
Um final digno para um projeto que merece toda nossa atenção e respeito.
Spoilers Abaixo:
Pra começar eu gostaria de dizer que Afterbirth não devia se chamar Afterbirth, porque esse final foi muito mais do que simplesmente a conclusão da trama sobre os filhos de Vivien. Esse final foi sobre pecado, culpa, reação e karma. E embora não tenha sido tudo que eu esperava, foi muito mais do que eu previa. Contraditório? Em se tratando de Ryan Murphy poderíamos esperar as mais enlouquecidas viagens, e que maravilha perceber que embora tenhamos viajado, foi bom pra caramba chegar até aqui.
Existem dois pontos importantes que também merecem ser colocados logo de cara: o primeiro deles é que depois desse finale, podemos dizer de boca cheia que American Horror Story é uma série boa sim. Tem defeitos e enganos como qualquer outra, mas é esperta, inteligente, ousada e provocativa. E digamos isso sem medo de ser feliz, ignorando a corrente que tirou e cristalizou suas conclusões no episódio piloto. O cinismo que produz comentários que se apóiam no deboche, impede qualquer chance de entender e apreciar a série. Então, se você é daqueles que não curtiram, e que encaram tudo aquilo com um sorriso de lado e um olhar blasé, pare por aqui.
A segunda coisa a ser considerada é que tá na hora de parar de usar o argumento do “é um monte de clichês”, pra apoiar suas críticas negativas. Me fala uma série hoje em dia que não repita clichês clássicos ou contemporâneos? O clichê é parte da vida e está quase sempre caminhando ao lado da catarse. Tem que saber usar esse vilão a seu favor, e American Horror Story sabe fazer isso como poucas. O que parece é que a pessoa vê, no fundo gosta muito, mas não quer parecer out perante a crítica erudita, ou não quer perder os traços de anarquia que lhe distinguem da “maioria”, então o comentário que vem é um simples: legal, mas é só um filme de “terror” em 12 partes. E é mesmo, mas com toda licença, são 12 partes que nos salvam do marasmo televisivo de um jeito que ultimamente andava bem difícil de acontecer.
Feita a minha árdua defesa, vamos ao episódio.
O teaser já nos indicava pra onde iríamos e foi uma sábia decisão da roteirista. No episódio passado, Ben perdeu a esposa e viu-se só. A filha já estava na ala dos mortos e nada melhor então, do que começar esse finale reforçando essa solidão do personagem. Acho uma decisão perigosa, já que acabamos caindo no maniqueísmo do crime/castigo. Ben traiu e sua traição gerou uma rede de eventos trágicos que culminaram com a mensagem: cuidado onde você enfia o seu pinto. Não que eu defenda a traição, mas ao mesmo tempo acho um desserviço perpetuar essas culpas religiosas. No entanto, entendo a posição da série, já que Ben é a representação maior do americano pai de família, profissional, temente a Deus… E incapaz de conter impulsos sexuais.
Aí temos a cena com Constance (Jéssica indicada, yes!) e essa é a primeira parte de um episódio que se dividiu claramente em dois caminhos. No primeiro, as deliciosas seqüências em que a mitologia é abordada. Maravilha ver Vivien tentando entender a dinâmica da casa. E Moira com falas ótimas, ensinando, tentando convencer Viv a não aparecer para o marido.
A morte de Ben esbarra naquelas mesmas questões que já citei acima, mas reside aí uma das qualidades da série. Acho essa morte um problema de conceito. Acho que funcionaria melhor se Ben continuasse vivo, sozinho… Era uma idéia que me atraía mais… Mas ao mesmo tempo, a morte foi tão cool, que eu acabo perdoando e me divertindo. E digam o que quiserem, mas eu gosto tanto desses diálogos que falam das regras da casa: morreu aqui, ficou aqui… Sair só no dia das bruxas… se quiser aparecer é só querer e será possível…corre daqui de dentro antes que você morra… Percebi que fui tolo em querer uma explicação pro fato dos fantasmas conseguirem tantas coisas com os vivos. A casa tem energias tão catalisadoras que faz sentido pra mim que elas tenham crescido a ponto de se fundirem à realidade. Essa fundição acaba criando um meio do caminho que permite tanta interação. Claro que acabamos não sabendo de verdade o que aconteceu, mas ficar querendo tudo explicadinho é coisa de gente medíocre.
Então temos a segunda parte conceitual do episódio e foi nessa que alguns erros foram cometidos.
Claro que é bacana ver outra família na casa, mas todas aquelas seqüências dos Harmons tentando afastar os novos moradores soaram ligeiramente jocosas. Entendo o raciocínio, entendo a tentativa de dar à família Harmon alguma redenção e essa redenção vir do desejo de impedir novas mortes dentro da casa… Mas ao mesmo tempo, não acho que estejamos diante de uma série que se preocupe com redenção. Um final feliz (mesmo que após a morte) não era o que eu queria para o programa. Essa coisa de árvore de Natal e luzes piscando não é parte de um compromisso de coerência com a dramaturgia. Redenção é coisa para heróis e não temos heróis em AHS. Abriria mão de todas aquelas seqüências e ficaria só com as implicações pessoais da trama.
Tate acabou não sendo mesmo mais do que um psicopata. De tudo que não foi explicado, o que mais me incomodou é como ele foi capaz de gerar um filho (que será tão mau quanto ele). Essa fundição que mencionei acima é insuficiente para determinar tamanha liberdade criativa. Mas toda sua tentativa de convencer Ben de suas boas intenções é desmascarada quando vemos a babá do pequeno Michael morta. Tate é mau em essência e isso é tudo que ele consegue produzir.
Viv ganhou ao menos um dos seus bebês, e infelizmente continuou sub-aproveitada. Entretanto, muito bacana vê-la dando nomes ao bebê e fazendo planos… E aí a gente pensa: planos para uma eternidade sendo mãe de um recém-nascido. E é esse tipo de conclusão sobre a mitologia que a torna tão atraente.
Para o último momento, a melhor de todas. Constance encerra seu capítulo de maneira tão brilhante quanto seu início. Jéssica Lange acredita e defende essa personagem com uma credibilidade impressionante. Não acho que cuidar de um novo Tate tenha sido a melhor decisão final sobre a personagem, mas de fato o que importa é que Constance acaba sendo não só a melhor das peças desse jogo, como também a única incólume. Intocável e soberana. Tirando da casa o que quer e dando a volta por cima das coisas que a casa tirava dela.
Por fim, dou-me por satisfeito e saio dessa experiência bem contente. Murphy já confirmou que começamos tudo do zero ano que vem, e mesmo sabendo que sentirei falta dessa gente estranha, me animo com a possibilidade do que vem por aí.
Vocês devem ter visto aqui no blog que a série foi um fenômeno de audiência. Isso não quer dizer nada (afinal de contas, Terra Nova também é), mas pra quem torce por renovações é importantíssimo. A crítica, embora relutante, cedeu em alguns setores. A série foi indicada a melhor drama e desbancou até a toda poderosa Breaking Bad (não vamos declamar rosários sobre merecimento, falou galera?). Acho que isso tudo pode cair por terra na próxima temporada, mas Murphy merece muitos aplausos por ter conseguido – de novo – sacudir o mundo televisivo com séries ousadas e incômodas. E atenção leitores-enxaqueca, ousado não quer dizer original. Há ousadia no que já foi dito. Basta dizer de novo de um jeito diferente.
Quero agradecer a todo mundo que me acompanhou até aqui e dizer que espero a galera no ano que vem. É muito bom escrever pra vocês. Muito bom.
Diários de Addy Inesquecível: Tate Filho com cara de sapeca depois de matar a empregada foi legalzão. E o assobio no fundo?
Diários de Addy Inesquecível 2: Senti falta de Zachary Quinto. O personagem é outra delícia. Vai ser ruim mesmo deixar esse casting pra trás.
Diários de Addy Inesquecível 3: A Tour Eternal Darkness passando pela casa e falando dos Harmons também foi bem bacana. Achei que eles iam citar Viv como antiga cliente da excursão.
Diários de Addy Inesquecível 4: Addy mesmo só num flashback bem rapidinho. Uma pena… E ao mesmo tempo, como pode uma personagem aparecer tão pouco e já ser tão festejada?














