Precisamos falar sobre o Mike.
Em algum ponto dessa primeira temporada Better Call Saul teria que expandir a participação de Jonathan Banks para algo além de validar tickets de estacionamento. O último episódio sugeriu que esse seria o momento para uma expansão de narrativas e acabei me sentindo muito surpreso pelo que Five-O me fez sentir: que esse foi o pior episódio de BCS até agora.
Eu imagino os criadores da série debatendo esse episódio durante a produção e partindo de uma premissa simples: vamos contar a história de Mike. É possível que eles já tenham começado errado. Seria adequado interromper a interessantíssima trama de Jimmy e Chuck para um episódio inteiro focado em outro personagem? Nesse caso fico em dúvida. Não seria melhor contar a história de Mike aos poucos, como vem sido feito com McGill? Aí já sinto que devo concordar.
O problema não tem relação nenhuma com os personagens e sua atuação, mas sim com a estrutura e o roteiro do episódio. Começamos com uma longa conversa entre Mike e Stacey onde o expectador não faz a mínima ideia do que está acontecendo e o roteiro tem que compensar com vastas quantidades de diálogo expositivo (algo que se repete no decorrer de todo o episódio). No decorrer de Five-O somos expostos a vários pedaços do passado de Mike de uma forma que não se parece com aquela que Vince Gilligan sempre conta uma história. Esse é um episódio com a função única e exclusiva de nos revelar o que aconteceu com o personagem, e esse objetivo ficou dolorosamente claro durante todos os quarenta minutos.
Também é importantíssima a história em si. Gilligan sempre teve o dom de nos apresentar a histórias imprevisíveis, criativas e emocionantes. Contar tudo de um jeito diferente do que os outros contam. A jornada de Mike não possui esse mesmo brilho, intercalando flashbacks no estilo “foi isso o que aconteceu” com cenas em tempo real fazendo a mesma coisa só que de forma oral e tirando a emoção e imprevisibilidade da cena mais explosiva do episódio ao nos fornecer em detalhes o resultado do tiroteio numa sequência anterior. Se fôssemos parar para pensar toda a plot desse episódio é bem derivativa. Policiais corruptos. Vingança pessoal. Alguns dilemas morais (como esquecê-los) para apimentar.
Isso não ofusca a atuação de Jonathan Banks, que já tem sua Emmy tape envelopada para presente nesse episódio. O problema é o roteiro com o qual ele tem que lidar, muitas vezes discorrendo longamente sobre fatos passados que não nos são familiares. “Matt era isso, Matt era aquilo”. É distante, árido e pouco funcional.
Essas críticas podem ser duras, mas nesse momento é necessário que vocês se lembrem de todas as outras histórias que Breaking Bad e até mesmo BCS já contaram. Não fazem três semanas que tivemos um flashback incrível no qual Jimmy orquestrava um golpe envolvendo um bêbado caído no beco e um Rolex falso. É uma cena divertida, surpreendente, imprevisível e reveladora sobre o personagem. Temos vários outros exemplos parecidos na obra de Vince Gilligan, onde a série precisa contar algo sobre o personagem e o faz de forma que não tenhamos a impressão de que aquela cena foi feita com esse objetivo. Ela simplesmente se encaixa com perfeição ao restante do episódio.
Outro ponto revelador talvez seja a curta aparição de Jimmy no decorrer de Five-O. Eu me senti profundamente feliz por ver o personagem e percebi que tudo fluiu melhor com sua presença. O contraste entre os dois é um dos principais fatores que tornam BCS divertida. Em Breaking Bad esse contraste com Jesse também era interessante e cômico. O personagem de Mike é muito mais apreciável quando está na companhia de alguém, seja Jesse, Jimmy ou até mesmo Walter. Quando sozinho seu modo taciturno de agir perde o brilho sem o contraste com outra personalidade mais expansiva e se torna um pouco monótono.
Mesmo assim creio que Five-O serviu para pelo menos nos explicar melhor sua atitude geral em relação ao mundo. Na sala de interrogatório ele se limita a pronunciar uma única palavra frente aos policiais que tentam persuadí-lo com conversa fiada e pretensa amizade: advogado. A experiência de Mike durante seus trinta anos de serviço policial, corrompendo a si mesmo e vendo seu filho sofrer e morrer pela mesma corrupção, deixou-lhe profundamente cansado com todo o falso moralismo que Walter White mais tarde iria expressar em quantidades épicas. Ele não tem paciência para justificativas: quebre as regras ou não quebre, pouco me importa, mas não me encha o saco por causa disso.
Bullet Points
– A cena na qual Jimmy derruba o café e Mike se apressa para pegar o bloco de notas do policial é conduzida de forma incrível. Não há nenhum corte e é possível acompanhar em detalhes toda a movimentação de Mike colocando uma das mãos na mancha de café e a outra no bolso do paletó.
– Outra cena muito criativa: Mike abrindo o carro da polícia (para esconder uma arma no banco traseiro) usando um barbante. A cena é tão autoexplicativa que se assemelha a um tutorial. Alguém se disponibiliza a tentar?
– Jonathan Banks faz a melhor imitação de uma pessoa bêbada que já presenciei na vida. Em alguns momentos eu sabia que ele estava planejando algo mas continuava pensando “Não é possível, ele deve estar meio chapado”.
– Fotografia da semana: a foto de capa dessa review com o barbante e o rosto de Mike desfocado é realmente espetacular, mas acho que o shot inicial do episódio é ainda melhor por estabelecer logo de cara que tem algo de diferente em Five-O. A iluminação geralmente amarelada de BCS é substituída por um azul lindo de se ver e essa diferença tão abrupta no estilo da série transforma essa fotografia em algo especial. O azul permanece por boa parte do episódio mas a primeira vez é sempre a mais gostosa.














