No julgamento dos “big moments” a promotoria fez o pior deles.
Uma coisa que American Crime Story tem feito com maestria é construir uma narrativa que leva o espectador a compreender não só a forma como esse caso foi levado, como as motivações de seus envolvidos. O painel social daquela Los Angeles dos anos 90 é fidelíssimo e a maneira como é manipulado pelo time da defesa chega a ser chocante. Precisamos tirar o chapéu para eles… O Dream Team eleva ao máximo as noções relativistas da advocacia e faz um flerte esperto com a encenação. Sim, porque um advogado é antes de tudo um “ator acidental”. Ruim, clichezado, mas por isso mesmo eficiente com as massas.
A teoria dos “big moments” se aplica nesse caso como uma luva (opa, olha ela aí). A sequência que abre o episódio, com Alan Dershowitz enviando um fax direto para Johnny no tribunal realmente aconteceu e faz parte do teatro de emoções planejado por eles para eclipsar as evidências. Marcia e Darden demoraram muito para compreender que a forma prática com a qual conduziam o caso não era páreo para as “cenas” eloquentes orquestradas por Cochran. Darden, sobretudo, levava muito mais a sério o que Marcia passava as tardes ignorando. Havia sim um circo de mídia e Johnny era o mestre.
Conspiracy Theories apresentou para o público leigo o lastimável episódio das luvas. E o fez naquele mesmo ótimo clima de tensão que tem feito dessa série um primor. Ryan Murphy busca uma identidade visual em todos os seus trabalhos e já se pode dizer que ACS tem suas cores quentes, seus planos dramáticos e construções narrativas tensionadas muito bem marcados. Para o tamanho do que esse caso representa, todas decisões estilísticas acertadas. Vi muita gente desistindo da série porque “a direção incomoda”, mas estou muito mais inclinado a acreditar que o problema é o nome nos créditos do que o resultado criativo. Murphy é o cara do incômodo, o que é ótimo para ele. Em meio ao tratamento visual, um roteiro que consegue a façanha de reunir uma quantidade absurda de detalhes e coloca-los na tela de forma fluída. Realmente impressionante.
Foi grande entusiasmo que os fãs que não conhecem a história devem ter recebido a ótima notícia sobre o registro das luvas que Nicole comprara para OJ. A alegria dos promotores não deixava de ser perturbadora… Nicole comprou as luvas e as deu para o marido de presente de Natal. Anos depois, ele as estaria usando no momento de matá-la.

Na foto acima OJ está usando as luvas que ganhou e que supostamente seriam as do crime. Especula-se que a razão pela qual o assassino teria deixado uma delas no local do crime foi porque com ela, não seria capaz de sentir a pulsação das vítimas, correndo o risco de deixa-las vivas no local. Algo o teria perturbado (algum barulho ou aproximação de vizinhos) e ele teria deixado não só a luva como a touca que também foi encontrada no local. Na casa de OJ, foi encontrado o outro par e juntas, essas luvas foram testadas ao extremo, passando por uma infinidade de processos químicos que sem dúvida nenhuma, alteraram sua composição.
O time da promotoria, entretanto, não sabia disso e comemorou mais uma evidência – depois de algumas dezenas delas – que eles acreditavam ser suficiente para condenar o homem. O problema é que nem Marcia e nem Darden eram bons com encenação, com “big moments”. Apenas advogados que precisam defender criminosos se treinam para isso. Darden e Marcia julgavam que contra provas não há argumentos, uma máxima honesta, mas extremamente relativa. Johnny e seu time venciam batalha após batalha apoiados simplesmente em argumentos e narrativas. E o pior é perceber como essas dissertações conseguiam, efetivamente, esmagar qualquer evidência.
Marcia e Darden, inclusive, tiveram a relação deles novamente explorada nessa semana. Está havendo um enorme cuidado com isso justamente porque os dois estão vivos e qualquer exagero pode feri-los desnecessariamente. A elegância na abordagem do assunto é evidente, contudo. A viagem que os dois fazem é descrita nos relatos de ambos e o clima parece ter sido muito parecido com aquele. Darden inclusive descreve a volta dos dois para o hotel, mas afirma que a ótima cena em que Marcia espera um beijo e ele hesita em dar, não existiu. A série acerta de novo aqui, já que manter a tensão sexual entre os personagens é um elemento fictício importante e redime Marcia mais uma vez, que sempre fora tratada como uma mulher sem atrativos.
É desse momento também uma das melhores sequências do show, quando Marcia mostra de forma impressionante, que não haveria como as evidências contra OJ terem sido plantadas. Quanto mais ficamos íntimos dos detalhes, mais assustadora parece a forma como o acusado continua saindo por cima em todas as investidas contra ele. O panorama montado por Marcia é completamente conclusivo, mas naquele momento da história, a comunidade afro-americana não estava disposta a aceitar a culpa de um ídolo, de um herói.
No vídeo acima, o verdadeiro Johnny Cochran responde a uma pergunta de Oprah sobre o momento em que ficou claro para ele que o julgamento estava vencido. Ele diz que a prova das luvas foi determinante e assume, no minuto 00:41, que ele mesmo provou as ditas cujas antes de OJ. O vídeo é emblemático, Johnny está mecânico, robotizado, muito diferente do homem intenso que age nos tribunais. Jeffrey Tobin, em seu livro, diz que o circo todo em torno das luvas foi muito pior. Apesar de Shapiro ter realmente colocado as mesmas ali no tribunal, elas foram examinadas à exaustão pela equipe da defesa, que estava ansiosa para que a promotoria realmente fizesse o pedido de prova.
Sterling K. Brown fez um trabalho lindo com Christopher Darden nesse episódio. Foi muito interessante ver no semblante dele a construção dos impulsos que o levaram a pedir a prova das luvas. Ele compreendia os movimentos de Johnny, queria provar algo para si mesmo e queria impressionar Marcia. O olhar entre eles na cena do quase beijo foi incrível… No programa de Ellen, alguns dias atrás, a verdadeira Marcia recusou-se a assumir o romance com Chris, mas reiterou que nunca quis que ele tivesse dado o infame passo que resultou no afundamento definitivo da acusação. Ela e Chris, segundo o livro de Tobin, quiseram que o juiz permitisse que OJ provasse uma réplica exata das luvas, que eles tinham encomendado com o fabricante. Mas, o juiz Ito recusou-se. Então, ficou combinado que eles não fariam OJ provar as luvas verdadeiras, o que Chris acabou decidindo fazer depois da provocação de Lee Bailey (que realmente aconteceu). Marcia, entretanto, sabia dessa possibilidade e por isso no vídeo abaixo, ela não parece surpresa quando Chris toma a decisão.
É exatamente no minuto 1:14 que podemos ver o início da prova. É um momento peculiar… Para mim, o mais assustador é o sorriso de triunfo de OJ. Ele mal consegue acreditar que se safara daquela evidência. As luvas realmente não entram e ele aproveita para seguir a cartilha de Johnny, aproveitando e explorando esse momento ao máximo. O impacto é brutal, faz com que as chances de uma condenação escorram pelos dedos, porque como Marcia mesmo disse na entrevista com Ellen, se o júri não está interessado em evidências, não importa o quanto você as apresente. O “big moment” de Chris reiterou a narrativa de Johnny e o estrago foi feito.
Ficou o momento triste, difícil, em que Darden precisou ligar para os Goldmans para se desculpar pelo ocorrido. E a série mostrou-o ligando para eles porque são eles, os parentes de Ron Goldman, as vítimas mais esquecidas daquele circo. São eles que não veem o nome de seu filho ser citado, que quando veem é num contexto de oportunismo, como se ele fosse o amante garotão que foi impedido de explorar Nicole ao morrer junto com ela. Por isso, American Crime Story encerrou seu sétimo episódio evidenciando mais uma agressão deliberada ao conceito de justiça… Chega a doer um pouquinho só de ver.
Notas de um Crime:
- Vencida pelo cansaço, Marcia alisa o cabelo, enfim.
- Vimos os momentos em que Robert Kardashian começa a hesitar. A tal bolsa que OJ deixou com ele é muito citada pelo pai de Ron Goldman, que afirma que OJ teria pedido que Robert eliminasse evidências. Kardashian contou em entrevistas que tentou entregar a bolsa para a polícia, mas ela não quis.
- Johnny provou um pouco do próprio veneno quando foi exposto. E as histórias eram verdadeiras, só não há registros de que foram divulgadas num talk show.
- Shapiro, louco, realmente ainda tentava selar acordos e desfilou com o broche de apoio a polícia só para provocar Johnny e se impor.
- Abaixo, o vídeo da entrevista de Marcia na Ellen, onde a apresentadora falou lindamente sobre como os EUA deviam desculpas a ela por tudo que a fizeram passar.















