquele zumbido indefinido.

– Dica de leitura: uma entrevista com os showrunners  sobre a curta e bizarra abertura da série no site na Hitfix.

Fotografia da semana: escolha difícil. Fico com esse espetacular frame do encontro entre Chuck e Jimmy e os advogados do retiro. A “doença” do McGill primogênito é uma desculpa perfeita para brincar com sombras e luzes dentro de uma casa sem eletricidade e esse é de longe o melhor resultado alcançado até agora. Percebam a semelhança proposital entre as figuras de Chuck e Jimmy.

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